Sombras da Sobrevivência

1417 Words
**Diana** O encontro com Mara no shopping me atingiu como um soco no estômago. A sua presença, seu olhar c***l, o sorriso venenoso que ainda conseguia encher o meu corpo de pavor, tudo isso trouxe à tona lembranças que eu sempre tentei manter enterradas. Desde que deixei a alcateia de Alfa James, havia tentado me convencer de que aquilo era um pesadelo do qual tinha finalmente escapado. Mas ver Mara ali, tão perto de mim, reabriu feridas que eu não sabia que ainda estavam tão expostas. Eu estava sentada no canto do quarto do hotel, onde Fenrir tinha nos trazido após o confronto no shopping. Dante estava sentado perto de mim, em silêncio, respeitando o meu espaço, mas a tensão no ar era palpável. Ele estava furioso, e eu sabia que parte da sua raiva era pela forma como Mara havia me tratado, mas também porque ele sentia que não podia me proteger do meu próprio passado. O meu corpo ainda tremia com o impacto das lembranças que aquele encontro despertara. Lembranças que eu preferia esquecer, mas que agora me atormentavam como fantasmas que nunca me abandonaram. Eu me lembrava das vezes em que precisava roubar comida para sobreviver. Na alcateia de Alfa James, ninguém se importava com meninas órfãs como eu. Eu era apenas uma intrusa, uma boca extra para alimentar, e isso era algo que me faziam lembrar todos os dias. Eu sabia que, se quisesse continuar viva, precisava encontrar maneiras de sobreviver. Às vezes, isso significava entrar na cozinha quando ninguém estava por perto, pegar restos de comida ou até mesmo roubar das despensas, tudo feito às escondidas. Mas nem sempre eu conseguia ser discreta. Mara, a cozinheira sádica da alcateia, parecia ter prazer em me pegar. Era como se ela me esperasse cometer o menor erro, pronta para me punir. Eu me lembrava das vezes em que, revirando o lixo atrás de algo para comer, sentia a sua mão agarrando o meu cabelo, puxando-me com força e jogando-me ao chão. "Rata imunda," ela dizia, a voz carregada de desprezo. "Se você quer comida, então trabalhe por ela. Não pense que pode viver aqui de graça." Eu nunca vivia de graça. O preço que pagava pela comida e pela moradia naquela alcateia era a minha dignidade, o pouco que restava de mim. As palavras de Mara, os olhares de desprezo, e, pior, as agressões físicas eram uma constante na minha vida. Lembrava-me das vezes em que ela me arrastava para fora da casa durante o inverno, jogando-me na neve, deixando-me trancada do lado de fora como se fosse um cão indesejado. As noites de inverno eram as piores. Se não fosse por Zara, eu teria morrido. Havia uma árvore na floresta, longe dos olhos vigilantes de Mara e dos outros da alcateia, onde Zara e eu escondíamos comida uma para a outra. Um buraco na árvore era o nosso esconderijo secreto. Zara sempre deixava algo para mim — um pedaço de pão, algumas frutas secas — qualquer coisa que me ajudasse a sobreviver. Eu fazia o mesmo por ela quando conseguia algo. Aquela árvore era a única coisa que me dava esperança, e o fato de que Zara estava lá por mim era o que mantinha o meu espírito vivo. Ela era a única pessoa que se importava de verdade. Mas nada disso apagava a dor. O frio que penetrava os meus ossos durante as noites que passava trancada do lado de fora ainda estava fresco na minha memória. Eu me encolhia na neve, tremendo, tentando me aquecer, desejando que o pesadelo acabasse. Quando Zara aparecia, me puxava para perto dela, dividindo o pouco calor que tinha. Ela nunca dizia nada, mas eu sabia que compartilhávamos o mesmo fardo. Sabíamos que a nossa sobrevivência dependia uma da outra. Agora, Mara estava ali, viva, andando livremente como se nada daquilo tivesse importância. O ódio que senti ao vê-la me fez querer gritar, mas, ao mesmo tempo, tudo o que eu conseguia fazer era recuar, como a menina assustada que um dia fui. Dante estava observando-me, seus olhos fixos em mim. Eu sabia que ele estava esperando o momento certo para falar, mas