Capítulo 1

2358 Words
Claire Adams Ano de 2022. Olhei a hora mais uma vez no celular e suspirei, não daria tempo nem sequer para tomar café. Um conselho para a vida, não se embriague em um domingo se tiver que acordar cedo na segunda. Minha rotina é baseada em trabalho, treino e festas, eu costumo experimentar coisas novas sempre e com isso o perigo se tornou uma pedra no meu sapato. Abracei Evy por trás e beijei a sua bochecha, escutar sua risada fazia com que eu me sentisse bem. Hoje em dia sou eu quem cuido de quem sempre cuidou de mim, tive Evy como uma figura materna a minha vida inteira e agradeço por isso. Ela se virou para mim e me encarou de cima a baixo fazendo a vistoria de sempre, às vezes ela exagera nos cuidados e me trata como se eu ainda fosse uma criança. — Se o que a senhora tanto quer saber é se eu cheguei inteira, eu cheguei sim! Pode relaxar, não se esqueça de tomar os seus remédios. O Ygor vai lhe levar para a consulta hoje à tarde e quando eu voltar quero saber de exatamente tudo. — Murmurei convicta. — Você pensa que eu não vi a hora que você chegou, não é menina? — Ela se afastou de mim e foi para a cozinha. — Você se cuida hein dona Claire, não quero ter que cuidar de criança de novo, você já me deu trabalho demais. Dou risada enquanto pego a minha bolsa, confiro para ver se tem tudo o que eu mais uso dentro e só então a fecho. Ela fala isso, mas eu sei que caso eu engravidasse ela não desgrudaria da criança nem por um minuto, eu a conheço. Eu saí da casa e apertei o botão no controle que abria o portão da garagem, fui em direção a Porsche e entrei. Dei partida no carro acelerando, as ruas de Moscou são lindas, na verdade toda a cidade é. Evy e eu saímos dos Estados Unidos quando eu fiz dezessete anos e comecei a investir na carreira de modelo, a Rússia é um país que me chama a atenção a muito tempo. No início não foi tão fácil, mudei hábitos e sobretudo, me mudei por completo. A menininha acima do peso que o colegial inteiro zombava morria gradativamente até eu me tornar a mulher que sou hoje. Eu me sinto em casa quando estou na passarela, como se desfilar aumentasse tanto o meu ego que por instantes fizesse eu me sentir completa. Estacionei o carro na sede da agência e deixei toda a marra no lado de fora, abri a porta do carro e caminhei lentamente até o elevador. Trabalho no último andar, onde ficam apenas as internacionais e como eu acabo desfilando em diversos países está é a minha área. A minha assessora veio ao meu encontro assim que eu passei pelo corredor, Anna me mostrou a agenda lotada no tablet me fazendo suspirar. Eu teria que tirar fotos para algumas marcas e um almoço com Ivan Koslov, eu nem ao menos sei quem é. — Esse homem, quem ele é? — Perguntei enquanto nós duas entravamos no camarim. — Ivan Koslov é um empresário da alta sociedade que exigiu esse almoço com você, me desculpe não ter lhe avisado, mas Nastya me obrigou e você não pode deixar de ir. — Fiquei indignada com tudo o que eu escutei. Vi as roupas em cima da bancada e li os tickets me alertando qual seria a primeira peça a usar, entrei no provador e me vesti. Quando sai as meninas já estavam chegando, isso porque eu procuro chegar sempre alguns minutos antes da data marcada. Me sentei na cadeira em frente ao espelho e a garota que faz a minha maquiagem se aproximou, não tenho muita proximidade com outras mulheres fora a Anna. Aqui é um mar de rivalidade em alguns dias e a minha mente não tem tempo para aumentar o ego de garotas mimadas querendo ultrapassar uma as outras. Quanto mais eu foco em mim mais evoluo o meu eu, se quiser me derrubar você pode tentar, porém saiba que eu derrubo quem for e não aceito cair. [...] Tirei a maquiagem artística e fiz uma básica, vesti uma roupa casual e sai da sala. Anna vinha andando atrás de mim e falando sobre o almoço, o marketing que eu faço para essa agência é surreal. Pedi para que ela me enviasse o nome do restaurante por mensagem e sai de lá. A esse horário as ruas estavam muito mais movimentadas que cedo. Se o homem é tão importante como diz eu não entendo como nem mesmo teve a decência de mandar um motorista me buscar. Vi no painel do som aparecer uma chamada de uma das