Episódio 10 — Maisie

1969 Words
Começar a trabalhar na padaria da comunidade foi a única coisa que me deu forças e vontade de continuar de pé. Tinha dias que tudo dentro de mim parecia gritar por socorro, mas o fato de ter uma rotina, de ocupar minha mente com algo produtivo, aliviava o peso que ainda carregava. A tia Maria tem sido o meu alicerce, sempre paciente, sempre me dando suporte e me ensinando, sem nunca me fazer sentir um fardo. Eu sei que ela se desdobra para manter tudo em ordem, tanto dentro quanto fora de casa, e mesmo com a vida difícil, ela sempre encontra espaço para acolher quem precisa. É uma mulher de fibra, dessas que dá vontade de proteger só por ver o quanto luta calada. Mesmo com os traumas me assombrando nas noites mais silenciosas, e os pesadelos me arrancando o sono, eu seguia tentando. No fundo, sabia que ainda tinha muito a enfrentar. Mas o simples fato de estar viva e poder recomeçar... já era mais do que eu imaginei que teria depois daquela noite. O que eu não esperava era ver o Pantera surgindo na padaria logo cedo, com o irmão e aquele amigo dele de expressão debochada — o tal do Coringa. Assim que vi os três entrando, meu corpo inteiro travou. Era como se o ar tivesse sumido da padaria por um instante. Meu coração disparou de novo, como se eu estivesse de volta naquela noite escura e sem fim. Mas, mesmo com o medo me comprimindo o peito, me obriguei a respirar fundo e manter a postura. Fui até a mesa deles, servi com educação, sem tremer, sem demonstrar fraqueza. Tinha medo? Tinha. Mas mais do que isso, tinha vergonha de parecer frágil. Fiz meu trabalho direitinho, evitei olhar muito para o rosto dele, mas ainda assim sentia o peso do olhar do Pantera me analisando. Era como se ele enxergasse mais do que eu queria mostrar. Quando eles saíram, o alívio bateu forte, quase como um desabafo preso na garganta. Continuei o restante do turno em silêncio, focada. Só queria terminar logo para voltar para casa, colocar os pés para cima e esquecer a tensão que aquilo me causou. Quando finalmente fui liberada, o céu já começava a escurecer, e o ar da rua estava mais gelado do que de costume. Caminhei em silêncio pelas vielas da comunidade, mergulhada nos meus pensamentos. A vida estava longe de ser fácil, mas pelo menos agora eu tinha um teto, uma cama, um prato de comida... e uma esperança frágil de recomeço. Só que tudo isso foi interrompido quando ouvi o ronco de uma moto se aproximando atrás de mim. Meu corpo reagiu antes mesmo da minha mente processar. O coração acelerou, minhas pernas estremeceram e eu só consegui acelerar o passo, como se isso fosse me proteger. O som do motor ficou mais próximo e eu me assustei um pouco mais. — Caminhando sozinha nesse beco, loirinha? — A voz rouca e debochada do Pantera cortou o silêncio como uma lâmina. Parei. Me obriguei a parar. Era ele. Tentei não transparecer o pânico, mesmo que por dentro estivesse implodindo. — Agora tem você aqui, né? — respondi tentando disfarçar o nervosismo, mas sem parecer desrespeitosa. Ele me olhou com aquele sorriso cínico e perigoso. — Tá com a língua afiada, hein? — murmurou, com o olhar fixo no meu rosto. Tentei não encarar muito, evitei o contato direto. Eu não conhecia esse homem direito, mas sabia que um vacilo com ele podia custar caro. Meu corpo todo dizia pra fugir, mas eu não tinha como. — Desculpa, senhor... — falei baixo, tentando cortar o clima, mas ele riu. Riu com gosto. — Senhor é o c*****o. Senhor é o seu avô, p***a. Eu engoli seco, sem saber se sorria por educação ou se mantinha a cara neutra. Fiquei quieta, apenas esperando que ele seguisse caminho. Mas ele ficou