Episódio 16 — Maisie

1531 Words
Quando o Pantera saiu da casa da tia Maria, me deixando sozinha no meio daquela sala silenciosa, senti um vazio estranho. Algo dentro de mim gritava pra que eu chamasse ele de volta, pra que eu não deixasse ele simplesmente virar as costas e sumir naquela rua estreita. Mas minhas pernas não se moveram, minha voz não saiu. Fiquei ali, parada, engolindo aquela sensação. A única coisa que me confortava era acreditar que ele voltaria. Ele não falou que ia... mas deixou um jeito, um olhar, uma promessa silenciosa no ar. Ou talvez fosse só o meu coração se agarrando em qualquer migalha de esperança. Fechei a porta devagar, sentindo o peso do trinco. Encostei a testa na madeira por um segundo, tentando segurar a onda que ameaçava me derrubar. Eu precisava respirar. Precisava de um banho. Precisava, pelo menos por uns minutos, tirar de cima de mim o cheiro de pólvora, o gosto de medo e aquela mistura de suor e sangue que grudava na minha pele. Corri pro banheiro. Corri pro banheiro. A cada peça de roupa que tirava, parecia que estava arrancando também pedaços do que tinha acabado de viver. A blusa caiu no chão, pesada, com manchas secas de sangue — não sei se era meu, da tia ou de alguém que cruzou o nosso caminho naquela confusão. Liguei o chuveiro e deixei a água cair com força, quase queimando a pele, como se pudesse lavar também a lembrança das mãos do X9 empurrando a tia contra a parede, a expressão dele, o som da voz dele. Fiquei ali mais tempo do que precisava, até sentir que minhas pernas já estavam moles. Fechei a água, enrolei o corpo na toalha e caminhei até o quarto. Peguei uma roupa limpa, simples, e me vesti devagar, sem pressa. Depois, levei a toalha de volta pro banheiro e voltei pra cama. Me joguei sobre ela, afundando o rosto no travesseiro, e por alguns instantes me permiti um respiro. Só que a paz não veio. As horas pareciam se arrastar, como se o tempo fizesse questão de me torturar. Eu virava de um lado pro outro, os olhos pesados, mas o sono não chegava nem por um segundo. O silêncio da casa era cortado apenas pelos meus pensamentos, e eles não eram bons. Depois de muito tempo, um som quebrou o vazio: três batidas secas na porta. Meu corpo inteiro reagiu na hora. O medo me atravessou como uma corrente elétrica, fazendo minhas mãos suarem. Tive que respirar fundo pra ter coragem de levantar. Cada passo até a sala parecia mais longo que o anterior. — Quem é? — perguntei, tentando manter a voz firme. Silêncio por um instante. Então veio a resposta. Aquela voz grave, firme, impossível de confundir. E, só quando ouvi ele falar, percebi que minha respiração tinha ficado presa no peito. Era ele. Sem pensar duas vezes, destranquei e abri a porta. Assim que ele cruzou a porta, a primeira coisa que saiu da minha boca foi a pergunta sobre a tia Maria. A resposta veio rápida, seca, mas suficiente para aliviar o nó que estava apertando meu peito desde que ele havia saído. Ela estava segura. Bastou isso para que um peso enorme escorregasse dos meus ombros, e por um instante eu consegui respirar com menos dor. Os olhos dele estavam vermelhos, como se carregassem o reflexo de toda a noite que viveu. O rosto marcado pela exaustão, a pele salpicada de sangue seco, a roupa manchada de um jeito que denunciava cada segundo de luta. Olhar para ele assim, parado na minha frente, fez algo dentro de mim estremecer. Não era só o homem que estava ali… era quem segurava as pontas dessa comunidade inteira, quem se colocava na frente de qualquer bala por todos que moravam aqui. Essa verdade me atingiu como um soco silencioso. Senti um aperto no peito, quase dolorido, e antes que pudesse controlar, deixei escapar que só o fato dele ter voltado já me fazia sentir segura. Ele ficou me encarando, os olhos presos nos meus, tão fixos que senti um arrepio frio subir pela minha espinha. Então, de repente, virou o rosto e saiu, cruzando a soleira como se quisesse se afastar rápido, antes que algo o fizesse mudar de ideia. Mas eu não podia deixá-lo ir de novo. Não dessa vez. Algo queimava dentro de mim, uma mistura de impulso e coragem que eu não sabia de onde vinha, mas que parecia me empurrar para frente. — Pantera. — minha voz cortou o silêncio, e ele parou no meio da rua. Virou-se devagar, os olhos