Capítulo 2

1933 Words
Angel Narrando Minha vida nunca foi fácil. Na verdade, parece que o destino sempre me testou desde o início. Meu pai morreu quando eu ainda era um bebê, e minha mãe... bom, ela virou meu escudo contra o mundo. Trabalhou de doméstica a vida toda, acordando antes do sol nascer e voltando quando a lua já estava alta no céu. Mesmo cansada, nunca deixou de sentar comigo à mesa pra saber do meu dia, nem de me ensinar o certo e o errado ou pelo menos o que ela acreditava ser o certo. Mas nem sempre a gente escuta, né? Quando a adolescência chegou, veio junto aquela vontade de viver, de se sentir amada, de acreditar que o amor podia ser o suficiente para consertar qualquer coisa. Eu conheci o pai do meu filho aos dezesseis anos. Bonito, esperto, sorriso fácil. Me fez acreditar em promessas que duraram menos que um pôr do sol. Minha mãe me avisou. Falou sobre proteção, sobre esperar, sobre futuro. Mas o coração da gente não tem freio, e eu me deixei levar. Engravidei com dezessete, estava no último ano do ensino médio. E se eu disser que foi fácil, estaria mentindo. Foi o inferno. Enquanto minhas amigas sonhavam com faculdade, eu sonhava com o berço do meu filho. Enquanto elas compravam vestidos pra formatura, eu juntava trocado pra comprar fralda. O pai dele? Sumiu assim que soube. Disse que não estava pronto, que não podia, que era melhor eu “seguir minha vida”. Como se a minha vida ainda fosse minha depois que o Noah nasceu. Noah… meu pequeno. Meu motivo de levantar da cama todos os dias, mesmo quando tudo parecia desabar. A gravidez me mudou. A maternidade me feriu e me curou ao mesmo tempo. E a realidade? Essa me quebrou em pedaços. Tentei seguir os conselhos da minha mãe, procurei emprego, aceitei o que aparecia. Já limpei chão de loja, lavei roupa pros outros, vendi bala no sinal. Tudo para garantir o leite dele. Mas tem uma hora que o mundo não te deixa opção. Quando Noah ficou doente, com pneumonia, e o hospital pediu remédio que o SUS não tinha, eu chorei tanto que pensei que fosse morrer. Minha mãe tentou ajudar, mas o salário dela m*l dava pras contas de casa. Foi aí que eu conheci o outro lado da vida. Uma vizinha me apresentou uma mulher que “fazia uns corres”, como ela dizia. No começo, era coisa pequena, levar pacote, entregar envelope. Eu não perguntava o que era, só fazia. Era dinheiro rápido, o suficiente pra remédio, fralda e comida. Mas o rápido vira hábito, e o hábito vira caminho. Quando percebi, já estava envolvida demais pra voltar atrás. Tem coisas que mudam a vida da gente num segundo. Um segundo. Foi o tempo que levei pra decidir entre ser abusada ou reagir. Flashback on: Naquele dia, eu estava exausta. Tinha passado a noite acordada com Noah, que estava com febre, e deixado ele com a minha mãe antes de sair. A mulher que me passou o trampo disse que era simples: “Entrega rápida, boate na Zona Sul, só deixe o envelope no escritório e vaze.” Dinheiro bom, fácil pelo menos era o que parecia. Cheguei lá perto das nove da manhã. A boate ainda estava vazia, cheiro de cigarro e bebida misturada com perfume barato. Luzes piscando, som baixo, e gente fingindo que tava tudo bem. O segurança me olhou de cima a baixo quando falei que tinha uma entrega pro dono. Me mandou subir a escada, última porta do corredor. Eu subi, com o coração acelerado não por medo, mas por costume. Nesse mundo, a gente nunca relaxa. Bati na porta e ouvi um “entra”. Tinha dois homens lá dentro. Um sentado na mesa, o outro