A fragilidade daquela garota me bateu como um soco no estômago. A maneira como ela se agarrava à dona Maria, tremendo, com os olhos arregalados e úmidos, me fez sentir algo que eu não sentia fazia muito tempo: repulsa. Mas não por ela. Pelo desgraçado que fez isso. Filho da p**a. Se ele teve coragem de tentar tocar na própria filha, o que ele não deve ter feito por aí? Quantas outras mulheres não sofreram nas mãos desse merda? A favela cobra. E eu sou o cobrador.
Fosse do tráfico ou não, aquele verme ia pagar. E eu mesmo ia garantir isso. A raiva crescia dentro de mim, fervendo como lava borbulhante, pedindo pra ser extravasada. E eu só sabia lidar com ela de três formas: matando alguém, me drogando ou afundando dentro de alguma p**a. Por enquanto, matar estava fora de questão. Ainda. Mas eu precisava entorpecer essa p***a dentro de mim antes que explodisse.
— Esse desgraçado vai morrer.— Rosnei para o Barão ao meu lado. Ele não respondeu, só me olhou com aquele jeito fechado dele e assentiu. Quando ele ficava calado era porque estava no mesmo sangue frio que eu. Tirei do bolso um pino de pó, abri e aspirei de uma vez, sentindo a droga queimar minhas narinas e invadir meu cérebro. A adrenalina correu solta, e minha visão ficou mais nítida. Eu tinha uns assuntos a resolver antes de caçar esse lixo humano. — Bora pra boca, ver o Coringa.— Falei, pegando minha pistola na cintura e conferindo o pente.
Saímos da casa da Dona Maria e seguimos até a moto. O dia já estava claro, mas a favela nunca dorme. Vários vapores já estavam no corre, aviões indo e vindo, os soldados fazendo a contenção, e os olheiros espalhados pelos becos, atentos a qualquer movimentação suspeita. Cumprimentei alguns com um aceno de cabeça e segui direto para onde precisava estar.
Subi na moto, ligando o motor com um rugido alto que ressoou pelo beco estreito. O Barão montou atrás de mim, calado, o que já era um milagre. Ele sempre tinha um comentário i****a na ponta da língua, mas agora, nada. Melhor assim. Acelerei. O vento cortava minha pele como navalha enquanto atravessávamos as ruas do morro. O cheiro de fumaça, comida barata e suor impregnava o ar. A favela nunca dormia, mas tinha um silêncio estranho naquela manhã. Tinha sangue pra derramar. Só ainda não sabiam disso. Quando chegamos na boca, a cena era a mesma de sempre: vapores espalhados pelos becos, radiolas ligados em volume alto, risadas abafadas pelo barulho da rua, sem contar o cheiro forte de maconha e suor azedo dos caras que passavam a madrugada na contenção da boca. O lugar estava movimentado, cheio de moleques embalando as cargas, outros contando dinheiro. Mas todo mundo sabia quem eu era. E sabiam que quando eu aparecia, ou era dinheiro, ou era morte.
— Salve, chefia. — um dos vapores me cumprimentou, levantando o queixo em respeito.
— Tá tranquilo, chefe.— Um deles disse, olhando ao redor. — Movimentação normal, sem polícia rodando hoje.
— Melhor que continue assim.— Falei, passando por eles e indo direto para a sala onde Coringa estaria.
Meus homens seguravam as pontas da contenção, armas na mão, olhar atento. Ninguém entrava ou saía sem que a gente soubesse. Passei direto, empurrei a porta da sala do Coringa e entrei sem cerimônia. Eu tinha contas pra acertar. E alguém ia sair perdendo. Assim que entrei, ele estava sentado atrás da mesa, um cigarro entre os dedos e uma Glock ao lado da pilha de dinheiro.
— Qual foi, Pantera?— Ele me olhou de canto, soltando a fumaça devagar.
— Quero saber da distribuição do armamento. O bagulho tem que tá no esquema.— Cruzei os braços, encarando ele com seriedade. — E depois que resolvermos isso, tenho outro trampo. Um lixo que precisa ser apagado.
— E qual foi do bagulho? — Coringa perguntou, os olhos afiados analisando minha postura tensa. Antes que eu pudesse responder, Barão entrou na conversa.
— Temos uma novata dentro do morro. A garota fugiu de casa depois de quase ser estuprada pelo próprio pai.
O silêncio tomou a sala por um instante. Coringa me encarou direto, já sabendo que esse tipo de coisa me deixava fora de mim. Meus punhos se fecharam automaticamente.
— Qual foi? Onde tá esse merda? — Sua voz saiu carregada de raiva contida.
