Episódio 12 —Maisie

2540 Words
Fazer as coisas e descansar era tudo o que eu mais queria naquele momento. O corpo pedia por alívio, mas a mente, inquieta, insistia em me manter acesa. Quando finalmente consegui me arrumar e deitar na cama, com a intenção de tirar um tempo só meu, fui engolida por um turbilhão de pensamentos que invadiram minha cabeça com uma força quase insuportável. Fechei os olhos, buscando algum tipo de paz, mas bastava o silêncio tomar conta do ambiente para que o rosto dele surgisse com nitidez na minha mente. Aquele olhar carregado, o jeito firme com que falava, como se tudo estivesse sob controle mesmo quando não estava. E, principalmente, aquele sorriso — que não combinava em nada com a brutalidade do mundo em que vivíamos, mas que de alguma forma me afetava mais do que eu gostaria de admitir. Respirei fundo, virei para o outro lado, depois para o outro, e nada. Aquele homem estava gravado em mim de um jeito que eu não sabia explicar. Era o tipo de coisa que não fazia o menor sentido, mas que ao mesmo tempo parecia impossível de ignorar. Depois de muito lutar contra os próprios pensamentos, levantei da cama. A casa estava silenciosa, e a tia Maria já devia estar dormindo. Fui até a sala, descalça, e abri devagar a porta da frente. O vento da madrugada bateu no meu rosto, carregado com o cheiro característico da favela: mistura de terra, fumaça e resistência. Olhei para o céu, e ele estava absurdamente bonito, cravejado de estrelas como se quisesse me dar algum tipo de consolo. Mas aquela tranquilidade durou pouco. De repente, o céu se acendeu em cores e barulho. Fogos começaram a estourar no alto do morro, um após o outro, em sequência coordenada, como se estivessem mandando uma mensagem silenciosa para todos que moravam ali. E não era qualquer comemoração. Era o sinal. O aviso. Os fogueteiros estavam avisando a comunidade: uma invasão estava em curso. Meu coração disparou de imediato. O som dos fogos, que para qualquer outro lugar poderia parecer festivo, para mim era um lembrete c***l de onde eu estava. Aquilo não era festa. Aquilo era guerra. Meus pés gelaram. Um calafrio percorreu minha espinha e senti a respiração falhar. Não pensei duas vezes. Corri para dentro apressadamente com os pés descalços, tropeçando no tapete do corredor e me jogando dentro do quarto. Me enfiei debaixo da cama, sentindo o peito subir e descer rápido demais. O medo estava me engolindo. Minhas mãos tremiam, minha boca estava seca e minha mente apenas repetia que eu não queria morrer. O som dos fogos aumentava, e agora era possível ouvir gritos ao longe, vozes se misturando, correria, o barulho de motocicletas acelerando e, ao fundo, os primeiros estampidos de tiros. O caos estava começando. — Não, não, por favor... — murmurei baixinho, agarrando os braços, como se aquilo pudesse me proteger de tudo. E foi então que escutei os passos da tia Maria se aproximando apressados. — Maisie?! — sua voz me chamou, aflita. — Aqui... eu tô aqui! — respondi, ainda debaixo da cama. Ela se abaixou e estendeu a mão para mim. O olhar dela, mesmo cansado e assustado, ainda transmitia força. — Vem, minha filha. A gente já passou por isso antes. — disse num tom calmo, mesmo com os olhos marejados. — O importante agora é ficar quietinha, em segurança. Eu tô contigo. — Peguei sua mão e saí do esconderijo improvisado, fui seguindo ela. O coração ainda acelerado, a cabeça girando, mas o toque da tia Maria me ancorava. — Isso... geralmente... acaba logo. — murmurou. Mas eu sabia que, às vezes, não era bem assim. A guerra tinha batido à porta de novo. E, dessa vez, eu já não era mais uma simples espectadora. Eu fazia parte daquele lugar agora. E isso... isso mudava tudo. Fomos juntas até a sala. Ela me acomodou no canto mais seguro, o mais afastado da entrada, e me cobriu com uma manta como se aquilo fosse suficiente para me proteger. Talvez fosse só para me acalmar. Se sentou ao meu lado e me puxou para perto. Mas o que a gente não esperava aconteceu. Um estrondo alto, seco, explodiu na porta. Dei um pulo. A tia Maria se levantou de supetão. Eu a segurei pelo braço, mas ela me afastou com delicadeza. — Meu Deus... — murmuro com muito medo. — Fica aí, não sai daí por nada! — ordenou, indo em direção à porta. Outro chute. E dessa vez, ela não aguentou. A porta escancarou com violência, batendo contra a parede com um barulho que pareceu cortar a alma. E então ele entrou. Um homem alto, sujo, com a roupa manchada de sangue, o rosto coberto por um pano escuro e os olhos arregalados. Havia algo de doente nele. Um cheiro de pólvora e suor invadiu o cômodo. — Ninguém se