Cicatrizes do Passado

1311 Words
**Zara** As palavras de Mara ecoavam na minha cabeça, como um veneno que se espalhava lentamente pelo meu corpo. "Você nunca foi filha dele." O meu coração batia acelerado, as minhas mãos tremiam, e, apesar de estar fisicamente no shopping, rodeada por pessoas, sentia-me em outro lugar, num abismo profundo de dor e confusão. Fenrir estava ao meu lado, mas eu não conseguia sentir a sua presença. Tudo o que eu conseguia pensar era no que Mara tinha dito, como se cada palavra tivesse rasgado uma parte de mim que eu nunca soube que existia. Eu não era filha de James. Como isso podia ser verdade? Como isso mudava tudo o que eu sabia sobre mim? Subitamente, flashes de memória começaram a surgir, arrastando-me para um passado que eu não queria revisitar. Lembranças que sempre tentei empurrar para o fundo da minha mente, mas que agora se libertavam com uma força que eu não conseguia controlar. --- James, o alfa c***l da alcateia onde eu crescera, sempre foi distante, frio, mas eu tentava desesperadamente agradá-lo. Na minha mente de criança, acreditava que, se eu me esforçasse o suficiente, se fosse obediente, ele poderia me amar como um pai deveria amar uma filha. Lembrava-me das vezes em que o chamava de "pai", tentando, na inocência da infância, criar uma conexão que nunca existiu. Mas o que recebi em troca? Dor. Dor física e emocional que marcava a minha alma mais profundamente do que qualquer cicatriz que eu carregava no corpo. "Você não é minha filha," ele gritava, sua voz carregada de raiva, enquanto me batia com o chicote impregnado de acônito. Lembrava-me de como ele olhava para mim com desprezo, como se eu fosse nada além de um fardo para ele, uma mancha que precisava ser apagada. Eu caía no chão, machucada, mas o que mais me doía eram as palavras. Eram nesses momentos, quando eu caía de joelhos diante dele, com lágrimas escorrendo pelo rosto, que ele ria de mim. Não havia compaixão, apenas humilhação. "Chame-me de pai de novo, e verá o que acontece," ele zombava. E mesmo sabendo o que viria, eu ainda chamava, com uma esperança tola e desesperada. E a dor vinha logo em seguida. --- Outro rosto emergiu das profundezas da minha mente: Paola, minha irmã mais velha, que deveria me proteger, mas que se deleitava em me ferir tanto quanto James. Ela adorava me ver sofrer, amava me humilhar. "Sua suja, bastarda," ela me chamava, jogando aquelas palavras cruéis como se fossem pedras. Ela não precisava de motivos para me machucar, bastava uma oportunidade, e eu sempre era o alvo fácil. O fato da minha mãe ter morrido quando eu nasci apenas aumentando a raiva que ela sentia por mim. Havia tantas ocasiões em que ela me empurrava contra a parede, me segurando pelo pescoço, a suas unhas afiadas cravando-se na minha pele, enquanto me sussurrava ao ouvido: "Você não é nada. Você nunca será nada. James não é seu pai. A sua mãe era uma traidora, e você é a prova viva disso." Eu chorava, impotente, sentindo o desprezo de Paola corroer o meu espírito como ácido. Naquela época eu pensava que ela apenas falava aquilo para me magoar, então nunca pensei muito sobre o assunto. As agressões físicas eram constantes, mas as verbais deixavam marcas mais profundas. Paola era c***l, mas sua crueldade não era gratuita. Havia algo mais, uma verdade sombria que, até agora, eu nunca havia compreendido completamente. Mas, com as palavras de Mara, tudo começou a fazer sentido. --- Fenrir estava ao meu lado, mas eu me sentia tão distante dele naquele momento. Ele me guiava para fora da loja, tentando me proteger, mas eu estava perdida no caos das minhas lembranças. Cada palavra de Mara, cada memória dolorosa de James e Paola se somavam, formando