— Ainda vou descobrir. — respondi, soltando o ar pesadamente. Meu sangue fervia só de pensar naquele desgraçado respirando. — Mas, primeiro, vamos resolver a parada do morro. Isso eu cuido depois. A garota ainda tá em choque, não dá pra tirar muita coisa dela agora.
Coringa apoiou os cotovelos na mesa, os dedos tamborilando na madeira, enquanto assentia lentamente.
— Sabe que, quando tu localizar esse desgraçado, tamo junto pra mandar esse bosta pro inferno.
Minha mandíbula trincou. Eu sabia que não ia precisar pedir duas vezes. Aqui, predador não tem vez. E esse filho da p**a pagaria com sangue.
Fiz um breve aceno de cabeça, controlando a fúria, enquanto Coringa começava a me passar o relatório do armamento. A tensão no ar ainda era palpável, mas a gente tinha negócio pra tocar. Ele detalhou quantas bocas já tinham sido abastecidas com armas novas, a qualidade do material e os novos carregamentos que estavam pra chegar. Eu absorvia tudo, mas no fundo da minha mente, só existia uma certeza: aquele desgraçado já tava morto. Ele só não sabia ainda.
Depois de resolver tudo que precisava, saí da sala do Coringa, deixando ele com o Barão para acertar os últimos detalhes da distribuição. Caminhei pela boca, a mente ainda fervendo com os últimos acontecimentos. Resolvi algumas pendências, acertei contas com alguns vapores e garanti que o dinheiro da boca tava fluindo como deveria. O dia passou rápido, e a droga que eu tinha mandado pra dentro mantinha meu corpo acelerado, minha cabeça girando em pensamentos cada vez mais insanos. Já tava na hora de descontar essa tensão de alguma forma.
Foi quando o rádio chiou na minha mesa.
— Pantera? — a voz do Mike ecoou do outro lado.
Peguei o rádio sem pressa, encostando na cadeira e tragando o cigarro entre os dedos.
— Fala, Mike. Qual foi?
— Aí, cara, tô organizando um baile aqui na minha comunidade hoje. Cola aí, p***a, vai ser daquele jeito.
Soltei uma risada, sentindo o efeito da droga pulsar forte no meu sistema. Meus músculos relaxaram na mesma hora.
— Vou, pô. Tem p**a boa aí? — perguntei, já imaginando a noite que me esperava.
Ouvi a risada dele do outro lado.
— Claro, p***a! Vou te dar as melhores, daquele jeitão.
Meu sorriso se alargou. Era exatamente do que eu precisava.
— Fechou. Vou resolver os bagulhos aqui do morro e mais tarde colo aí com os meus.
— Já é. Fico no aguardo, então. Até mais tarde.
O rádio ficou mudo depois disso. Joguei ele de lado na mesa e traguei o cigarro mais uma vez, soltando a fumaça devagar. A noite prometia. Mas antes, ainda tinha algumas coisas pra resolver.
Fiquei um bom tempo na minha sala, resolvendo o que precisava, enquanto a droga ainda fazia efeito no meu corpo. O tempo passava, e eu nem percebia, até que meu estômago roncou alto, me lembrando que fazia horas que eu não colocava nada pra dentro.
Levantei, alongando os ombros tensos, e saí sem dizer nada. Assim que pisei fora da sala, dei de cara com o Barão e o Coringa vindo na minha direção. Eles me olharam, mas não precisaram perguntar nada. Me conheciam bem demais pra saber que, quando eu saía assim, era porque tava descendo pra bater a larica.
Eles simplesmente me seguiram, sem precisar trocar palavras. Descemos a pé, passando pelas vielas e becos do morro, indo direto pro bar do seu José. Vez ou outra eu gostava de comer ali, porque era comida caseira, e, acima de tudo, era o único lugar onde ninguém olhava torto pra gente. Diferente de outros bares e botecos, onde sempre tinha alguém incomodado com a nossa presença, ali todo mundo já sabia como as coisas funcionavam.
Ao chegar, o movimento era grande. Algumas pessoas entravam e saíam com suas marmitas, enquanto outras já tinham comido e estavam só trocando ideia, apoiadas nos balcões ou sentadas nas mesas. O cheiro da comida se misturava com o barulho de risadas e conversas ao fundo.
Escolhi uma mesa no canto e me sentei, jogando o corpo pra trás com uma leve exaustão. Barão e Coringa se sentaram comigo, sem cerimônia. Enquanto esperávamos, trocamos uma ideia sobre as movimentações do dia, sobre a boca, as entregas e o baile que ia rolar mais tarde. Seu José apareceu pouco tempo depois, trazendo os pratos sem nem precisar perguntar o que a gente queria. Ele já conhecia nosso gosto, sabia exatamente o que cada um ali comia. Era esse tipo de respeito que fazia a gente sempre voltar.