mexe, c*****o! — gritou, apontando a arma direto pra gente. Tia Maria ergueu as mãos no mesmo instante, tentando me proteger com o corpo. — Pelo amor de Deus, moço, aqui só tem mulher! — ela implorou. — Cala a boca, velha! — ele avançou e empurrou ela com tanta força que a vi cair de costas no chão, batendo com a cabeça na quina da parede. Meu grito engasgou na garganta. Tentei correr, mas antes que pudesse dar dois passos, senti um braço bruto me puxar de volta. A mão dele me agarrou com força pelo braço, e a arma foi direto na minha cabeça. — Agora você vem comigo, boneca. — ele rosnou no meu ouvido. — Vamos ver se o chefão do morro tem coragem mesmo de pagar pra ver. — Me solta! — gritei, desesperada. — Por favor, me solta! — Cale a p***a da boca! — gritou ele, me arrastando até a porta. A tia Maria ainda tentou se levantar, cambaleando, mas ele deu um chute violento que a jogou de novo no chão. Dessa vez, ela apagou. Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu gritava. Me debatia. Mas era como se meu corpo não fosse mais meu. Eu não sentia as pernas, as mãos... só a arma encostada na minha cabeça e o terror pulsando no meu peito. Ele me puxava pra fora da casa, enquanto os tiros cortavam o ar e os gritos ecoavam pelo morro. — Socorro, me solte. — imploro. — Vai gritando, loirinha... grita que logo, logo, o Pantera vem brincar com a gente. — disse ele, sádico, rindo como um maldito louco. Eu chorava. E ali, arrastada naquela rua cheia de fumaça e fogo, o que me restava era rezar para que alguém me visse. Para que alguém me salvasse. A cada passo que aquele desgraçado dava me arrastando pela rua, mais o medo apertava meu peito. A arma pressionada na minha têmpora era uma sentença de morte, e o cheiro de sangue no ar só me fazia querer vomitar. Meus pés arranhavam o chão, e por mais que eu tentasse resistir, minhas forças estavam indo embora. — Vai logo, p***a! — ele rosnava. — Para de chorar que tu tá me irritando! Mas eu não conseguia parar. As lágrimas escorriam como se não houvesse fim. E o pior não era nem a dor física... era pensar que talvez a tia Maria estivesse morta. Aquela mulher que me acolheu quando eu não era nada. Quando eu só carregava medo e feridas. O barulho dos tiros ficou mais alto. O céu parecia cuspir fogo. Fogos estouravam, mas já não era só sinal — era confronto real. O morro todo estava em guerra, e eu ali... sendo levada por um inimigo no meio do caos. Ele me puxou para dentro de uma casa abandonada, próxima ao campo de terra batida onde as crianças jogavam bola durante o dia. Aquele lugar agora era só escuridão e cheiro de mofo. — Vai pro canto! — ele empurrou meu corpo contra a parede de madeira podre. — Faz um barulho e eu juro que te apago na hora. — Por favor... não faz isso... — minha voz saiu falha, o corpo tremendo. — Eu não tenho culpa de nada... Ele ignorou minhas palavras e andava de um lado para o outro, nervoso, vigiando pela fresta da porta. — Quero ver o fodão do Pantera vir buscar a princesinha agora... — cuspiu, carregando a arma de novo, só pra me fazer ouvir o estalo metálico. Eu só pensava em sobreviver. Só queria voltar pra casa. Sentir o cheiro da comida da tia Maria, ver aquele olhar seguro dela me dizendo que tudo ia passar... Mas agora, eu só tinha aquele chão gelado de cimento, a respiração cortada e o sangue pulsando nos ouvidos. E foi aí... no meio do silêncio sufocado entre um tiro e outro, que eu ouvi. Os fogueteiros começaram a gritar códigos mais altos, desesperados: — É o Setor da Dona Maria! Tão com uma refém, c*****o! É a menina loira! — Passaram da contenção! Pedreira tá no miolo do morro! A movimentação ficou ainda mais intensa. E eu ouvi o nome dele. Ouvi alguém gritando: — O Pantera está vindo! Meu coração disparou. Aquela foi a primeira vez que ouvir o nome dele me deu esperança. Eu não sabia o que esperar, mas naquele momento, qualquer coisa era melhor do que continuar com aquele maldito me mantendo como refém. Eu sabia que quando ele chegasse, ia ser sangue nos olhos. E, pela primeira vez, eu queria que alguém sangrasse por mim. Queria que ele visse o que fizeram comigo. Queria que ele fizesse aquele homem pagar. Queria ver a justiça brutal da favela com meus próprios olhos. A arma encostada na minha cabeça já não era só ameaça — era sentença. E ele sabia disso. O desgraçado não tremia, não suava, não hesitava. Tava calmo demais. A frieza dele me dava mais medo do que qualquer grito ou tapa. — Pantera não manda nessa p***a sozinho. — ele murmurava ao meu lado, com a arma cravada na minha pele. — Ele acha que pode bater o martelo em tudo, só porque bota medo. Mas medo... medo se vira contra o