de pé, encostado na parede, fumando. Assim que entrei, o que estava em pé apagou o cigarro e fechou a porta atrás de mim. — Trouxe o envelope — falei, firme, estendendo a mão. O da mesa levantou o olhar, um sorriso torto no rosto. — Calma, princesa. Nem perguntou quanto a gente paga pra quem entrega direito. — Só quero deixar e ir embora. Ele levantou devagar, veio se aproximando. O outro deu uma risada baixa. — Ah, então tu é dessas difíceis, né? — o da parede falou, se aproximando também. Meu corpo inteiro ficou tenso. Dei um passo pra trás, mas bati na parede. — Tô falando sério — avisei. — Só vim fazer a entrega. Eles se entreolharam, e antes que eu pudesse reagir, o primeiro me segurou pelo braço. O cheiro de álcool e cigarro subiu forte. Foi instinto. A joelhada veio antes do pensamento. Acertei em cheio. Ele soltou meu braço e ficou gemendo no chão. O outro veio pra cima, rindo, achando que era brincadeira. Minha mão foi direto para o bolso. O canivete em formato de batom que minha mãe me deu — “pra caso precise se defender”, ela dizia. Abri com um estalo. Ele avançou, e eu enfiei o canivete no pescoço dele sem pensar. O sangue espirrou quente, o som dele engasgando ficou preso no ar. Ele gritou, cambaleando para trás. Eu soltei o canivete ensanguentado e saí correndo, o coração batendo no pescoço. Desci as escadas tropeçando, e foi quando trombei com um homem enorme no corredor. Ele me segurou pelos ombros antes que eu caísse. — Que porr.a é essa? — ele perguntou, olhando o sangue nas minhas mãos. — Eles... eles tentaram... — minha voz falhou, o ar parecia não entrar. — Eu só me defendi. Ele me analisou por um segundo, e então fez um sinal para dois seguranças que estavam próximos. — Vai ver esses filhos da put.a e traz pra mim. Agora. A voz dele era calma, mas o olhar era puro veneno. Eu tremia, sentindo o gosto metálico do medo na boca. — Qual teu nome, menina?. — ele perguntou, me olhando como se pudesse ver minha alma, e talvez visse. — Angel. — disse o nome que eu usava pra quem eu não conhecia. Ele franziu o cenho, curioso. — Angel? Esse nome não combina com o sangue na tua mão. Fiquei calada. Ele mandou os seguranças me levarem para uma sala no fundo da boate. O lugar era mais silencioso, com um sofá e uma mesa. Ele entrou logo em seguida, acendeu um cigarro e ficou me olhando como se quisesse ler minha alma. — Senta. — ordenou. Sentei. — Agora me explica. Tudo. E eu contei. Contei sobre o trampo, sobre minha mãe, sobre Noah. Contei sobre o pai dele, sobre as dificuldades, sobre o desespero de quem não tem escolha. Ele ouviu tudo em silêncio, fumando devagar. Quando terminei, ele soltou a fumaça e disse: — Você sabe quem eu sou, né? Assenti. — Sei. Bomba o lendário chefe do Comando. O homem que mandava e desmandava no tráfico do Rio de Janeiro, e que todo mundo dizia que ninguém mexia sem o aval dele. Ele sorriu de leve. — Então já sabe que eu não costumo me meter por pouca coisa. Mas tem algo em ti… diferente. — Diferente como? — perguntei, desconfiada. — Tua coragem. — respondeu. — Poucas mulheres encara dois caras sozinha e sai viva. Fiquei em silêncio, sem saber se aquilo era elogio ou ameaça. Ele apagou o cigarro e se inclinou pra frente. — Tu quer sair dessa vida, de ta correndo risco fazendo essas entregas? — O que o senhor quer dizer com isso? — Eu posso te dar uma chance. Um emprego seguro… mais ou menos — sorriu. — Trabalho pro Comando. A gente precisa de gente ligeira, que saiba se virar, que saiba