O cansaço pesava sobre mim como um fardo impossível de ignorar. A noite em claro tinha deixado marcas visíveis no meu rosto, os olhos fundos e a pele pálida denunciavam o que eu tentava esconder. As lembranças não me deram trégua, me assombrando a cada piscada, a cada tentativa frustrada de encontrar algum alívio no sono. Mas depois de muita luta, em meio a pensamentos confusos e um corpo exausto, acabei apagando por algumas horas. Não demorou muito até que um toque suave no meu braço me despertasse. Pisquei algumas vezes, tentando entender onde estava, até que a voz doce da tia Maria chegou até mim.
— Minha menina, acorde. Vamos ao postinho cuidar desses pés.
Eu não queria. O simples pensamento de sair dali, de enfrentar o olhar das pessoas, fazia meu estômago revirar. Mas como eu poderia recusar depois de tudo que ela estava fazendo por mim? A mulher tinha me acolhido sem hesitação, me tratado com um carinho que há muito eu não sentia. Negar seria ingratidão. Engoli a vontade de protestar e assenti, me forçando a sentar na beirada da cama. O corpo inteiro parecia pesar o dobro, como se cada músculo estivesse reclamando do esforço.
— As roupas estão ali, minha querida. São doações que recebo e separo para quem precisa — explicou com um sorriso gentil, apontando para um pequeno monte dobrado ao lado da cama.
Toquei o tecido macio das peças antes de pegar uma roupa simples, mas confortável. Vestir-me foi uma batalha, cada movimento causando uma fisgada nos pés machucados. Mesmo assim, me mantive firme, puxando o ar para dentro dos pulmões, tentando ignorar a dor.
Assim que terminei, respirei fundo e, com dificuldade, me levantei. Caminhei devagar até a sala, onde tia Maria já me esperava com paciência e um olhar encorajador.
— Estou pronta. — digo assim que chego a sala.
— Vamos, menina. Depois do curativo, prometo que preparo um almoço bem reforçado para nós duas.
Assenti com um sorriso fraco e segui ao lado dela, tentando não demonstrar o quanto cada passo ainda era um desafio.
Saímos da casa da tia Maria em um ritmo lento. Cada passo era uma tortura, uma pontada ardente que subia pelas minhas pernas, mas eu me recusava a reclamar. Já tinha dado trabalho demais para essa mulher que me acolheu sem esperar nada em troca. O mínimo que eu podia fazer era aguentar firme.
A caminhada até o postinho parecia interminável. O sol já estava alto, e o calor sufocante do asfalto tornava tudo ainda mais cansativo. Algumas pessoas nos observavam enquanto passávamos, mas eu mantinha os olhos baixos, sem querer atrair atenção.
Assim que chegamos, a recepção estava cheia. Mães com crianças chorando no colo, idosos com olhares cansados, trabalhadores esperando atendimento antes de seguir para seus empregos. O lugar tinha aquele cheiro forte de álcool e remédios baratos, e o barulho dos ventiladores velhos m*l dava conta de aliviar o calor.
Fomos direto para o balcão, onde uma recepcionista mascava chiclete e mexia no telefone sem pressa alguma. Quando percebeu nossa presença, ergueu os olhos, seu olhar carregado de tédio.
— Bom dia, em que posso ajudar? — perguntou, a voz sem nenhuma simpatia.
Tia Maria manteve a postura gentil, como sempre.
— Eu trouxe minha sobrinha para fazer um curativo nos pés. Ela se machucou enquanto corria descalça.
A mulher nem piscou, apenas puxou um formulário de qualquer jeito e o empurrou para nós.
— Preencha essa ficha e aguarde o atendimento. — O tom de voz carregava um leve deboche.
Tia Maria franziu a testa, mas tentou argumentar:
— Olha, eu só queria que...
— Senhora, já disse que tem que esperar. Temos muita gente na fila. — A mulher cortou sem paciência, voltando a mexer no celular.
Algo em mim se revirou de raiva. Essa mulher não estava apenas sendo rude, ela estava desrespeitando a única pessoa que tinha me tratado bem desde que cheguei aqui.
— Primeiro que eu nem queria ter vindo aqui — soltei, irritada, cruzando os braços. — Só estou aqui porque o Pantera exigiu isso. Então vamos embora, tia.
A reação foi instantânea. A mulher arregalou os olhos e se levantou num pulo. Sua expressão mudou completamente.
— Desculpe, senhora, eu não sabia que era ordem do patrão — murmurou, visivelmente nervosa.
Revirei os olhos. Agora ela queria ser educada? Patético.
— Agora eu que não quero mais. — Me virei para sair, mas senti sua mão apertar meu braço.
— Por favor, me desculpem — insistiu, a voz envergonhada. Ela olhou para o lado, chamando outra funcionária. — Samyra, faz o curativo nela.
