Episódio 11 — Pantera

1822 Words
Mesmo com a loirinha visivelmente hesitante, consegui deixá-la na porta da casa da tia. Foi no momento em que ela desceu da moto que percebi o quanto ela estava frágil por dentro, mesmo tentando se manter firme por fora. Só que isso não muda nada no que eu preciso fazer. Por mais que eu ainda não conheça cada detalhe da história dela, uma coisa está muito clara pra mim: aquele desgraçado, o pai dela, tem que pagar. E não é com palavras, processo, nem conversa fiada. É com sangue. É com morte. O que ele tentou fazer com a própria filha não tem perdão. Um lixo desses não merece nem o ar que respira. E desde que ela cruzou a minha barreira, pisou nesse morro onde sou dono, qualquer dor que ela sentir passa a ser uma cobrança minha. Aqui, quem fere mulher, quem ousa abusar, morre. E ponto final. Não tem choro nem vela. A favela tem suas regras, e essa é uma das que eu mesmo faço questão de manter viva. Depois que a tia dela chamou, vi a loirinha sumir porta adentro. Depois que a tia dela chamou, vi a loirinha sumir porta adentro. Fiquei por alguns segundos ali parado, encarando a entrada da casa como se estivesse tentando organizar os pensamentos, mas não consegui. Liguei a moto de novo e voltei pra rua. A ronda da comunidade ainda precisava ser feita, e enquanto o morro respira, eu tô sempre no controle. Passei pelos becos, cumprimentei alguns moradores, observei movimentações suspeitas, ajeitei os vapores onde deviam estar. Aqui tudo gira sob meu comando, e qualquer deslize custa caro. Quando o cansaço apertou e a tensão acumulada se fez pesar nas costas, tomei meu rumo. Fui direto pra casa de uma das minhas putas, aquelas que eu sei que não perguntam nada, não se metem, e sabem exatamente como me aliviar. Não queria conversa, nem carinho, nem afeto. Eu precisava de descarga. De esquecer por uns minutos a pressão que carrego diariamente nesse território. Ela entendeu o recado só de olhar pra mim. Entramos, tranquei a porta, e deixei o corpo falar. Foram minutos intensos, sem sentimento algum, só pele, suor e fúria sendo descarregada no único jeito que eu sabia aliviar quando o mundo pesava demais. Quando tudo terminou, joguei o dinheiro em cima da cômoda sem dizer uma palavra. Não fiquei pra ouvir agradecimento, nem pra ela fingir que gostou. Aquilo era o que era — satisfação. E nada além disso. Saí dali sentindo o corpo mais leve, mas a mente ainda fervendo. Porque por mais que eu me esforce, a raiva que carrego por dentro não sai fácil. O morro me moldou desse jeito. Lutar todos os dias aqui é o que me mantém em pé. Cada passo que dou, cada ordem que eu dou, cada merda que resolvo... tudo isso é o que sustenta o império que construí. E mesmo que eu esteja cercado de armas, dinheiro, respeito e poder... ainda assim, existe um vazio que nem f**a, nem droga, nem sangue, consegue preencher. E agora, com aquela loirinha na minha mente, com aquele olhar perdido, assombrado, implorando por paz... talvez, pela primeira vez em muito tempo, eu esteja prestes a fazer algo que vai além da favela. Porque aquela garota me despertou uma fúria que nem eu consigo explicar. E aquele filho da p**a que ousou encostar nela... já tá com os dias contados. Depois que saí da casa da p**a, com o corpo mais leve e a mente ainda borbulhando, decidi ir direto para a boca. Tinha umas pendências que estavam se acumulando, e eu não sou o tipo de homem que deixa problema encostar. Resolvi matar logo essas p***a, colocar ordem na casa, e depois sumir pra dentro do meu canto. A noite ainda tava densa, a favela não dorme, e nem eu. Acelerei a moto e fui cortando as vielas com aquele barulho do motor ecoando nos becos. Era o som do poder, da presença. Quando cheguei na entrada da boca, meu irmão já estava lá, encostado na porta como se estivesse em casa, fumando um fininho e rindo alto de alguma gracinha. A fumaça dançava no ar enquanto ele tragava sem pressa, com aquele olhar preguiçoso de quem domina o próprio terreno. — Finalmente chegou. — comentou, me olhando com aquela cara debochada dele assim que desliguei a moto. — O que tá rolando? — questionei sem paciência, jogando a perna para o lado e descendo do banco. — Nada demais. Tô só aqui dividindo um baseado com o Coringa. — respondeu dando mais uma tragada e soltando a fumaça com um sorriso largo no rosto. — Beleza. — resmunguei, seco, passando direto por eles e entrando na boca. A galera me cumprimentou com um aceno, já sabendo que eu não tava no clima de conversa. Meus passos eram firmes, determinados, e a energia no ar mudou quando entrei. Fui direto para a minha sala. O cheiro da maconha e da grana misturada com suor e adrenalina se misturava ao ambiente abafado. Me joguei na minha cadeira, que já estava virada no trono de guerra, e puxei a gaveta pesada do birô. Peguei o caderno onde ficam anotadas as distribuições, revisões e rota das cargas. A ponta do lápis já tava gasta, mas isso não me impediu de virar as páginas, conferindo número por número. Minutos depois, meu irmão e o Coringa entraram, já rindo e comentando alguma coisa que eu