garotas que eu havia conhecido ontem, desliguei. Estacionei o carro em uma vaga, entrei no restaurante procurando pelo homem. A Anna havia me mostrado uma foto dele, o achei sentado praticamente no fundo do restaurante, me sentei na cadeira e deixei a minha bolsa na cadeira ao lado. — Fico feliz que tenha vindo, me disseram que você é uma pessoa difícil de lidar, mas acho que estavam enganados. — Escutei tudo atenta sem tirar o olhar dele nem por um segundo. — Ivan Koslov. — Por favor me poupe, sei qual é o seu nome. Eu não quero perder uma hora e meia aqui fingindo que somos um casalzinho então seja direto, me diga logo o que quer! — Murmurei. — É uma mulher sem rodeios, gosto disso, me instiga. — Me controlei para não perder a paciência. Me recuso a acreditar que exista pessoas tão idiotas, respirei fundo e sorri. Não o respondi, o garçom logo veio trazer o cardápio eu nem precisei pensar muito para escolher, frango à Kiev é um dos meus pratos preferidos. Ele escolheu o dele e fizemos o pedido, a maior parte do tempo eu fiquei mexendo no celular e aproveitei para responder a algumas mensagens das meninas me chamando para sair à noite. Evitei manter muito contato com Ivan, almoçamos em silencio. Me senti aliviada ao receber uma mensagem de Anna dizendo que todos os meus compromissos da tarde foram adiados e eu estava livre por hoje, mesmo que eu saiba que provavelmente foi tudo armado. — Tenho um lugar não muito longe daqui, podemos passar lá se você quiser. — Ele disse simples. Apenas sorri e me levantei, não sei o que era mais i****a a falta de profissionalismo da minha chefe e de minha assessora ou Ivan achar que eu e ele teremos algo, mesmo que de fachada. Nunca fui de expor as minhas relações para a mídia, sempre foi algo realmente só meu e não seria hoje que isso ia mudar. — Obrigada pelo almoço, mas isso — Apontei para mim e para ele. — Não irá acontecer, não costumo expor a minha vida social assim como vocês estão querendo. Sai de lá com um sorriso no rosto, eu sabia que daqui a meia hora sairia uma matéria sobre o que aconteceu em alguns sites de fofoca. Entrei no meu carro, iria para a casa de Nikita me arrumar porque hoje à noite promete. [...] Deixei a sacola em cima da cama e abracei a garota a minha frente, nos conhecemos a uma semana e digamos que ela seja a minha companheira de balada. Antes de chegar eu comprei um vestido preto de paetê completamente justo ao corpo, como eu amava. Eu gosto de fazer com que todos parem para me olhar, se não for para sair assim eu nem saio. — Para onde iremos hoje? — Perguntei já tirando a minha roupa. Eu havia passado em casa para avisar Evy e pegar uma roupa, levei um sermão por estar saindo novamente, mas por essa semana seria o último dia. Eu admiro e respeito muito aquela mulher, então por conselho hoje seria a minha despedida dessa fase. — Belyi diable, é uma boate lá do outro lado da cidade. — Ela já estava se arrumando. — Parece que o dono está fazendo aniversário hoje e vai noivar, estão em festa brava lá. — É o destino então. — Respondi. Entrei no banheiro e tomei um banho rápido, lavei os meus cabelos e sai enrolada na toalha. Peguei o secador em cima da penteadeira e sequei os meus cabelos por cima, coloquei o vestido sem nenhuma peça de lingerie por baixo. Coloquei um salto dourado e fiz uma maquiagem simples para não ficar exagerada, quando eu finalmente estava pronta nós tiramos algumas fotos para postarmos quando voltássemos para casa. — Você sabe que para onde vamos as coisas são mais intensas, não é? É o território da Bratva então por favor, não cause problemas. — Escutei atentamente o que Nikita dizia, mas palavra que eu mais prestei atenção foi “Bratva”. — Eu nunca causo problemas amiga, nunca! — Respondi. Pedimos um taxi, como nós duas íamos beber seria irresponsabilidade demais levar o carro. Descemos e ficamos esperando em frente ao prédio, eu trouxe comigo apenas uma bolsa pequena para guardar o dinheiro. Assim que o taxi chegou nós entramos, o homem ficou estranho quando Nikita disse a localização o que me fez lembrar do porquê. Eu e ela nos encaramos, ri para quebrar o clima r**m. Seriam longos vinte minutos e já era por volta das dez horas, o