Episódio 04 — Maisie

2783 Words
Quando aquela senhora olhou para mim, vi o horror em seus olhos. Ela segurava algumas sacolas nas mãos, mas as largou no mesmo instante em que me viu desabar ali, sem forças. Tentei me apoiar no chão para levantar, mas meu corpo não obedeceu. As bolhas abertas nos meus pés latejavam tanto que qualquer tentativa de movimento parecia uma tortura. O ardor cortante percorreu minha pele como se fosse fogo, e a fraqueza me venceu por completo. Foi só então que deixei as lágrimas caírem. Não consegui segurar mais. A dor, o medo, o cansaço… tudo veio de uma vez só, esmagando meu peito. Eu soluçava baixo, sem conseguir evitar. A senhora hesitou por um momento, mas depois se abaixou ao meu lado. Sua mão quente e enrugada tocou meu braço com delicadeza, como se tivesse medo de me quebrar. Olhei para ela. Mas não consegui sustentar o olhar. A vergonha pesou sobre mim como um peso insuportável. Me senti suja. Um nojo profundo me dominou de dentro para fora, um desespero que crescia a cada segundo. Meu estômago revirou violentamente, e, sem conseguir segurar, me virei para o lado e vomitei. As náuseas me tomaram inteira, meu corpo tremia enquanto eu tentava recuperar o fôlego. — Menina… você está bem? — ouvi a voz suave da senhora, carregada de preocupação genuína. Havia tanta doçura na forma como ela falou que aquilo só me fez querer chorar ainda mais. — Estou… — minto, minha voz sai fraca, quase inaudível. Ela me encara por um momento, movendo a cabeça negativamente. — Não minta, mentir é feio. Ao ouvir isso, não consegui mais segurar. As lágrimas voltaram com mais força, escorrendo quentes pelo meu rosto, e meu peito arfava com o esforço de conter os soluços. — Me desculpa… — sussurrei, a voz embargada, quase engolida pelo choro. A senhora suspirou e, sem hesitar, sentou-se ao meu lado no chão frio. Seus movimentos eram suaves, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo para estar ali comigo. Ela não parecia incomodada com o estado deplorável em que eu estava. — Você não precisa se desculpar, menina. — disse, sua voz era um carinho em meio ao caos que me envolvia. — Se quiser conversar, estou aqui. Ela pousou a mão quente sobre o meu braço, num gesto que me transmitiu um conforto estranho. — Você quer ir comigo para minha casa? Não é nada chique nem luxuoso, mas pelo menos podemos conversar com calma. O convite fez meu estômago revirar. Não porque duvidava da bondade dela, mas porque eu não sabia o que fazer. Não tinha para onde ir, e a sensação de estar completamente perdida era sufocante. — Eu… eu não quero incomodar a senhora. — tentei argumentar, mas meu soluço me traiu. — Você não incomoda. — garantiu com um tom firme, porém acolhedor. Passei as mãos pelo rosto, tentando me recompor. — Eu… eu fugi de casa. Nem sei que caminhos percorri até chegar aqui. Não sei onde estou. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, apenas me observando. Quando finalmente falou, sua voz carregava um peso de preocupação genuína. — Meu Deus, menina… por que você fez isso? A pergunta fez meu peito se apertar. As lembranças me atingiram com tanta brutalidade que me senti sufocada. O terror daquela noite voltou com força, tão vívido que me fez sentir novamente o cheiro da sala, o peso do medo, a ânsia subindo pela minha garganta. — Meu pai… — sussurrei, sentindo meu corpo enrijecer. — Ele tentou me estuprar. Assim que disse isso, meu estômago se revoltou mais uma vez, e me virei de lado, vomitando de novo. — Meu Deus… — a voz da senhora soou entrecortada pela tristeza e pelo choque. — Como pode um pai fazer algo assim com a própria filha? Ela passou a mão no rosto, como se tentasse processar aquela verdade absurda. — Venha comigo, eu acolho você na minha humilde casa. Moro sozinha aqui perto, no Complexo do Chapadão. Lá, te darei abrigo. A generosidade dela me pegou desprevenida. — Eu não quero causar problemas para a senhora… — murmurei depois que