próprio dono. Cada palavra era dita com uma calma perturbadora. Como se ele já tivesse planejado cada passo, como se eu fosse só uma peça no jogo sujo dele. — Tu acha que é especialzinha, é? — ele sussurrou perto do meu ouvido, fazendo meu corpo inteiro enrijecer. — A favela inteira já tá falando. Dizem que ele tá te olhando demais. E se ele olha, é porque tem ponto fraco. E ponto fraco... se usa. Fechei os olhos. O coração pulsando na garganta, o corpo inteiro prestes a desabar. Mas eu não podia ceder, não podia dar mais o gosto da minha fraqueza pra esse lixo. As explosões dos fogos já não iluminavam mais o céu com beleza. Cada estalo era como um aviso c***l de que o inferno tinha descido sobre a comunidade. Eu tremia da cabeça aos pés, encolhida num canto qualquer daquele corredor estreito da casa, os gritos lá fora misturados ao eco dos tiros pareciam vir de todos os lados. Tudo estava tão perto. Tia Maria havia tentado me manter segura, mas quando aquele homem arrombou a porta, tudo desmoronou. Ele era alto, com os olhos frios, o rosto suado, sujo, e a arma firme na mão. Não gritava desesperado. Pelo contrário. Falava baixo, firme, como quem sabia exatamente o que queria. E aquilo era pior. Ele não parecia perdido no caos… parecia fazer parte dele. — Anda, boneca. Não grita. — sussurrou rente ao meu ouvido, segurando meu braço com força. — Você vai comigo. Me debati. Tentei soltar. Mas quando senti o cano da arma encostando nas minhas costelas, congelei. — Não faz isso… por favor… — implorei com a voz embargada. Ele me puxou para fora, me arrastando pelos becos em meio ao tiroteio. A cada esquina, o som das balas cortava o ar, gritos ecoavam, e eu ouvia os estalos dos fogos subindo aos céus como um coro de horror. O morro estava em guerra. Meus pés descalços e fracos batiam contra o chão de cimento frio, e tudo que eu sentia era o gosto do medo na boca. Até que, num movimento brusco, ele me jogou contra a parede de uma viela mais estreita, colando seu corpo ao meu, o braço ao redor do meu pescoço, mantendo a arma apontada. Estava me usando. E eu sabia. — Ele vai vir. Vai vir atrás de você. — disse baixo, quase rindo. — Quero ver se ele é homem mesmo. Antes que eu pudesse tentar alguma coisa, um barulho forte de tiro invadiu o beco. O som parou, e a partir dali, meu coração pareceu parar também. — Solta ela. — a voz dele preencheu o espaço. Dura. Cortante. Familiar. Meu corpo inteiro reagiu. Meus olhos se viraram para a entrada da viela e lá estava ele. Pantera. Aquele olhar feroz, a postura imponente, o sangue na camisa já suada… parecia um predador pronto para atacar. Mas, por algum motivo, quando nossos olhos se cruzaram, mesmo na minha posição vulnerável, eu senti que estava segura. Como se o mundo estivesse desabando e ele fosse a única âncora que me mantinha de pé. — Eu falei… ele veio. — o homem sussurrou, colando a arma mais firme contra meu pescoço. — Tira a mão dela. — Pantera avançou um passo. A arma dele já estava em punho, baixa, mas firme. — Se der mais um passo, eu atiro! — gritou o homem, se escondendo ainda mais atrás de mim. Meu corpo tremia, o ar m*l passava pela garganta, mas meus olhos continuavam fixos nos de Pantera. Ele me olhava com raiva, mas havia algo a mais… dor talvez. — Atira, então. — disse ele, calmo. — Porque se você não atirar agora, eu juro pelo nome da minha favela, que eu vou estourar tua cabeça no próximo segundo. O silêncio foi tenso. Um segundo virou uma eternidade. O som dos tiros ao fundo parecia distante agora. Tudo estava ali, entre nós três. Eu, a arma contra minha pele, e Pantera… parado, imóvel, como se controlasse até o ar ao nosso redor. — É só uma menina, Pantera… nem vale a pena. — disse o homem, e naquela fala percebi… ele estava blefando. O medo havia tocado nele, mesmo que ele tentasse disfarçar. Pantera ergueu lentamente a arma. Mirei nos olhos dele. E naquele momento, entendi. Ele não ia deixar que nada acontecesse comigo. Não ali. Não naquela viela. — A última chance. — rosnou. — Solta ela. O homem hesitou. Sua mão tremeu só um pouco, mas foi o suficiente. E no segundo seguinte, o estrondo de um tiro rasgou o beco. Senti o corpo atrás de mim cambalear. A pressão contra meu pescoço cessou. A arma caiu no chão. Meus joelhos fraquejaram. Pantera correu até mim, me segurando antes que eu desabasse no chão. — Loirinha... — ele murmurou, a voz abafada pela raiva, pelos estilhaços da guerra. — Você tá bem? Balancei a cabeça, sem conseguir responder. Me agarrei a ele como se fosse o único lugar seguro no mundo, e naquele momento... talvez fosse mesmo.
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