ali, me olhando com atenção. Aquele tipo de olhar que não era de desejo, nem de raiva... era de quem observava. E isso, por si só, era ainda mais desconcertante. — Eu não quis ser desrespeitosa. — murmurei, sentindo meu coração martelar no peito. — Relaxa, loirinha... eu tô de boa, p***a. — ele respondeu com aquela voz arrastada, carregada de um tom que misturava desprezo com uma calma intimidadora. — Sobe aí, vou te dar uma carona. O convite caiu como uma pedra no meu estômago. Por um instante, achei que tinha escutado errado. Meus olhos se estreitaram de leve, tentando entender se aquilo era um teste, uma provocação ou realmente um gesto de... gentileza? Hesitei. Tinha algo ali que me travava por dentro. Eu não queria parecer ingrata, mas também não queria me expor mais do que já estava. Ainda assim, respirei fundo e, com todo cuidado do mundo, respondi: — Obrigada pela gentileza... mas é melhor eu ir andando. — tentei soar firme, mas minha voz não tinha tanto peso quanto eu queria. Ele arqueou uma sobrancelha, e o canto da boca subiu num meio sorriso que me deu um calafrio. Não parecia ofendido. Pelo contrário. Parecia se divertir com a minha resistência. — Vem logo, e para de querer dar uma de durona. — ele disse, mais uma vez com aquele jeito autoritário, e estendeu a mão na minha direção. Olhei para aquela mão grande, tatuada, com os dedos calejados. Parecia um abismo entre aceitar ou negar. Por dentro, uma guerra se formava. Parte de mim gritava pra fugir. Outra sussurrava que talvez aceitar fosse menos perigoso do que recusar de novo. A tensão cresceu no ar. Eu não sabia se ele era o tipo de homem que aceitava um segundo "não". — Tudo bem... mas não quero atrapalhar. — murmurei quase num sussurro, colocando minha mão na dele. O toque foi firme. Quente. Ele me puxou com facilidade, como se eu não pesasse nada, me colocando na garupa da moto. Foi instintivo: segurei na barra da jaqueta dele, tentando manter uma distância segura. Mas ele não deixou. — Mais firme, loirinha. — rosnou de leve, puxando minhas mãos e colocando direto na cintura dele. Meus dedos se fecharam ali, e naquele segundo senti o cheiro dele invadir minhas narinas — uma mistura de suor, perfume amadeirado e pólvora. Era bruto. Forte. Dominante. Meu rosto pegou fogo, e sei que ele percebeu. O maldito percebeu. Ele soltou uma risada baixa, quase de escárnio. — Agora sim. O motor roncou alto quando ele girou a chave, e a moto arrancou. Meus braços apertaram instintivamente sua cintura, e por um instante, senti algo diferente: não era só medo... era uma adrenalina esquisita, algo que eu mesma não consegui entender. Ele parecia saber disso. E eu? Eu só queria chegar viva em casa. — Meu Deus... — deixei escapar alto demais, apertando ainda mais meus braços ao redor da cintura dele. A moto cortava a rua como uma navalha afiada, e o vento forte batendo no meu rosto só aumentava o pânico que tomava conta do meu peito. O medo de morrer era real, gritava dentro de mim a cada curva, cada acelerada repentina. — Relaxa, você tá comigo. Então tá segura. — ele disse sem virar o rosto, com a voz firme, confiante, como se o mundo inteiro pudesse desabar, mas enquanto eu estivesse ali com ele, nada me atingiria. Aquelas palavras, por mais simples que fossem, me atravessaram de um jeito que me desconcertou. Não demoramos muito para chegar. Quando ele parou a moto em frente à casa da tia Maria, eu ainda estava tremendo. Minhas pernas pareciam feitas de pano, e minhas mãos suavam. Fechei os olhos com força, tentando controlar a tontura e o frio na barriga. Respirei fundo, abri os olhos devagar, e só então criei coragem para descer