**Lorcan**
Poder abraçar o meu avô era uma das melhores coisas da minha vida. Sempre tive muita consciência do motivo do seu distanciamento, até porque eram poucos os que sabiam que eu era um lobo dourado. Aquilo tinha sido mantido em segredo para preservar tanto a minha vida quanto a da minha mãe; nem mesmo os membros da minha alcateia sabiam disso.
Eu evitava me transformar na frente deles, assim ninguém reconheceria a cor do meu pelo, uma característica marcante num lobo dourado, impossível de esconder. Quando eu precisava sair em missões, usava um colar que continha um feitiço feito por uma bruxa de confiança do meu avô, que mascarava a minha verdadeira forma, e me fazia parecer como qualquer outro lobo. Não preciso dizer que Hudor, o meu lobo, odiava aquilo; ele detestava se esconder, sempre me lembrando que aquilo era coisa de covarde.
— Você está tão grande, meu neto — diz o meu avô, segurando os meus ombros.
— Deve ser de família, vovô; olhe para você — digo, e ouço a sua risada encher a sala. Como eu tinha sentido falta daquela risada! O meu coração aquecia-se ao ouvi-lo rir; ele era o último m****o da minha família vivo, e tudo o que eu tinha eram meus avôs.
— Você está certo, temos ótimos genes.
— Mas diga-me, sei que não veio aqui apenas para me ver. — Vejo-o sorrir com as minhas palavras. Apesar do nosso contato ser muito limitado, conhecia muito bem o meu avô.
— Sempre em alerta, puxou ao pai — diz ele, balançando a cabeça. Ele puxa uma cadeira ao lado e se senta; eu e o meu outro avô fazemos o mesmo. — Vim a pedido do alfa Fenrir.
Aquilo pega-me de surpresa, mas sorrio ao pensar que devia ser algo relacionado a Zara; aquele era o único assunto que tirava Fenrir do sério, ela era o seu ponto fraco.
— Ele ainda está chateado por causa de Zara? — pergunto.
— Não é sobre isso — diz ele, e eu não esperava por aquilo, mas ao lembrar das nossas rixas, tudo fica mais claro.
— Ele deve estar querendo evitar uma guerra — digo.
— Sim, ele deseja conversar com você para esclarecer tudo o que houve no passado. Sei que não gosta disso, Lorcan; eu também não gosto, mas é necessário. Precisamos resolver isso, essa briga já se arrastou por tempo demais. — Odiava saber que ele estava certo, e depois do que Zara me disse sobre eu estar errado, também pensava que precisávamos conversar.
— Tudo bem, eu falo com ele — digo, e vejo a surpresa no rosto do meu avô.
— Pensei que teria que te convencer disso — sorrio para ele.
— Agradeça à Zara por isso, vovô; foi ela que me convenceu a investigar mais a fundo o que houve naquela época, e para fazer isso vou precisar da ajuda de Fenrir.
— Aquela garota é um encanto mesmo.
— Vocês estão-me deixando curioso quanto à Luna do alfa Fenrir — diz o meu avô Corin.
— Você vai amá-la, vovô; Zara é uma menina muito interessante — não sabia explicar de onde vinha o meu fascínio por ela, apenas sabia que ele tinha crescido depois da nossa conversa. Até mesmo o meu lobo gostava dela, e ele não gostava de ninguém.
— Estou curioso para conhecê-la — diz ele.
— E vai, assim que resolvermos isso — digo, e viro-me para o meu avô Isacar. — Marque com ele fora dos nossos territórios e avise-me depois.
— Está fazendo a coisa certa, filho — diz ele.
— Eu sei, mas não pense que vou o perdoar facilmente pelo que os pais dele fizeram — digo, olhando fixamente para ele.
— Não estou te pedindo que o perdoe, mas que pensem com cuidado em tudo o que aconteceu. Sempre desconfiei de que tinha algo errado nessa história, mas infelizmente não tivemos nenhuma testemunha do que houve para nos ajudar nas investigações. — Vejo a tristeza nos olhos dele ao tocar naquele assunto e entendia o seu ponto de vista.
— Já disse isso a ele várias vezes, Isacar: as aparências enganam; temos que ter cuidado ao investigar esse assunto. - concorda meu avô Corin.
— Soube que teve um problema na alcateia. Está tudo bem? — Claro que Fenrir iria contar a ele o que houve.
— Já estou a cuidar disso, vovô; em breve a minha ratoeira estará cheia de ratos — digo com um sorriso de canto.
— Tenha cuidado e avise-me se precisar de algo. — Era disso que eu mais gostava no meu avô; ele deixava-me resolver as coisas com as minhas próprias mãos, sem interferir nos meus negócios. Diferente do vovô Corin, que sempre controlava cada movimento meu, mas eu sabia que aquilo era apenas a sua forma de cuidar de mim.
— Eu terei, avô; sabe que sou sempre cuidadoso. — Vejo-o sorrir. Aposto que ele andava a investigar-me; poucas coisas passavam despercebidas a ele.
— Sei disso, mas não custa nada reforçar — diz ele, dando de ombros.
Aquele dia foi muito proveitoso. Pude conversar e rir com o meu avô um pouco, algo que fazia anos que eu não fazia. No final da tarde, saímos para correr na floresta, apenas nós três, os três homens da família. Enquanto os nossos lobos corriam lado a lado, eu podia sentir o cuidado deles comigo; agiam como se eu fosse o m****o mais vulnerável da matilha, sempre atentos a tudo à nossa volta.
Crescer sem os pais tinha-me deixado mais forte, não porque eu queria, mas porque eu tinha sido obrigado a ser. Ali, naquele momento, eu era apenas o neto deles; me permiti ser cuidado e apreciar cada pequeno passo que dávamos juntos. Aquilo era estar em família. Respeitávamo-nos e amávamo-nos, do nosso jeito torto, mas ainda era amor.
Quando retornamos a casa, vejo o olhar triste no rosto do meu avô; ele puxa-me para os seus braços, me abraçando forte como há muito tempo não fazia.
— Te amo, meu neto. Se mantenha seguro — diz ele antes de me soltar.
— Também o amo, vovô, e vou ficar bem — digo. Com um último olhar na minha direção, ele entra no carro e parte.