Peguei o garfo e comecei a comer, sentindo a fome falando mais alto. A noite ainda estava longe de chegar, mas eu estava pronto para que ela chegasse. Continuamos comendo na paz, trocando umas ideias entre uma garfada e outra, o barulho ao redor servindo como um pano de fundo tranquilo. Era raro um momento assim, onde dava pra simplesmente sentar, comer e esquecer, mesmo que por pouco tempo, o caos que era a nossa vida. Mas, como tudo na favela, a calmaria nunca durava muito.
Assim que terminamos e saímos do bar do seu José, demos de cara com a dona Maria vindo na nossa direção. Ao lado dela, segurando firme no seu braço como se precisasse daquele contato pra se manter de pé, estava a loirinha dos olhos azuis.
Dessa vez, eu não ignorei. Meu olhar desceu pelo corpo dela, analisando cada detalhe. Percebi as faixas brancas enroladas em seus pés, denunciando o curativo recente. A imagem me fez apertar o maxilar. Eu já tava puto antes, mas ver aquilo só aumentava a minha raiva.
— Qual foi, dona Maria? — soltei, cruzando os braços.
Ela parou ao nosso lado, mantendo o tom tranquilo de sempre.
— Levei a minha sobrinha pra fazer o curativo. O pessoal lá foi muito atencioso.
— Ótimo, tia. — meu irmão se adiantou, respondendo antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
A garota continuava de cabeça baixa, como se quisesse desaparecer. Seus dedos agarravam o braço da tia com força, os ombros pequenos encolhidos. O medo exalava dela como um perfume amargo.
Soltei um riso curto, balançando a cabeça.
— Aí, garota, não precisa se preocupar. — falei, minha voz saindo firme. — Nós é bandido, mas não morde, não. E ninguém aqui é doido de fazer m*l pra qualquer mulher. — Ela levantou o olhar devagar, como se não acreditasse muito no que eu tava dizendo. — O filho da p**a que ousar fazer qualquer coisa contra uma mulher, ele morre. — continuei, minha expressão séria. — Porque é isso que a gente faz com esse tipo de desgraçado.
Ela desviou o olhar, respirando fundo, mas não disse nada. Ainda tava assustada, isso era óbvio.
— Obrigada, Pantera. — dona Maria respondeu, com um leve sorriso. — Agora vamos indo. A doutora recomendou que ela ficasse deitada pra recuperar os pés logo.
Assenti com a cabeça e observei as duas se afastarem. Mas antes que elas sumissem de vista, percebi um detalhe que me incomodou. Coringa, que tava do meu lado, não desgrudava os olhos da loira.
A raiva subiu quente na minha garganta.
— Qual foi, filho da p**a? — minha voz saiu carregada, e ele pigarreou, fingindo distração.
Eu podia até estar puto com aquele olhar dele, mas uma coisa era certa: aquela garota ainda não fazia ideia do que era estar na mira de alguém como nós. E talvez fosse melhor assim. Voltamos para a boca, e mesmo que eu ainda tivesse um ódio enraizado pelas mulheres, eu sabia diferenciar as coisas. Eu não era um monstro s*******o, sem controle. Se uma mulher dizia não, então era não. Mas estar na mira de um bandido era outro nível de problema.
Sacudi esses pensamentos e foquei no que realmente importava: os corres da boca. Passei o resto do dia verificando a distribuição da droga, conferindo o caixa e garantindo que tudo estivesse fluindo como deveria. Se tinha uma coisa que eu não tolerava, era desorganização no meu negócio.
Quando a noite caiu, voltei pra casa. O corpo já começava a pedir um descanso, mas antes disso, eu precisava de um banho pra relaxar. Entrei no chuveiro, sentindo a água quente aliviar a tensão nos músculos. O cheiro da pólvora e da rua escorria pelo ralo, junto com o resto da sujeira do dia. Depois de me arrumar, saí do quarto e desci as escadas. Meu irmão já estava na sala, me esperando com aquela cara de sempre impaciente, mas pronto pra qualquer parada.
— Bora? — perguntei, pegando a carteira e o celular.
Ele apenas assentiu com a cabeça, e juntos saímos da casa. Lá fora, Coringa já estava encostado no carro, girando a chave entre os dedos enquanto esperava.
— Até que enfim, c*****o — ele resmungou, abrindo a porta do carro.
— Relaxa, filho da p**a. — Joguei um olhar debochado pra ele antes de entrar.
Assim que nos acomodamos, Coringa ligou o motor, e o ronco do carro ecoou pela favela, claro que nunca andamos sem escolta, havia mais dois carros atrás da gente com armamento pesado pronto para qualquer situação. Nosso destino? O Complexo da Maré. Hoje era dia de baile.
E eu tava pronto pra esquecer qualquer merda que tivesse na minha mente.