Episódio 15 — Pantera

1816 Words
Eu não sei onde foi que eu tava com a cabeça... Sinceramente, tô perdido. Fui salvar aquela loirinha que, de alguma forma, vem mexendo com tudo dentro de mim, bagunçando minha mente como ninguém nunca fez. E agora, olha só onde eu tô... metido no meio de outra guerra, com o coração dividido entre o morro e o postinho, onde deixei ela com a tia. Só que o postinho vai fechar logo, e eu preciso dar um jeito de tirar ela dali. Mandar pra Penha parece ser a única saída no momento, mas cada decisão que eu tomo parece pesar mais que a anterior. Tudo isso me consome. Continuei atirando, rasgando o ar com rajadas, sem pensar duas vezes. Os filhos da p**a tão ariscos, querem manter a guerra, como se isso aqui fosse terra de ninguém. Mas eles esqueceram de um detalhe: esse morro é meu. Não dou brecha, não abaixo a cabeça, e não entrego nem um palmo dessa favela. Aqui tem dono. E esse dono sou eu. O barulho das armas se misturava com os gritos dos que tentavam resistir. Sangue já cobria o chão, os corpos dos que tentaram a sorte jaziam estendidos nas vielas. E mesmo com tudo isso, o inferno ainda tava aceso. Quando a poeira começou a baixar e os últimos tiros cessaram, olhei pros lados. Meu irmão já tava ali, com o olhar frio, segurando a arma com firmeza. O Coringa também tava comigo, mascarado, pronto pra seguir qualquer ordem minha. Os dois pareciam saídos do próprio inferno, e eu sabia que enquanto eles estivessem comigo, ninguém ia tocar no que é meu. Respirei fundo, passando a mão no rosto suado. Meu coração ainda tava disparado, mas minha mente já voltava pra ela. A loirinha... Maisie. — Vocês cuidam aqui. Vou ver como ela tá. — falei seco, sem olhar pra trás. Desci a ladeira correndo, com o fuzil ainda nas mãos, ignorando o cansaço e a ardência dos cortes no braço. Minha cabeça fervia, e o único pensamento era: proteger ela. Porque agora, mesmo sem entender direito o que tá acontecendo... eu sei. Eu faria tudo de novo por ela. Quando deixei todos cuidando das pendências, fui direto para o postinho. No caminho, minha mente ainda fervia, e o corpo seguia alerta, mesmo depois de tanta troca de tiro. O fuzil ainda pesava no ombro e a lembrança daquela loirinha ainda tava cravada nos meus pensamentos. Ao chegar lá, vi a tia Maria sentada, com expressão abatida. Ela era uma mulher forte, mas o baque da situação tinha deixado marcas visíveis. Cheguei perto e ela ergueu os olhos, preocupada. — Tia... você vai pra Penha agora. — falei sem rodeios. — Aqui ainda vai feder por um tempo e eu não vou arriscar sua vida mais do que já arriscaram hoje. Já providenciei transporte. Vai agora. Ela tentou argumentar, mas só balançou a cabeça em concordância. Sabia que não era hora de peitar. Dei o toque em um dos vapores pra acompanhar e garantir que ela fosse em segurança. Depois de resolver tudo, fui direto levar a loirinha pra casa. Ela me olhou em silêncio durante o caminho. Não falei nada também. O olhar dela dizia mais do que qualquer palavra: tava com medo, assustada, mas viva. E eu sabia que só isso já bastava pra me manter firme naquele dia. Quando ela entrou e trancou a porta, respirei fundo, mas não sosseguei. Voltei pro alto do morro. Precisava ver com os meus próprios olhos o rastro que essa guerra deixou. Chegando no pico, a primeira coisa que vi foi o sol começando a rasgar o céu. A luz alaranjada iluminava os becos e vielas que a gente passou a noite inteira defendendo. Sentei na beirada de uma laje, tirei um fininho do bolso, acendi e fiquei ali, só observando. Meu irmão se aproximou devagar e sentou ao meu lado. O Coringa veio logo depois, com a cara de quem não dormia há dias. — E aí, irmão... como a loira tá? — ele perguntou, encarando o horizonte. — Assustada. — respondi seco, puxando a fumaça do fininho. — Mas tá viva. — fiquei em silêncio por alguns segundos. — E as baixas? — perguntei depois de um silêncio. — Umas vinte e três... mais ou menos. — respondeu. — Muita perda. Traguei fundo e encarei a favela de cima. Aquilo tudo era meu. Meu sangue, minha guerra, minha responsabilidade. Esses desgraçados acham que vão roubar o que eu construí com dor, suor e corpo no chão? — Eles acham que vão tomar esse morro de mim. Acham que vão chegar aqui e sair rindo. — murmurei. — E ninguém vai tomar nada enquanto eu respirar. — sentindo o gosto da fumaça amarga cortar minha garganta. Aquela frase não era só força de expressão, era promessa. Era juramento de quem tinha enterrado irmão, parceiro e sangue inocente por causa dessa p***a de guerra sem fim. O silêncio ali no alto era estranho, pesado. Não pela paz, mas pelo que a gente sabia que viria depois. Sempre vem. O morro nunca dorme em paz por muito tempo. — Os corpos já foram recolhidos? — perguntei. — Quase todos. — respondeu o Coringa. — Os meninos tão terminando de limpar os becos. Já recolheram os que tavam expostos. Assenti. Olhei pro céu, a fumaça subindo, se misturando com a neblina fina que começava a cair. Aquilo tudo