A outra mulher não questionou, apenas se apressou em nos levar para uma sala reservada. O atendimento mudou completamente depois que o nome de Pantera foi mencionado. O jeito que o medo se instalou na recepcionista, a rapidez com que resolveram meu caso... aquilo deixou um gosto amargo na minha boca. O respeito que ele impunha era real, quase sufocante. Talvez ele fosse, de fato, o próprio d***o. E por mais que eu temesse esse lugar, temesse os olhos que me observavam e a brutalidade que parecia ser a lei aqui dentro, havia uma coisa que eu sabia com certeza: eu jamais deixaria alguém falar com tia Maria daquela forma. Ela era a única pessoa que merecia respeito de verdade.
Depois que o atendimento terminou, saímos do postinho e começamos a caminhada de volta para casa. Meus pés ainda latejavam, mas eu me obrigava a ignorar a dor. A rua estava movimentada, como sempre, com gente indo e vindo, cuidando de suas vidas. Estávamos no meio do caminho quando demos de cara com o Pantera.
Ele estava ali, acompanhado do irmão e de outro homem que eu não conhecia. Mas o que me fez estremecer não foi a presença deles — e sim o olhar intenso que aquele terceiro homem lançou sobre mim. Ele não desviou os olhos, me observando de uma forma que me fez prender a respiração. Não havia nada de amigável em sua expressão, apenas algo afiado, como se estivesse me analisando. Senti um arrepio percorrer minha espinha e abaixei o olhar, apertando o braço da tia Maria instintivamente. Não queria chamar atenção. Queria apenas passar despercebida e continuar meu caminho. Tia Maria trocou algumas palavras rápidas com Pantera, e eu permaneci imóvel, lutando contra o desconforto que a presença deles me causava. Meu coração batia forte, mas eu não sabia se era pelo medo que sentia... ou por outro sentimento motivo.
Afinal, Pantera era um homem bonito. Um tipo de beleza crua, perigosa. Mas sua expressão carregava algo que fazia qualquer um temer. Ele não parecia um homem comum. Ele parecia um predador.
Quando tia Maria se despediu, eu me agarrei ainda mais a ela, como se sua presença fosse meu escudo contra aqueles olhares que pareciam perfurar minha pele.
Seguimos caminhando, e só quando chegamos em casa eu finalmente soltei o ar que nem tinha percebido que estava prendendo. Me sentei no sofá e olhei para tia Maria, sentindo um peso na consciência pelo que aconteceu no postinho.
— Tia, me desculpe por ter falado daquela forma com aquela mulher. — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ela sorriu de leve, aquele sorriso gentil que parecia iluminar qualquer ambiente.
— Não tem problema, minha filha. Você apenas agiu na defensiva.
Suspirei e abaixei a cabeça.
— Mas eu senti que fui grosseira...
— Não se preocupe com isso. Tem pessoas nesse morro que são assim. Infelizmente, é assim que vivemos.
Ela seguiu para a cozinha, e sem pensar, fui atrás dela. Algo dentro de mim me dizia que, por mais que esse lugar fosse perigoso, aqui eu não estava sozinha. Pelo menos, por enquanto. Passei um bom tempo ajudando tia Maria na cozinha, mesmo com a dor latejante nos meus pés. Ela tentou me impedir de fazer esforço, mas eu insisti. Eu precisava me manter ocupada, precisava me sentir útil de alguma forma.
Quando o almoço ficou pronto, nos sentamos para comer. A comida tinha um sabor caseiro que me trouxe um conforto que eu nem sabia que precisava. Era como se, por alguns instantes, o peso do mundo não estivesse sobre meus ombros.
Depois de almoçarmos, tia Maria precisou sair. Antes de ir, insistiu para que eu descansasse, disse que meu corpo precisava se recuperar. Mas ficar parada não era algo que eu sabia fazer, então assim que ela saiu, comecei a ajeitar a casa.
A cada movimento, a dor nos meus pés se intensificava, mas eu ignorei. Limpei o que consegui, organizei algumas coisas e só parei quando senti que tinha feito tudo que podia.
Exausta, fui até o banheiro. Tirei as faixas dos meus pés com cuidado, observando as marcas na pele, e respirei fundo antes de entrar debaixo do chuveiro. A água quente escorrendo pelo meu corpo trouxe um alívio momentâneo, relaxando meus músculos tensos. Fechei os olhos e me permiti ficar ali por alguns minutos, sentindo o cansaço pesar sobre mim. Quando saí do banho, me enxuguei rapidamente e vesti uma roupa simples. Só então voltei a enrolar meus pés nas faixas, garantindo que estavam bem protegidos antes de finalmente me permitir deitar.
O sono veio rápido, como se meu corpo finalmente tivesse cedido ao esgotamento.
Passei o resto do dia dormindo, afundada em um descanso profundo, sem sonhos, sem interrupções. Foi só à noite que acordei, sentindo o aroma quente e familiar de café invadir o quarto. Abri os olhos devagar, piscando algumas vezes para me situar. O cheiro era tão convidativo que fez meu estômago revirar levemente. Tia Maria estava na cozinha. E, pelo jeito, não era um sonho.