minha ânsia passou. Ela segurou meu rosto com delicadeza e negou com a cabeça. — Não haverá problema algum. Se for necessário, digo que você é minha sobrinha. Sei que favelas têm regras próprias. Vi muitas notícias na TV sobre o que acontecia em comunidades, mesmo que nunca prestasse muita atenção. Mas algo me dizia que essa mulher sabia exatamente o que estava fazendo. — Se eu for trazer problemas, eu vou embora… — insisti, mesmo sabendo que não tinha para onde ir. A senhora apenas sorriu, um sorriso pequeno, mas repleto de ternura, antes de me puxar para um abraço. — Não tenha medo, eu não deixarei nada acontecer com você. — Fechei os olhos por um instante, sentindo o calor daquele abraço. Era tão diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes. — Tenho dois filhos, mas eles não fazem questão de mim. — disse ela, num tom melancólico. O peso daquela confissão me atingiu de um jeito inesperado. Como alguém poderia ignorar uma mãe tão boa assim? — Como podem? — murmurei, inconformada. A senhora suspirou, depois se levantou devagar, alisando a saia simples que usava. — Não quero pensar nisso agora. Já está muito tarde. Vamos embora. — Ela estendeu a mão para mim. — Consegue andar? Fitei sua mão por alguns segundos antes de finalmente tomá-la. Era a primeira vez em muito tempo que eu sentia que alguém realmente queria me ajudar. — Sim… — murmurei, segurando sua mão com delicadeza. Com um pouco de esforço, me levantei devagar. Meu corpo inteiro doía, os pés latejavam como se estivessem em brasas, mas engoli a dor. Não podia me dar ao luxo de fraquejar mais. — A propósito, me chamo Maria Lúcia, mas todos me chamam de Maria. E como agora você é minha sobrinha, pode me chamar de tia Maria. — disse ela com um sorriso gentil. Aquela bondade, tão sincera, me pegou de jeito. Depois de tanto tempo cercada por crueldade, me vi perdida na doçura daquela mulher. — Tia Maria… — sussurrei, testando as palavras em minha boca. Ela sorriu, um sorriso acolhedor que aqueceu um pouco do frio que fazia morada dentro de mim. — Me chamo Maisie. — Um nome lindo. — disse ela com ternura enquanto me ajudava a caminhar. Cada passo era um tormento. Minhas bolhas estouradas nos pés ardiam a cada contato com o chão, mas eu segui em frente. Assim que alcançamos as sacolas que tia Maria havia largado antes, ela as pegou com calma e seguimos pelas ruas escuras. O pouco de claridade que havia vinha de alguns postes e janelas, criando sombras alongadas e ameaçadoras pelo caminho. O lugar me dava arrepios. Eu sabia que estava num ambiente perigoso, mas, ao mesmo tempo, protegido por suas próprias regras. O Morro do Chapadão tinha dono, e onde há dono, há lei. A dor nos meus pés se intensificava a cada passo, mas eu não podia parar. Meus joelhos estavam fracos, minha aparência devia estar deplorável. Eu sabia disso. Meu cabelo desgrenhado, minha roupa suja, o rosto marcado pelas lágrimas e pelo sofrimento. Mas eu não me importava. Eu só queria me livrar das lembranças ruins, apagar tudo o que vivi antes de fugir. Quando chegamos à entrada do morro, o medo me tomou com força. Vários homens estavam postados ali, todos armados. O brilho metálico dos fuzis e pistolas refletia sob a pouca luz, e os rostos deles eram fechados, impassíveis. Meu coração acelerou. Era uma visão intimidadora, como se estivéssemos diante de predadores em alerta, prontos para agir a qualquer sinal de ameaça. Segurei a alça da blusa com força, tentando conter o tremor nas mãos. Mas, para minha surpresa, nenhum deles disse nada. Apenas observaram, mantendo a postura de sentinelas do morro. Estávamos prestes a passar quando uma voz firme nos parou. — Dona Maria, onde vai? Quem é essa garota? Congelei no lugar, o medo me prendendo como correntes invisíveis. Minha respiração ficou presa na garganta, e senti o olhar do homem perfurando minhas costas. Mas tia Maria, sem demonstrar nenhum receio, simplesmente ignorou a pergunta e continuou