Episódio 13 — Pantera

1839 Words
Nós que vivemos no crime nunca temos paz de verdade. A calmaria, quando vem, é sempre enganosa — e o pior de tudo é perceber o quanto esse mundo nos muda, por dentro e por fora. A minha vida inteira foi dentro do crime. Eu nasci e cresci no meio dele. Não conheci outro tipo de realidade. Não vivi nada além disso aqui. Então, quando a invasão começou, o meu instinto foi mais forte do que qualquer pensamento racional. Era como se o meu corpo já soubesse o que fazer, como se os meus músculos carregassem a memória de cada guerra travada. Aqui no morro, é sempre assim. A gente sente o cheiro da traição antes mesmo do primeiro tiro. O som dos foguetes rasgando o céu foi o aviso. Não teve tempo de pensar. Era agir ou ser engolido. Eu sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, a Pedreira ia tentar de novo. Era questão de tempo até eles virem com sede, querendo tomar o que é meu. Eles não esquecem, não perdoam, não desistem. Mas aqui é mão de aço. Aqui não se invade fácil. Aqui ninguém tira o que eu construí com sangue, suor e coragem. O morro é meu. Foi eu quem levantei cada pilar de respeito com medo no olhar dos outros, com lealdade dos meus aliados, com a força de quem não teve escolha e mesmo assim venceu. Não vou permitir que ninguém pise aqui e ache que vai sair vivo. Hoje, é guerra. E eu nasci pra vencer.Fiquei junto com os meus vapores, com o meu irmão e com o Coringa ao meu lado, todos nós com o olhar firme, o dedo no gatilho e o coração pulsando no mesmo ritmo da guerra. As balas cortavam o ar, zunindo feito maldição, e o cheiro de pólvora já tomava conta do morro. Não era só território que estava em jogo — era a nossa honra, o nosso sangue, nossa história. — Não vamos perder o nosso morro para esses filhos da p**a! — gritei, com a garganta rasgando de raiva e o ódio vibrando no peito. Coringa assentiu com firmeza ao meu lado, os olhos dele queimando com a mesma sede de guerra que eu carregava. — Claro que não, irmão! Lutamos demais por ele. — disse meu irmão, com a voz grave, carregada de tudo que já passamos. Seguimos na trocação, cada disparo devolvido com o dobro de fúria. O som era ensurdecedor, o céu escurecido pela fumaça que subia das vielas. No meio do caos, vi um dos meus vapores cair ao meu lado, atingido. O estampido do tiro foi seco, direto, e o sangue dele manchou o chão como uma assinatura da guerra. — Desgraçados! — gritou ele, cambaleando até cair sentado encostado num dos muros de contenção. O rosto dele estava pálido, mas o olhar ainda firme, ainda fiel. — Você vai ficar bem, parceiro. — Coringa disse, se abaixando ao lado dele para tentar conter o sangramento. — Se a gente ganhar essa luta, tô no lucro, chefia. — murmurou o vapor, com um sorriso de canto, mesmo com a mão trêmula tentando estancar a bala cravada na perna. Eu cerrei os dentes, a raiva subindo como uma tempestade. O sangue nas minhas veias fervia, queimava como fogo. Aquilo não era só uma invasão, era uma afronta. Um ataque direto a tudo que representávamos. — Eu vou matar cada um desses filhos da p**a. — rosnei, a fúria tomando conta, e me levantei correndo em meio ao fogo cruzado, junto dos meus. Passamos por becos apertados, desviamos por vielas escuras, rebatemos tiros que vinham de todos os cantos. O tempo parecia se arrastar, mas a guerra não dava trégua. A cada segundo que passava, o caos se aprofundava. Foi quando o meu rádio apitou, o chiado cortando o som das balas por um breve instante. Peguei o aparelho com a mão firme, e, assim que escutei o que o cara do outro lado dizia, meu mundo pareceu parar por um segundo. O sangue que já estava fervendo virou lava. — Chefia, na escuta? Se estiver, tô te passando pra informar que tem um problema. Um cara que descobrimos que é x9 aqui do morro, pegou a sobrinha da dona Maria. Tá de refém. — a voz do soldado do outro lado saiu abafada, mas clara o suficiente pra me atingir como uma pedrada no peito. Senti o estômago revirar. A imagem da loirinha veio na minha mente como um soco. A menina dos olhos curiosos, que nunca devia ter se metido no meio dessa merda toda. — Onde esse desgraçado tá?! — questionei no rádio, com a voz carregada de veneno, o maxilar travado, e o dedo já firme no gatilho. Naquele momento, o morro inteiro deixou de ser apenas guerra. Virou pessoal. — No barraco da viela 12, chefia. Tá com ela lá dentro, armado... ameaçando atirar se alguém se aproximar. A confirmação me deixou cego de ódio. Cerrei os dentes, respirei fundo como se aquilo pudesse conter o vulcão que explodia dentro de mim, mas já era tarde demais. Eu estava fora de mim. — Coringa! — gritei. — Pega dois contigo e vem comigo. Agora! — virei pro meu irmão. — Continua na contenção com o resto, não deixa nenhum filho da p**a passar da esquina. Vou resolver isso com as minhas próprias mãos. — Vai na fé, irmão. Esses covardes não vão sair vivos. — ele respondeu, com o olhar duro. Partimos pela lateral do beco, cortando entre vielas, subindo escadarias