da garupa. — Meu Deus... eu nunca andei em algo assim. — murmurei quase sem voz, ainda sentindo o coração acelerar. Ele riu, um riso rouco e curto, como se tivesse se divertido com meu medo. — Oh, loirinha... você é um enigma pra mim. Mas depois a gente conversa sobre isso, agora temos outros assuntos. — ele me encarou com seriedade, e eu sabia exatamente sobre o que ele estava falando. Meu pai. Aquele lixo que tentou acabar comigo. — Eu não quero lembrar do que passei... por favor. — minha voz falhou, e meus olhos começaram a arder. A lembrança ainda era uma ferida aberta. — Eu preciso saber quem é esse filho da p**a. — a voz dele soou como aço frio. — Eu vou ensinar pra ele como é que se faz... o certo. — suas palavras, por mais duras que fossem, me trouxeram um certo conforto. Era estranho, mas ouvir que alguém estava disposto a me defender daquele jeito me fez sentir protegida. — Eu não quero que você suje as suas mãos por minha causa. — baixei a cabeça, lutando contra as lágrimas que insistiam em cair. Ele respirou fundo, como se estivesse contendo a própria raiva. — Quando você tiver melhor, você vai me dizer onde esse desgraçado tá escondido. Porque eu vou atrás dele, loirinha. Vou mostrar como é que se cobra uma violação. — sua voz era fria, cheia de rancor e fúria. E no fundo, por mais que doesse, eu sabia que ele tinha razão. Aquele homem merecia pagar. Mas era difícil lidar com tanto ódio. — Maisie? — a voz da tia Maria me fez virar o rosto. — Venha comer, filha. — falou com doçura, e apenas acenei, sem conseguir dizer nada naquele momento. — Obrigada pela carona. — disse olhando para ele uma última vez. — Não tem que agradecer, loirinha. A gente se vê por aí. — ele respondeu, já ligando a moto. O motor rugiu, e em segundos ele já tinha sumido rua abaixo, como um vulto veloz. Entrei em casa sentindo o peito apertado. Fechei a porta devagar, e segui para a cozinha onde a tia Maria já me esperava. — Ele trouxe você? — perguntou enquanto ajeitava as panelas. Assenti com um leve sorriso. — Ele é um homem bom... o único defeito dele é fazer as coisas no impulso e ser alguém que mata sem pensar. — comentou com serenidade. E eu sabia que ela falava com verdade. A aura daquele homem era pesada. Não sei explicar, mas era como se a sombra da morte andasse ao lado dele. E mesmo assim, algo nele me intrigava. Fui até a pia, lavei as mãos e servi meu prato. Sentamos à mesa e comemos juntas, trocando palavras calmas entre um gole de suco e uma garfada. A presença dela sempre me trazia paz, como se, mesmo que o mundo estivesse pegando fogo lá fora, ali dentro tudo fosse seguro. Quando terminamos, me levantei e insisti em lavar a louça. Não queria que ela se desgastasse por minha causa. Depois limpei o que precisava, organizei a cozinha e fui tomar um banho. A água quente escorreu pelo meu corpo cansado, aliviando as dores e limpando um pouco da tensão que carregava nos ombros. Passei mais tempo do que o normal ali, deixando a água levar tudo que me sufocava. Ao sair do banheiro, vesti uma roupa simples e segui para o quarto. Me joguei na cama, respirei fundo e encarei o teto. A casa estava em silêncio, e aquele silêncio me obrigava a ouvir os meus próprios pensamentos. Fechei os olhos por um instante e tudo voltou — o vento no rosto na garupa da moto, o som do motor, o calor da pele dele tão perto da minha... e o cheiro. O cheiro do perfume do Pantera ainda estava nas minhas narinas. Um cheiro marcante, amadeirado, envolvente... que agora parecia ter grudado em mim. E isso estava mexendo comigo mais do que eu gostaria de admitir.
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