combinado era que a gente ficasse apenas quatro horas na boate porque amanhã trabalhamos. Quando o carro finalmente parou em frente a boate eu pude ver o quão movimentado era o lugar, no lado de fora tinham homens fortes portando fuzis, cheios de tatuagens, mas não as que eu estava acostumada ver. Nós entramos sem nenhum tipo de impedimento e nem revista. O interior da boate era luxuoso e por si só gritava o quanto o dono disso aqui deve ser rico, Nikita e eu nos separamos, ela foi dançar e eu passei direto para o bar, sem uma bebida eu não consigo me sentir confortável para aproveitar. Pedi um drink e encarei as pessoas dançando, em um segundo andar no camarote eu pude ver um homem me encarando. As pessoas dançavam freneticamente, aqui não parecia nada com a comemoração de um noivado. Olhei para o barman gato e sorri, por que todas as pessoas desse país são tão bonitas? — Estão comemorando o noivado de quem? — Perguntei. — Do patrão. — O barman respondeu. Desliguei minha atenção e pedi outra bebida, na terceira rodada eu já não estava nem aí para nada. Fui até a pista de dança e comecei a mexer o meu corpo de acordo com a batida da música. Senti as mãos de algumas pessoas passando pelo meu corpo, mas gelei quando senti o toque em meu quadril me puxando com força para o seu corpo. Rebolei e me virei para encarar a pessoa, fiquei surpresa quando vi que era o homem que tanto me encarava do camarote. Como se eu estivesse levando um choque me afastei dele, vi sua Iris escurecer assim que me olhou. Ele passou uma mão ao redor da minha cintura com força e saiu me arrastando pelo meio da multidão. Gemi baixinho pela dor no meu quadril e tentei estapeá-lo, mas o homem parecia nem sentir. — Me solte! — Gritei. Qualquer retaliação minha seria em vão, comparado ao meu tamanho o homem era uma muralha. Ele me levou até uma sala e trancou a porta atrás de si assim que passamos, parecia que o álcool estava saindo do meu corpo aos poucos. Ele me jogou em um sofá no canto do quarto e o vi ficar relutante, quando ele retirou a camisa preta deixando o dorso totalmente exposto senti o sangue fugir do meu rosto. — Aqui estão os papeis que terá que assinar, faça isso o quanto antes, não tenho tempo a perder. — Ele murmurou. O homem pegou uns papeis em cima de uma cômoda e me entregou, assim que li “contrato de casamento” eu sorri vendo o quanto isso parecia ser uma pegadinha. Meu nome estava ali como se ele já me conhecesse e eu nunca o vi. — Como você sabe o meu nome... — Li no papel o nome dele. — Nikolai? — Assine logo essa p***a! — Ele me entregou uma caneta e tirou uma arma do cós da sua calça apontando para a minha cabeça. Fique estática, em choque. Evy sempre me alertava “Tudo demais é veneno”, uma hora ia acabar m*l só não esperava que fosse assim. Como uma das maiores modelos desse país anunciar um casamento seria um abalo grande para a minha carreira, isto se isso for anunciado. — Não posso fazer isso, me mate se quiser! — Murmurei convicta. Ele abaixou a arma e me encarou com um ar de superioridade, sua voz grossa me causava arrepios. Ele se aproximou mais de mim até apoiar suas mãos nos braços da poltrona, me senti extremamente incomodada com sua aproximação. — Eu irei matá-la, não se preocupe, mas será uma morte lenta e dolorosa. Se não assinar os papéis agora dois dos meus homens atirarão na sua adorável mamãe. — Nikolai tirou o celular do bolso e me mostrou algumas fotos de Evy dormindo. Eu não tinha opções, ela era a pessoa mais próxima que eu tinha não a deixaria morrer. Meu maior medo no momento era assinar os papéis e ainda assim ele matá-la, mas era um risco a correr. Com lagrimas nos olhos eu segurei firme a caneta, assinei as duas folhas e joguei em cima dele me perguntando o que eu havia feito para estar passando por isso. — O que eu lhe fiz? Como você sabe o meu nome? — Me levantei da cadeira e soquei o seu peito várias vezes repetidamente. — Eu vou matá-lo, nem que isso custe a minha vida. — Não pode matar o que já está morto. Ele bateu com o cabo da arma na minha cabeça e rapidamente eu fui perdendo os sentidos com a respiração acelerada. >>> @aut.izzamarques
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