quebradas e mergulhando no cheiro forte de pólvora, sangue e suor. O tiroteio ainda rugia, mas naquele instante, meu foco era outro. Eu só conseguia pensar na imagem da menina — alguém inocente — nas mãos de um traidor. Aquilo era imperdoável. Coringa corria ao meu lado, fuzil em punho, atento. Um dos vapores atrás de nós avisava no rádio os nossos movimentos, mas eu já não ouvia mais direito. Só escutava o próprio sangue pulsando nos ouvidos. Cada passo meu ecoava como tambor de guerra. Chegando perto do barraco indicado, diminuímos o ritmo. Fiz sinal com a mão para silêncio. A construção era simples, de tijolo cru e telha torta, com uma cortina velha na porta. Lá dentro, a tensão era quase palpável. Encostei na lateral do barraco, respiração pesada. O som abafado da voz dele veio de dentro, carregado de ameaça: — Se entrar, vai ser no caixão. Não era medo. Não era desespero. Era confiança demais pra alguém que se meteu com o dono do morro. Esse maluco achou mesmo que ia sair dessa? Olhei pro Coringa. Um olhar bastou. Ele já sabia o que fazer. — Se ele der um passo em falso, finaliza. — murmurei baixo, os olhos fixos na entrada. Coringa só assentiu e se posicionou, dedo leve no gatilho. Não esperei mais nada. Arrebentei a porta com um chute seco. A madeira bateu na parede e explodiu o silêncio com estrondo. O X9 virou na mesma hora, firme, com a loirinha presa à frente do corpo, a arma encaixada rente à têmpora dela. — Chegou rápido demais... — ele disse, com um sorriso torto no canto da boca, olhar provocador. — Tava com saudade de mim, Pantera? Segurei o fuzil com mais força. Minha raiva era um bicho faminto rosnando por dentro. Mas eu não podia vacilar. A menina tava ali... e ele sabia disso. — Solta ela. Agora. — Não tão rápido. Essa boneca virou meu passe de saída. — ele falou calmo, arrastando as palavras, como se tivesse no controle de tudo. Como se não tivesse uma mira colada no peito. — Você tá cavando tua cova com as próprias mãos. — Será? — ele riu curto. — Eu só quero ir embora vivo. Só isso. Solto ela, tu me deixa sair. Justo, né? Me aproximei um passo. Ele notou. — Mais um passo, e eu espalho os miolos dela nesse chão. Tu decide, patrão. Ele achava que eu tava ali pra negociar. Que eu ia tremer, hesitar. Mas não entendeu ainda com quem se meteu. — Tu se esconde atrás de uma mulher e ainda quer sair como esperto... — cuspi no chão, o olhar cravado no dele. — Sabe o que acontece com quem cruza o meu caminho desse jeito? Ele calou. O dedo dele no gatilho não tremia. Mas o olhar entregava: ele tava no limite. E eu também. A qualquer segundo, o mundo ia explodir dentro daquele barraco. E quando explodisse… ele ia implorar pra ter morrido antes. A tensão dentro daquele barraco era absurda. O X9 mantinha a arma pressionada na cabeça da menina, os olhos dele saltando das órbitas, suando frio, a respiração descompassada. Eu não tirava o dedo do gatilho nem por um segundo, minha visão estava turva de raiva, e cada fibra do meu corpo implorava pra dar cabo daquele desgraçado ali mesmo. — Você não vai sair vivo daqui... — murmurei, com o maxilar travado. — Pode tentar fazer pose de valente, mas teu fim chegou, maluco. Ele engoliu em seco, a mão tremendo, e por um instante olhou pro lado. Um erro. Um vacilo. Um segundo de distração. Foi tudo que eu precisei. Dei dois passos firmes e rápidos pra frente, com a mira certeira. O dedo puxou o gatilho quase no instinto. Um tiro. Rápido. Limpo. Barulho seco. A bala atravessou a testa do X9, e ele caiu pra trás como um peso morto, os olhos vidrando no teto enquanto o sangue escorria. A loirinha se desequilibrou, quase indo junto com o corpo dele, mas eu alcancei ela antes. Segurei pelos braços e puxei pro meu peito. — Tá tudo bem... acabou, tá? Tá tudo bem agora. — falei baixo, tentando acalmar ela, mas meu peito ainda arfava da adrenalina. Ela me olhou com os olhos arregalados, as lágrimas escorrendo pelo rosto. E sem dizer uma palavra, se jogou contra mim, os braços finos envolvendo minha cintura com força, como se eu fosse a única coisa que a mantinha de pé. O corpo dela tremia tanto que parecia que ia se desmontar nos meus braços. E aquilo me quebrou por dentro. — Ele... ele disse que ia me matar... — a voz dela saiu fraca, entre soluços, o rosto enterrado no meu peito. — Eu achei que ia morrer... Apertei ela contra mim, protegendo, acolhendo. — Eu não ia deixar isso acontecer. Nunca. — sussurrei no ouvido dela, enquanto minha mão subia devagar até a nuca dela, afagando com cuidado. — Eu tava com tanto medo... — ela repetia, o choro tomando conta. — Shhh... tá comigo agora. Ninguém mais vai encostar um dedo em você. — prometi, encarando o corpo caído no chão como se ainda pudesse fuzilar mais uma vez. — Quem mexe com os meus, não vive pra contar. Ela ficou ali, agarrada a mim, e eu fiquei de pé, firme, pronto pra matar quantos fossem necessários. Porque naquele morro, ninguém tocava em quem era meu... e saía impune.
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