carregando um vazio estranho, como se estivesse perdido em pensamentos que não tinha coragem de dizer. — O que você quer? — respondeu com um tom seco, mas não havia dureza suficiente para esconder o cansaço por trás. O que eu tinha a perder? Nada. Por isso dei o primeiro passo. Saí de dentro de casa, sem me importar com a roupa curta de dormir, sentindo o chão frio sob os pés descalços enquanto atravessava a distância que nos separava. Quando fiquei perto o bastante, ele me olhou nos olhos, e aquela troca silenciosa parecia gritar mais do que qualquer palavra que pudesse sair da minha boca. — Eu só queria agradecer por você ser tão bom conosco. — murmurei, sentindo meu próprio coração acelerar. Os olhos dele continuavam carregando aquele brilho confuso, como se não soubesse se se aproximava ou recuava. — Loirinha... — começou a falar, mas eu não deixei que terminasse. Foi um impulso, puro e cego. Me inclinei na ponta dos pés e encostei meus lábios nos dele. Era a primeira vez que eu beijava alguém. Não sabia como fazer, só sabia que queria sentir. O choque foi mútuo — os dois ficamos imóveis por um instante — até que o medo me fez recuar rápido. Ele me olhou de um jeito que eu não consegui decifrar, algo entre raiva, surpresa e... algo mais. Não tive tempo de pensar. Ele segurou firme o meu braço e me puxou de volta, atravessando a porta e me levando para dentro. — Me desculpa. — foi tudo o que consegui dizer, sentindo o calor do meu rosto e a certeza de que talvez tivesse acabado de cometer um erro impossível de desfazer. — Que p***a você fez? — a voz dele veio carregada de raiva, mas também de algo que eu não conseguia identificar. Fiquei muda, as palavras presas na garganta. O meu corpo inteiro tremia, e eu não sabia se era de nervoso ou de medo. — Você notou o que fez? — ele continuou, e cada palavra soava como uma acusação. — Aquele monte de urubu lá fora vendo você com esse pedaço de pano no corpo, e ainda por cima você me beija? — os olhos dele queimavam, e dava para sentir a tensão que emanava de cada músculo. De repente, ele virou para o lado e acertou um soco seco na parede, o som oco ecoando pelo pequeno espaço. O sangue começou a escorrer devagar dos nós dos dedos dele, mas parecia que ele nem tinha sentido a dor. — Eu não... — tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não tive tempo. Em um movimento rápido, ele se virou para mim, como um predador que finalmente decidiu atacar. Uma de suas mãos pousou firme na minha cintura, me puxando para perto com força, enquanto a outra prendeu a minha nuca, impedindo que eu me afastasse. Senti a respiração dele quente e acelerada contra o meu rosto, e os olhos... aquele brilho intenso, quase perigoso, me deixou sem ar. — f**a-se tudo. — ele murmurou, a voz grave e baixa, quase como se falasse consigo mesmo. E então, seus lábios esmagaram os meus. O impacto foi tão inesperado que eu demorei um segundo para reagir, mas quando percebi, meu corpo já estava em chamas. Era como se tudo ao redor tivesse sumido — não havia mais barulho, nem vento, nem chão. Só nós dois. O beijo dele era urgente, quase feroz, e mesmo desajeitada, eu retribuí, sentindo cada nervo do meu corpo vibrar. Meu coração batia tão rápido que parecia que ia explodir. A mão dele apertava ainda mais minha cintura, me colando contra ele, enquanto a minha se agarrou instintivamente à parte de trás do seu pescoço, sentindo a pele quente sob meus dedos. Cada segundo parecia eterno, e ao mesmo tempo, insuficiente. O ar entre a gente ficou pesado, carregado de uma intensidade que eu nunca tinha sentido antes. Meus pensamentos se embaralharam, tudo que eu sabia era que queria estar ali, perto dele, sentindo cada batida daquele momento. Ele afastou os lábios por um instante, só para olhar dentro dos meus olhos, que já estavam molhados, talvez pelo medo, talvez pela confusão que aquele sentimento despertava em mim. A respiração dele estava ofegante, igual a minha. — Você tá assustada — murmurou com a voz rouca, quase um sussurro. Eu não consegui responder. Tudo dentro de mim gritava, me pedindo para me entregar, mas o medo ainda segurava firme. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, fazendo meu olhar encontrar o dele de novo.
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