uma muralha de dor e vergonha que parecia impossível de escalar. — Zara, está tudo bem — murmurou Fenrir, sua voz gentil e preocupada. Eu sabia que ele estava tentando me acalmar, mas as palavras dele m*l me alcançavam. A tempestade na minha mente era avassaladora. — Não... não está — murmurei, m*l conseguindo manter a voz firme. Nós paramos num canto mais afastado do shopping, onde o barulho das pessoas parecia distante. Fenrir se virou para mim, tentando olhar nos meus olhos, mas eu não conseguia encará-lo. O peso da vergonha era esmagador. As memórias de James batendo em mim, de Paola me chamando de bastarda, e agora, a revelação de que eu nunca fui filha dele... tudo isso me esmagava. — Zara, olhe para mim — pediu Fenrir, sua voz firme, mas cheia de ternura. — O que Mara disse... não importa. O que aconteceu no passado, não define quem você é agora. As minhas mãos tremiam, e as lágrimas que eu tentava segurar começaram a escorrer pelo meu rosto. Afastei-me dele, instintivamente. Não conseguia suportar o olhar dele, tão cheio de amor e compreensão. Eu não merecia aquilo. Não depois de tudo que soube sobre mim mesma. — Você não entende — murmurei, dando um passo para trás. — Agora que sei a verdade... eu... sou suja. — As palavras saíram num sussurro, mas cada uma delas doeu mais do que eu podia suportar. — Eu sou uma bastarda, Fenrir. James tinha razão. Ele me odiava porque eu nunca fui dele. Eu olhei para ele finalmente, mas o que vi no rosto de Fenrir não era a reação que eu esperava. Não havia desprezo, nem choque, nem qualquer resquício de repulsa. Havia apenas amor e uma profunda tristeza. Ele deu um passo à frente, mas eu recuei. — Não se aproxime — pedi, sentindo uma onda de vergonha tomar conta de mim. — Eu... eu não sou digna de você, Fenrir. Tudo o que vivi, todas as mentiras... eu sou uma fraude. Uma suja. Minha mãe... ela... — Minhas palavras se perderam em soluços descontrolados. — Zara, pare com isso — disse ele, sua voz agora mais firme, mas ainda suave. — Você não é nada disso. Nada. O que James fez, o que ele disse, não tem nada a ver com quem você realmente é. Você é forte, você sobreviveu a tudo isso, e agora está aqui. Ao meu lado. E é onde eu quero que você esteja. Eu balançava a cabeça, sem acreditar nas suas palavras. Não podia acreditar. Tudo o que eu conhecia, tudo o que eu pensava ser verdade, estava desmoronando. — Eu não sou quem você pensa que eu sou — murmurei, desesperada. — Como você pode me amar, sabendo que a minha própria mãe traiu o alfa? Que eu sou fruto de uma traição? Eu... eu sou um erro. E se soubesse disso desde o começo, não estaria aqui. Fenrir parecia prestes a dizer algo, mas eu não permiti que ele se aproximasse mais. Dei mais um passo para trás, criando uma distância física entre nós, tentando impedir que ele visse o caos dentro de mim. Eu me sentia despedaçada, e a única coisa que eu podia fazer era me distanciar, antes que ele visse o quanto eu realmente estava quebrada. — Eu preciso de um tempo — sussurrei, sentindo a dor latejante no peito. — Eu preciso entender... tudo isso. Fenrir hesitou por um momento, mas finalmente assentiu. Eu sabia que ele estava tentando me dar o espaço que eu precisava, mas o olhar de dor e preocupação nos seus olhos me fez sentir ainda mais suja, mais indigna do seu amor. Afastei-me lentamente, sem olhar para trás, enquanto a confusão e a vergonha me consumiam. As palavras de Mara, as lembranças de James e Paola, tudo isso agora fazia parte de uma teia de mentiras e dor que eu não sabia como desfazer. E, enquanto me distanciava de Fenrir, a única coisa que sentia era que talvez ele estivesse melhor sem mim.
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