seu silêncio era tão forte quanto a sua raiva. Ele era um homem de ação, e ver-me assim, quebrada e revivendo um passado que ele não podia mudar, o deixava furioso. — Diana — ele finalmente quebrou o silêncio, a voz grave e suave ao mesmo tempo. — O que Mara fez com você... o que todos eles fizeram... — ele parou, como se as palavras não fossem suficientes para expressar o que ele realmente sentia. — Eu não posso mudar o que aconteceu, mas você precisa saber que nunca mais vai passar por isso. Eu virei o rosto para ele, as minhas mãos ainda trémulas. As palavras de Dante eram reconfortantes, mas a verdade era que ele não podia apagar o passado, e eu não conseguia parar de sentir a dor que me atormentava. — Eu me lembro de tudo — sussurrei, minha voz embargada. — Cada vez que roubava um pedaço de pão, cada vez que revirava o lixo atrás de comida, e Mara... ela sempre me encontrava. Sempre me fazia pagar. — Minha voz falhou, e eu senti as lágrimas voltarem, mas continuei. — Ela me trancava do lado de fora, no frio, como se eu fosse um animal. Como se eu não fosse nada. Se não fosse por Zara... — Minha voz sumiu, e as lágrimas finalmente caíram. Dante se aproximou, o corpo enorme e forte tentando oferecer o consolo que eu tanto precisava. Ele não disse nada por um momento, e eu sabia que ele estava tentando controlar a sua própria raiva. A simples ideia de alguém me machucando era algo que ele não conseguia suportar. — Eu deveria ter estado lá — ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim. — Eu deveria ter impedido tudo isso. — Você não podia — rebati, limpando as lágrimas. — Não havia como você saber. Ninguém sabia. Era assim que funcionava naquela alcateia. Todos fingiam que nada acontecia. Eu era só uma órfã. Não tinha valor. Dante respirou fundo, e a tensão nos seus músculos era visível. Ele estava lutando contra a raiva, tentando mantê-la sob controle por minha causa. — Mas agora você está aqui — ele disse com firmeza, segurando o meu rosto com as mãos grandes, mas suaves. — E ninguém vai tocar em você. Nunca mais. Os seus olhos estavam cheios de fúria, mas também de algo mais — uma promessa silenciosa de proteção. Dante sempre teve essa presença protetora, e eu sabia que, para ele, o fato de eu ser sua companheira significava muito mais do que qualquer coisa que eu pudesse entender. Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar era em como a minha vida tinha sido marcada por tanto sofrimento. — Eu não sei como parar de sentir isso — confessei, baixando o olhar. — Não sei como seguir em frente, como deixar isso para trás. — Eu não espero que você faça isso sozinha, Diana — ele respondeu, sua voz baixa e grave. — Eu vou estar com você. Passo a passo, até que essas memórias sejam apenas isso: memórias. Elas não vão mais controlar você. Não enquanto eu estiver ao seu lado. Houve um silêncio pesado entre nós, mas diferente do silêncio de antes. Agora, havia uma leveza, uma sensação de que talvez, com o tempo, eu pudesse começar a acreditar nisso. Mas, por enquanto, as feridas ainda estavam abertas, e o peso do que eu tinha vivido ainda me prendia ao chão. Dante me puxou para perto, envolvendo-me nos seus braços. E pela primeira vez desde que saímos do shopping, eu me senti segura. Verdadeiramente segura. Ele era um muro inquebrável ao meu redor, e eu sabia que ele não apenas dizia que me protegeria — ele realmente faria isso. — O que você passou... — ele começou, a voz com um toque de emoção que raramente via nele —, eu nunca vou poder tirar isso de você. Mas vou passar o resto da minha vida te ajudando a curar. Prometo, Diana. Você não está sozinha mais. Nunca mais. Eu me aconcheguei no peito dele, deixando que o calor e a segurança dos seus braços me envolvessem completamente. E, pela primeira vez, permiti-me acreditar que talvez, só talvez, pudesse haver um futuro para mim onde a dor não fosse a única coisa que me definisse.
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