andando. Ela era respeitada. E ele não ousou vir atrás. Engoli seco e segui ao seu lado, tentando ignorar a sensação de que vários olhos ainda estavam sobre mim. Eu estava dentro do território deles agora. E, por mais que estivesse com tia Maria, uma coisa era certa: eu ainda não estava segura. Seguimos para sua casa em silêncio, e assim que chegamos, entramos na residência simples, mas acolhedora. O ambiente tinha um cheiro bom, um aroma de café misturado com o perfume suave de limpeza, algo que me trouxe uma estranha sensação de conforto. Tia Maria me guiou até o banheiro, pegou algumas roupas e me entregou. — Toma um banho, minha filha. Vai te fazer bem. Assenti sem dizer nada. Fechei a porta atrás de mim e, assim que me vi sozinha, minhas pernas cederam um pouco. Me apoiei na pia, sentindo um nó apertado na garganta. Liguei o chuveiro e, quando a água quente caiu sobre meu corpo, um soluço escapou. Esfreguei minha pele com força, como se pudesse apagar tudo o que aconteceu, como se pudesse arrancar aquela sensação de sujeira que parecia impregnada em mim. Mas, por mais que esfregasse, por mais que tentasse, o nojo não ia embora. O banho era a melhor coisa que eu poderia ter naquele momento, e, mesmo assim, parecia insuficiente. Quando finalmente saí, vestida com o pijama que ela havia me dado, me sentia exausta. Minha pele estava vermelha de tanto esfregar, e meu corpo ainda doía. — Venha. — tia Maria chamou, e eu a segui sem contestar. Ela me levou até um pequeno quarto. Simples, mas aconchegante. A cama de solteiro parecia tão convidativa que, por um segundo, senti vontade de apenas me jogar nela e dormir por uma eternidade. — Obrigada, tia. — minha voz saiu fraca, tentando soar firme, mas falhando miseravelmente. — Vou cuidar dos seus pés. — disse ela com a mesma bondade de sempre. — Não precisa, tia. Vai passar. — menti, engolindo a dor e ignorando o calor insuportável das feridas. Ela franziu a testa, balançando a cabeça em reprovação. — Nada disso. Deite-se, que eu já volto. Suspirei, sabendo que discutir era inútil. Assim que ela saiu do quarto, fui até a cama e me sentei. O nó na garganta apertava, e o silêncio do cômodo fazia meus pensamentos gritarem ainda mais alto. Pouco tempo depois, ela voltou com um pano, um recipiente com água gelada e uma pomada. — Deite-se, querida. — pediu com doçura. Fiz o que ela mandou. Ela se sentou ao meu lado e começou a passar as compressas frias com cuidado, aliviando um pouco a dor pulsante nos meus pés. Depois, secou a pele com delicadeza e aplicou a pomada, sua expressão carregada de ternura. — Obrigada. — murmurei, sentindo os olhos arderem. Ela sorriu de leve, um sorriso gentil e reconfortante. Ficou ali por um tempo, me cuidando como se fosse sua própria filha. Depois, saiu do quarto, dizendo para eu descansar, pois logo o dia amanheceria. Eu tentei. Fechei os olhos e me forcei a dormir, mas o sono não veio. A cada vez que piscava, as lembranças me atacavam sem piedade. Foi quando um cheiro conhecido se espalhou pela casa. Café. Meu estômago roncou baixinho, e, por um instante, senti vontade de me levantar e ir até a cozinha, ajudar de alguma forma. Mas meu corpo parecia pesado demais para se mover. Então, ouvi vozes. Uma delas era de tia Maria. A outra, porém, era de um homem. Grossa, firme, carregada de autoridade. Algo dentro de mim se retesou. Reuni forças e me levantei devagar, seguindo o som das vozes. Quando cheguei perto, parei no corredor, ouvindo a conversa sem querer. O tom do homem mudou de repente. — Como é que é? — ele perguntou, isso ecoou várias vezes na minha cabeça, e pela fúria em sua voz, pude sentir o ar pesar. Meu coração acelerou. Saí do corredor e caminhei até a sala. Assim que entrei, meus olhos pousaram nele. Era um homem alto, de porte imponente. Seu olhar estava carregado de fúria, e suas mãos estavam cerradas em punhos. Ele parecia pronto para explodir. O mesmo homem da madrugada estava ao lado