nem fiz questão de entender. — O que tá rolando? — perguntou Barão, já percebendo minha expressão fechada. — Nada, por quê? — retruquei sem tirar os olhos do papel. — Tu tá com aquela cara de novo. — comentou o Coringa, meio rindo, meio desconfiado, encostado na porta com o cigarro ainda entre os dedos. Dei risada, um riso curto e seco, só pra aliviar o clima. — Viado, eu sempre tô com uma cara diferente. — respondi, fechando o caderno com força e me encostando de volta na cadeira. Eles se olharam e riram, mas sabiam que tinha algo martelando na minha cabeça. Eu não era de disfarçar, e quando algo me incomoda, até o silêncio pesa diferente no ambiente. A verdade é que a imagem da loirinha não saía da minha mente, e o maldito sentimento de justiça — ou vingança — tava gritando dentro de mim, querendo sair no grito ou no tiro. Mas aquele assunto ainda tinha hora marcada pra ser resolvido. Por agora, eu tinha uma favela pra administrar. E enquanto eu respirasse, ninguém ia botar a mão na minha quebrada sem pagar o preço. O silêncio da sala só era quebrado pelo barulho do ventilador velho girando no canto, misturado ao som dos grilos lá fora. Barão se jogou no sofá da lateral com as pernas abertas, enquanto o Coringa acendia outro cigarro, encostado na parede, me observando com aquele olhar de quem enxerga além da superfície. — Então vai ficar nessa cara amarrada até quando? — Coringa soltou a pergunta no ar, soprando a fumaça devagar. — Até essa merda sair da minha cabeça. — respondi seco, passando a mão na cara, tentando empurrar o cansaço pra longe. — Tô cansado, p***a. Cansado dessas desgraças acontecendo uma atrás da outra. — É por causa da loirinha, né? — Barão me olhou de r**o de olho. — Vi como tu ficou quando ela apareceu na padaria. Tu é r**m, irmão, mas eu te conheço desde moleque... tu ficou tocado. — Não é por causa dela, p***a. — falei alto, tentando convencer mais a mim mesmo do que eles. — É por causa do que aquele lixo tentou fazer. Isso me tira do sério. — Então vamos resolver isso, c*****o. — Barão rebateu. — Me dá o nome desse filho da p**a que eu mesmo apago. — Ainda não. — rebati, levantando da cadeira e indo até a janela. O vento batia morno, mas dava pra sentir que algo não tava certo. — A garota ainda tá quebrada. A gente espera ela se recuperar. Quando ela falar, a gente age. Foi nesse momento que o barulho ecoou pelo morro. Os primeiros fogos explodiram no céu, cortando o silêncio da madrugada com força. Um... dois... cinco estouros em sequência. O estampido seco, ritmado, não era de comemoração. Era alerta. Fogueteiro mandando o código. Meu corpo gelou por um segundo, antes da raiva voltar a ferver. Coringa olhou direto pra mim, sem precisar dizer nada. — Caralho... — Barão se levantou num pulo. — Isso não é fogo à toa. Mais uma sequência. Aquele padrão só podia significar uma coisa: invasão. — A Pedreira! — gritou um dos soldados que entrou na sala apressado, suado e com o fuzil no ombro. — Os caras tão vindo pela mata do lado norte! Já avistaram uns caboclos armados pra c*****o! — Filhos da p**a! — gritei, pegando meu fuzil encostado na parede. — Eles escolheram a noite errada pra tentar a sorte! Barão já tinha pegado o dele também, vestindo o colete por cima da camisa. O olhar dele tinha mudado. Aquele brilho de sangue, de quem já tava pronto pro combate. — Já mandei chamar os da contenção. — Coringa falou com o celular na mão, dedo acelerado nos áudios do grupo dos vapores. — Os caras tão subindo pra quadra. A gente vai fazer o bloqueio ali antes deles avançarem mais. — Fala pro Menor e pro Grego se posicionar com os moleques no beco da antiga escola. — ordenei. — E quero os pivetes mais novos recuados, longe dessa p***a. Se algum deles morrer, vou matar quem tiver deixado. Coringa assentiu e saiu distribuindo as ordens, rápido e direto. A boca virou zona de guerra em segundos. Soldados correndo, carregando caixa de munição, encaixando pente nos fuzis, dividindo carregadores, máscaras sendo colocadas, todos se posicionando como se fosse parte de um balé ensaiado. O morro respirava guerra, e agora era o nosso território que estava sendo ameaçado. Do lado de fora, os foguetes não paravam. O céu da favela estava iluminado como fogos de réveillon, mas ali não tinha comemoração. Aquilo era sangue anunciado, era o barulho da sobrevivência, era a favela gritando que tava pronta pro que viesse. — Vamo descer, p***a! — gritei. — Quero esse morro blindado! Coringa já estava na frente, Barão ao meu lado. A gente saiu marchando entre os becos, os soldados abrindo espaço, a multidão se dispersando pelas janelas, mães puxando crianças pra dentro de casa, velhos trancando portas. O Chapadão era nosso. E ninguém ia tirar isso da gente sem perder a alma no processo. — Esses filha da p**a vão se arrepender de ter acordado o inferno. — rosnei, segurando firme o fuzil enquanto a gente seguia para o confronto. Era guerra. E eu nunca fugi de uma. A minha casa estava sendo invadida e aqui não é lugar para invasores, aqui a morte é certa.
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