me lembrava o cheiro de pólvora, de sangue e da p***a do medo que vive grudado na pele da gente. — Aquele maldito que pegou a loirinha... — falei, sem tirar os olhos do horizonte. — Ele tava muito seguro. Aquilo não foi impulso, foi planejado. — Alguém de dentro? — Barão perguntou, a voz baixa, como se estivesse tentando confirmar o que eu já sabia. — Só pode ser. Alguém abriu a boca. Alguém andou falando demais. E eu vou descobrir quem foi, nem que pra isso eu tenha que virar esse morro do avesso. Me levantei, dei um tapa forte na calça pra tirar a poeira, joguei a ponta do fininho fora e pisei em cima. O cansaço batia no corpo, mas a raiva sustentava a alma. Eu não tinha tempo pra descansar. Não ainda. — Barão, avisa os meninos que hoje ninguém vai embora. Quero todo mundo no ponto. E você, Coringa, passa no rádio e me chama o VT. Vamos fazer uma varredura geral. Esse morro vai respirar, mas do nosso jeito. — Fechou. — respondeu o Coringa, já puxando o rádio. — E a loirinha? — Barão perguntou enquanto me acompanhava até a escadaria da laje. Parei por um segundo, respirei fundo. A imagem dela tremendo nos meus braços ainda tava fresca. Aqueles olhos assustados, a força que ela fez pra não desabar, mesmo com tudo desabando ao redor. — Ela tá segura... por enquanto. Mas vou manter alguém por perto. Se tentaram uma vez, podem tentar de novo. E sem olhar pra trás, desci a laje pronto pra fazer o que fosse preciso. Meu morro, minha guerra, minha palavra. E quem desafiar, vai cair. Desci o morro em silêncio, só ouvindo o barulho dos meus próprios passos ecoando entre as vielas. Eu podia ter ido direto pra base, verificar o restante das movimentações, me reunir com os braços direitos, repassar a segurança dos becos, mas não... Meus pés não obedeciam a razão. A verdade é que, p***a, eu tava indo em direção à casa dela. Tentei me convencer de que era só pra ver se estava tudo certo, só garantir que ela continuava segura. Mas no fundo, bem lá no fundo, eu sabia. Não era só isso. Tinha algo naquela loirinha. Uma p***a de um brilho no olhar que tava me perseguindo desde que encarei ela no barraco. Aqueles olhos assustados, o corpo tremendo, mas ainda assim... ela tava ali. Forte de um jeito que nem ela sabia. No caminho, vi um dos meus vapores de plantão e fiz sinal pra ele. — Tudo tranquilo por aqui? — perguntei, ainda mantendo a postura firme. — Tudo sim, chefe. A área tá limpa. — respondeu ele, já ajeitando o fuzil no ombro. Assenti e continuei andando. Quando cheguei em frente à casa da Maria, parei. Fiquei ali por uns segundos, olhando a porta fechada. O morro parecia respirar mais calmo agora, mas dentro de mim era o contrário. Algo tava fervendo. Algo que eu não sabia dar nome, e nem queria pensar muito. Só sabia que precisava ver ela. De novo. Bati de leve na porta. Uma, duas vezes. Silêncio. Ia virar as costas, desistir, mas a porta rangeu e abriu devagar. E ali estava ela. Os olhos ainda carregavam o cansaço da noite anterior. As olheiras denunciavam que ela não tinha dormido bem — quem dormiria, depois do inferno que foi? Mas mesmo assim... aquele olhar me prendeu. De novo. — Você... voltou. — ela disse, com a voz baixa. —Tô só passando pra saber se tá tudo bem. — menti, mas m*l consegui sustentar a desculpa. — Precisava ver se você tava viva... e inteira. Ela desviou o olhar por um instante, como se quisesse esconder algo, mas eu vi. Vi o que ninguém mais notaria: o alívio estampado no rosto dela. Ela estava aliviada por me ver ali. — Entra... se quiser. — ela disse, abrindo mais a porta. Entrei devagar, sem dizer nada. O ambiente ainda tinha o cheiro dela, o mesmo que ficou preso na minha roupa mais cedo. Olhei ao redor, percebi que ela tinha tentado manter tudo limpo, organizado, mesmo com o caos que caiu sobre elas. Força. Aquela mulher tinha mais do que muita gente armada nesse morro. — A tia... ela foi bem? — perguntou, me olhando por cima do ombro. — Tá na Penha, em segurança. Coloquei gente de confiança com ela. Ninguém encosta naquela mulher. Ela assentiu, mas os olhos marejaram. — Obrigada. — sussurrou. — Por tudo. Me aproximei um pouco mais. Estávamos ali, num silêncio que dizia mais do que qualquer frase. Ela estava viva. E por algum motivo que ainda me torturava, isso importava pra mim mais do que deveria. — Cuida de você, loirinha. — murmurei, mas a voz saiu mais baixa do que o normal. Me virei pra ir embora. Já tava ali tempo demais, já tinha me exposto mais do que eu costumo permitir. Mas antes que eu colocasse a mão na maçaneta, a voz dela me fez parar. — Pantera... — ela chamou, e quando me virei, ela continuou. — Você pode não saber, mas só de você ter voltado... me fez sentir segura. Fiquei parado, encarando ela. Quis dizer algo, qualquer coisa, mas engoli as palavras. Só assenti com a cabeça e saí, deixando a porta se fechar atrás de mim. O coração batia estranho no peito. E pela primeira vez em muito tempo... aquilo me assustou.
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