dele, e quando, com a voz embargada, pedi para que não fizessem nada, para que ele não sujasse as mãos de sangue, o outro riu. Um riso curto, debochado. — Saia. — ordenou o homem furioso, sem nem desviar o olhar de mim. Tia Maria já estava ao meu lado, me abraçando de leve, como se quisesse me proteger. E naquele momento, percebi que algo estava prestes a acontecer. — Minha menina, esse é o Pantera, o dono do morro. Ao ouvir aquelas palavras, meu corpo ficou tenso. Engoli em seco, sentindo o ar preso na garganta. Eu estava diante do homem mais perigoso dali, e só de imaginar o que ele poderia fazer comigo, um arrepio gelado percorreu minha espinha. Apertei ainda mais o abraço em tia Maria, como se ela pudesse me proteger daquele homem. Pantera me analisava com um olhar afiado, sem demonstrar nada além de frieza. Havia algo nele que fazia o medo crescer dentro de mim, como se sua simples presença fosse capaz de esmagar qualquer um que cruzasse seu caminho. — Vou resolver umas paradas, depois eu volto por aqui. — sua voz era potente, carregada de autoridade. — Quero saber mais sobre esse filho da p**a. Ele não vai passar batido. Meu peito se apertou. — Por favor... — minha voz saiu falha, mas eu insisti, reunindo coragem. — Não suje suas mãos por alguém que não vale a pena. Ele desviou o olhar para mim, sua expressão se tornando ainda mais séria. O ar pareceu pesar entre nós. — Qual foi, patricinha? — o outro homem, aquele da madrugada, debochou. — Se liga na visão. Se esse desgraçado fez isso contigo, que é filha dele, imagina o que não faz com outras mulheres que se negam a aceitá-lo? As palavras bateram fundo, como um soco no estômago. Meu corpo travou, e a ânsia voltou com tudo. Não... Eu não queria pensar nisso. As lágrimas desceram antes que eu pudesse contê-las, quentes e silenciosas. Tia Maria percebeu e me envolveu em um abraço, sua mão acariciando minhas costas de leve. — Tudo bem, não fique assim, minha menina. Mas como eu poderia não ficar? Pantera observava tudo, impassível. — Quando a garota estiver mais calma, eu volto aqui. — avisou. — Quero saber onde ela mora, porque a favela vai cobrar. As palavras saíram firmes, definitivas. Não era uma ameaça vazia. Ele não esperou resposta. Apenas se virou e saiu, deixando apenas o peso de sua promessa no ar. Meus olhos seguiram sua silhueta até que sumisse da porta. Meu coração batia forte no peito, e a respiração ainda estava irregular. — Venha comer alguma coisa, não fique triste. — tia Maria sugeriu com doçura, segurando minha mão e me guiando até a cozinha. O aroma do café fresco invadiu meus sentidos, trazendo um conforto inesperado. Assim que nos sentamos à mesa, ela me serviu um pão quentinho e uma xícara da bebida quente. — Obrigada por tudo o que a senhora está fazendo por mim. — murmurei, sentindo um aperto na garganta. Ela sorriu e tocou meu rosto com carinho. — Eu jamais permitiria que algo acontecesse com qualquer pessoa. E você... — sua voz saiu suave. — Me pareceu tão perdida e desamparada. Seus olhos brilhavam com sinceridade, e eu soube que suas palavras eram verdadeiras. Tia Maria era um anjo de carne e osso. Não tinha dúvida de que seu caminho no céu já estava garantido. Enquanto comíamos, pela primeira vez em muito tempo, senti um pouco de paz. Não foi um alívio total, mas pelo menos, por alguns instantes, não precisei pensar em nada além daquele café quente e do pão macio em minhas mãos. Quando terminamos, tentei lavar a louça, mas ela me impediu com um aceno firme. — Vá descansar, minha filha. Seu corpo precisa disso. Eu quis insistir, mas a verdade é que estava exausta. Cada músculo doía, cada passo parecia um desafio. Era como se eu tivesse levado uma surra e talvez, de certa forma, tivesse mesmo, mas não fisicamente. Assenti e voltei para o quarto. Assim que meu corpo tocou o colchão, senti o cansaço me engolir. Dessa vez, o sono não demorou a vir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD