Buscas no Passado

1236 Words
**Isacar** Apesar de tudo o que tinha visto, eu tinha as minhas desconfianças, não da Luna de Alfa Fenrir, mas de tudo o que já haviam contado para aquela menina durante a sua vida. Não gosto de mentir, mas, até ter absoluta certeza de que ela estará segura com Fenrir, não poderei revelar nada do que sei. Quase não consegui esconder a conexão que se formou entre nós dois, um laço que só era explicado pelo fato de a pequena Luna pertencer à minha família. Agora, como isso aconteceu, é outra história. Lobos dourados só conseguem se comunicar entre si quando pertencem à mesma família, o que, obviamente, eu não contei ao Alfa Fenrir. Caminho de um lado para o outro do meu quarto, pensando numa forma de resolver aquele problema sem levantar suspeitas de ninguém. Não iria arriscar a segurança da menina. Precisava ter certeza de tudo o que estava acontecendo, e esse nem era o pior problema no momento. Eu não fazia ideia de quem eram os pais de Zara; ela era jovem, e, na minha família, o meu único filho já tinha morrido há vários anos. Então, como é que aquela garota era parte da minha família? O laço de sangue não falha, e essa confirmação eu já havia tido. Mas eu precisava pensar em todos os aspetos daquela história, e isso queria dizer que eu precisava considerar o meu irmão gémeo, Dorian. Ele era a única explicação para aquilo; não conseguia pensar em mais nada. Deixando a dúvida de lado, pego o meu telefone e resolvo ligar para ele; seria bem mais rápido para resolver aquela história. Se um dos seus tiver um filho perdido por aí, eu saberia imediatamente. “Quem é vivo sempre aparece, irmão” – diz ele, atendendo a ligação. “Tenho um assunto sério para discutir contigo” – digo, indo direto ao ponto. “Fala, o que houve?” – sinto a mudança na sua voz ao conversar comigo. “Encontrei um lobo dourado” – digo, e a linha fica em silêncio por alguns segundos. “De qual família?” – pergunta ele, preocupado. “Aí é que está, ela não sabe dizer.” “Isso é um problema, Isacar; sabe que há algumas famílias loucas à procura de uma loba dourada para acasalar com os seus filhos.” – O meu irmão repudiava aquilo tanto quanto eu, mas não havia muito que pudéssemos fazer. “Ela já tem um companheiro e está marcada” – digo-lhe. “Sabe que isso não será um problema para eles; basta tirarem ele da jogada e tudo se resolve.” – Posso ouvir o meu irmão praguejar do outro lado da linha; diferente de mim, Dorian era mais desbocado e não se preocupava em dizer o que lhe vinha à mente. “Duvido que algum deles vá querer arranjar problemas com a matilha Presa Branca.” “Presa Branca?” – diz ele, surpreso. – “Você não tinhas problemas com essa matilha?” “Nada se provou, e você sabe que eu não posso tomar partido entre eles.” “É por isso que nunca quis fazer parte do conselho.” – diz ele, atirando isso na minha cara. Podíamos ser idênticos, mas tínhamos ambições bem diferentes. “Não foi para isso que te liguei.” – digo antes que ele possa insistir nesse assunto. “Então diz logo o que quer e para de fazer drama.” – Reviro os olhos; já estávamos velhos para esse tipo de discussão, mas lá estava o Dorian ignorando isso. “Ela é um m****o da nossa família.” “O QUÊ!” – diz ele, quase me deixando surdo ao telefone. “Foi isso que ouviu, senti a ligação entre os nossos lobos; ela faz parte da família. O que quero saber é quem da sua família teve uma filha e a abandonou.” – digo, frustrado. “Espera aí, por que não pode ser da tua família?” “Nós dois sabemos bem por que não pode ser da minha!” – Às vezes, Dorian cansava-me, e aquilo era um dos motivos pelos quais eu quase não o visitava. “Não vou discutir isso com você, Isacar; vou verificar aqui e depois te aviso.” – diz ele, com um traço de irritação na voz. “Faz isso.” – digo, desligando o telefone. Ele deve estar a xingar-me agora por isso, penso, rindo. — Está tudo bem, senhor? – pergunta o meu motorista, entrando no quarto. Assim que percebe o seu erro, ele para no lugar. – Desculpe, fui descuidado ao não bater antes de entrar. — Desta vez passa, Alberto – digo, guardando o telefone. – Sabes o que deves fazer. — Sim, senhor, irei cuidar disso imediatamente. – diz ele rapidamente. — Lembra-se de ser cuidadoso; ninguém pode desconfiar de você. – digo-lhe. — Farei como me ordenou, senhor; ninguém saberá do meu envolvimento. – responde ele. — Ótimo, seja rápido. – digo, dispensando-o. Ele faz uma reverência e retira-se, deixando-me só novamente. Quando eu pensava que as coisas poderiam estar mais tranquilas, elas voltavam a agitar-se novamente. Tomo um banho rapidamente e desço para fazer um chá; sabia que não veria o Alfa Fenrir mais naquela noite, o que facilitava a execução do meu plano. Assim que chego à cozinha, encontro o Beta Ethan sentado num banquinho, fazendo um sanduíche. Dou risada com a cara de desgosto que ele faz ao lidar com aquilo. — Pelo que vejo, não gosta muito de cozinhar. – digo-lhe, vendo o seu descontentamento evidente. — Está tão na cara assim? – pergunta, enquanto monta a sanduíche. — Isso é apenas uma falha, Beta, que pode ser corrigida. – digo-lhe. — Não quero corrigir nada; quero uma companheira que saiba cozinhar. – diz ele, enquanto morde a sanduíche. — Quere uma companheira ou uma cozinheira? – pergunto. — Uma companheira, mas, se souber cozinhar, melhor ainda. – diz ele, rindo. Apenas balanço a cabeça, esperando que o Beta Ethan morda a língua em breve. – Precisa de algo, Conselheiro? — Queria fazer um chá. – digo-lhe. — Claro, eu te mostro onde fica tudo. – diz ele, abrindo os armários. Ele retira tudo o que eu precisava e coloca à minha frente. Eu pego na chaleira, coloco um pouco de água e levo ao fogão para ferver. — Sabe, Beta, a minha falecida companheira não cozinhava bem quando nos casámos; a comida dela era horrível. – digo, rindo. — Sério? – pergunta ele, surpreso. — Sim, mas eu sabia cozinhar muito bem, e preciso dizer que nos divertíamos muito na cozinha; foi lá que passei bons anos da minha vida, e, no fim, a minha companheira tornou-se uma cozinheira incrível. Mas nem por isso deixei de a ajudar. Aquela era a nossa maneira de estarmos próximos, e passou a ser uma hora do dia que adorávamos. – Falar disso trazia-me memórias incríveis, cheias de saudade, e eu era grato pelo tempo que a minha companheira esteve ao meu lado. — Entendo o que quer dizer. – diz o Beta de forma tranquila. Eu termino de fazer o meu chá rapidamente. — Se eu fosse a você, aprenderia a cozinhar; isso pode ser a forma de te aproximar da sua futura companheira. – digo antes de subir para o meu quarto. Esperava que o Alberto tivesse sucesso na sua missão.
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