atirar se for preciso. Eu congelei. Sabia o que aquilo significava. Sabia o peso do que ele tava oferecendo. — E o que eu ganho com isso? — perguntei, cautelosa. — Uma casa que tu não vai precisar pagar aluguel. Um lugar seguro para tua mãe e teu filho. Escola, e minha proteção. — Ele deu uma tragada imaginária, os olhos cravados nos meus. — E, claro, dinheiro. Mais do que tu já ganhou em todos esses corres pequenos. Minha cabeça girava. Eu sabia o que era o Comando. Sabia o que significava trabalhar para eles. Mas também sabia o que era ver Noah passar necessidade. — E se eu disser não? — perguntei, só pra testar. Ele deu um leve sorriso. — Tu não vai dizer. E ele tava certo. Naquele momento, eu já tinha decidido. — Quando eu começo? — perguntei. — Agora. Ele se levantou, pegou o telefone e fez uma ligação rápida. — Arruma uma casa na Rocinha. A mulher se chama Angel. É prioridade. Desligou, virou pra mim. — Bem-vinda à família. E foi assim. Sem juramento, sem cerimônia, sem volta. No mesmo dia, fui levada pra Rocinha. A casa era simples, mas limpa, com um muro alto e espaço suficiente pra minha mãe plantar as flores que ela tanto gostava. Noah correu pelos cômodos como se fosse castelo. Minha mãe me olhou, confusa. — Minha filha, o que você fez? — O que eu precisei fazer, mãe. — respondi. — Pra gente viver. Ela não insistiu. Acho que entendeu que, naquele ponto, não existia mais caminho de volta pra mim. Os primeiros meses foram um aprendizado. Trabalhar pro Comando não era só vender ou vigiar, era saber ler as entrelinhas. Era saber quem respeitar, quem evitar, quem calar. Aprendi rápido. E quanto mais eu aprendia, mais subia. O vulgo Angel, pegou rápido. Diziam que eu só tinha nome e carinha de anjo, mas era fria como gelo, que não tremia na hora de atirar. Mas ninguém imaginava que por dentro, eu tremia sim só não deixava ver. Noah crescia saudável, protegido. Minha mãe cuidava dele, levava pra creche, fazia comida. Às vezes, quando eu chegava tarde da noite e via os dois dormindo juntos no sofá, eu lembrava por que fazia o que fazia. O Bomba sempre me tratou com respeito. Dizia que eu era o braço que ele precisava, que poucas pessoas tinham sua lealdade. Foi ele quem me ensinou que, no crime, respeito vale mais que medo. Com o tempo, passei a cuidar de setores maiores. Gente me obedecia. Eu era o tipo de mulher que os homens do morro temiam, e as mulheres admiravam não por poder, mas por resistência. Só que, no fundo, eu sabia: respeito é uma moeda cara. E quanto mais poder você tem, mais alto o preço que o destino cobra. Flashback off. Foram anos nesse ritmo. Até hoje quando ele me chamou na sede e disse que tinha uma nova missão. — A Maré está sob novo comando. — ele falou. — O antigo chefe morreu, o Máscara filho dele assumiu. Moleque nova, cabeça quente, mas promissora. — E o que isso tem a ver comigo? — perguntei. — Tu vai ser o sub dele. Eu franzi o cenho. Fiquei em silêncio. Máscara. O vulgo que já rondava em cada canto do RJ, ninguém sabia quem era o homem por trás da máscara, mas já era temido por muitos. — Por que eu? — perguntei. — Porque tu é a única que eu confio pra equilibrar ele. E, sinceramente, quero ver o que acontece quando dois monstros se encontram. Olhei pra ele, tentando entender o que havia por trás daquelas palavras. — Monstros? Ele sorriu. — Não se engane, Angel. Nenhum de nós chegou aqui sendo santo. E talvez ele tivesse razão Continua...
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