Episódio 03 — Pantera

1853 Words
Eu nunca fui o tipo de cara que tolera aproximação. Detesto i********e, laços ou qualquer merda parecida. Mulher, para mim, só serve para um propósito: prazer. Nada além disso. E, como sempre, foi exatamente isso que aconteceu essa noite. Peguei aquelas duas de uma vez, usei como quis e descartei como o lixo que são. Nenhuma vale o esforço de lembrar o nome. Depois de me livrar delas, voltei para casa e fui direto para o banho. O cheiro delas grudado na minha pele me enojava. Óleo barato misturado com suor e perfume adocicado demais. Passei a mão molhada pelo cabelo, deixando a água quente escorrer pelos ombros enquanto esfregava a pele até não restar mais nenhum vestígio daquela sujeira. O prazer momentâneo nunca era suficiente para saciar o buraco vazio dentro de mim, mas, pelo menos, me distraía por algumas horas. No dia seguinte, antes do sol nascer completamente, já estava onde deveria estar: na entrega do novo carregamento de armas. Não há espaço para erros nesse jogo, e eu não sou do tipo que baixa a guarda. No morro, a qualquer momento, pode ter um filho da p**a querendo tomar o que é meu, e eu não tenho paciência para isso. Quem tenta, morre. Simples assim. As caixas pesadas foram descarregadas de caminhões baús, e meus homens estavam atentos, conferindo cada item. Pistolas, fuzis, munição de ponta. O cheiro de ferro queimado e pólvora era como música para mim. — Tudo certo, chefe. — Coringa se aproximou, o rosto sério como sempre, enquanto ajustava a Glock na cintura. Assenti, pegando uma das armas para analisar. Equilíbrio perfeito, empunhadura firme. Um sorrisinho satisfeito surgiu no canto da minha boca. — Ótimo. Quero todas as bocas abastecidas até amanhã. No meu mundo, poder não vem de palavras bonitas ou discursos emocionados. Poder vem do ferro frio e da pólvora quente. Quem não entende isso, não sobrevive. — Gostou do carregamento, né? — Mendes perguntou, com um sorriso satisfeito no canto da boca. Levantei a sobrancelha, analisando o filho da p**a por um segundo antes de responder. — Gostei, c*****o. Se não tivesse gostado, não estaria levando tudo. — Respondi seco. Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. — Ótimo. Fico feliz por abastecer um dos melhores morros. Mantive a expressão neutra, sem dar trela para aquela bajulação barata. Fiz a transação do dinheiro, e ele apertou minha mão antes de dar meia-volta e sumir dali. Meus homens logo começaram a carregar as caixas para dentro do morro, garantindo que tudo fosse devidamente armazenado e distribuído. Fiquei ali por mais alguns minutos, observando o movimento. Alguns caras passavam apressados, indo direto para o trampo. Sabia que muitos não participava do crime, e preferiam trabalhar como escravos. Tem a opção do crime, é isso que o morro oferece. Mas o morro era assim. Quem entrava nesse jogo sabia bem o risco que corria. — Irmão? — Ouvi a voz de Barão atrás de mim, mas não me virei. — Em que tá pensando? — Ele insistiu. — Nada demais. — Murmurei, indo até minha moto. Já estava prestes a ligar o motor quando ele parou na minha frente, com a expressão fechada. — Tenho um bagulho pra te contar. — Dá o papo. — Falei sem paciência. Ele cruzou os braços antes de continuar: — Tá ligado na dona Maria? Aquela senhora que mora na rua abaixo da boca? Assenti. Sabia quem era. Velha conhecida do morro. — Então... Ela trouxe uma mina pra cá ontem de madrugada. Minha expressão se fechou na hora. — Perguntou quem era, não, p***a? Virou imprestável agora? — Perguntei. Mas ela não me respondeu. E, como é idosa, sabe que eu respeito. Soltei uma gargalhada debochada. — Tu é um cagão, isso sim. Ele fez uma careta, mas não retrucou. — Eu mesmo vou descobrir o que tá rolando. E, principalmente, porque caralhos essa velha trouxe alguém pro nosso território sem comunicar antes. Liguei a moto, sentindo o motor roncar sob minhas mãos. Alguma coisa me dizia que tinha treta por trás dessa história. E eu ia resolver. Do meu jeito. O motor da moto roncou alto enquanto eu cortava as vielas do morro, acelerando sem medo. O vento frio da manhã batia no meu rosto, mas eu gostava da sensação. Era como se, por alguns instantes, o peso do mundo se dissipasse, substituído pelo barulho do motor e o cheiro característico do asfalto misturado à poeira do morro. O Barão se segurava firme na minha garupa, atento ao caminho. Ainda era cedo, o sol apenas começava a surgir no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados. Mas eu não tinha tempo para contemplação. Precisava resolver essa parada logo. Chegando em frente à casa da dona Maria, reduzi a velocidade e estacionei. Antes mesmo de bater na porta, vi a cortina da janela se mover, e em poucos segundos, a senhora surgiu na soleira com aquele sorriso acolhedor que sempre me deixava inquieto. Eu nunca soube como lidar com carinho genuíno. — Bom dia, menino. — Sua voz era tranquila, contrastando com a tensão que eu carregava. — Bom dia, tia Maria. Eu vim aqui pra trocar uma ideia. — Minha voz saiu firme, sem rodeios. Ela abriu espaço para que eu entrasse, e Barão veio logo atrás. Assim que passamos, ela fechou a porta com calma e cruzou os braços, olhando para o meu irmão com um ar divertido. — Seu irmão tem uma língua de gente fofoqueira. — A forma como ela falou me fez segurar a risada, mas o Barão resmungou. — Ô tia, qual foi do bagulho? — Ele fez cara de indignado. — Tenho mó respeito pela senhora e por todas as senhoras da comunidade. — Calado. — Cortei antes que ele falasse mais besteira. Ele se endireitou ao meu lado, sem discutir. — Sentem-se. Querem um cafezinho? — Ela indicou a pequena mesa da sala, sua casa era humilde, mas tinha um calor familiar que poucos lugares tinham. — Vou aceitar o café. — Peguei a xícara que ela ofereceu, sentindo o cheiro forte do café fresco. — Mas o que eu quero mesmo é trocar uma ideia séria com a senhora. Ela assentiu e se sentou à nossa frente, pegando sua própria xícara. Seu olhar ficou mais pesado, como se soubesse exatamente o que eu ia perguntar. — Eu sei do que se trata. — Sua voz saiu calma, mas firme. — A Maisie é minha sobrinha. Soltei a xícara sobre a mesa, meu olhar imediatamente fixo nela. Barão cruzou os braços, tenso. — E por que ela tava naquele estado quando vi de madrugada? — Ele perguntou antes de mim. A senhora respirou fundo antes de responder. — Porque ela estava assustada. Saiu correndo de casa… O pai dela tentou violá-la. A última palavra dela caiu como uma bomba na sala. Minha visão escureceu por um segundo, e um nó de raiva subiu pelo meu peito. O sangue ferveu nas minhas veias. — Como é? — Minha voz saiu grave, carregada de fúria contida. Dona Maria suspirou, mas não desviou o olhar. — O que você ouviu, menino. Ela fugiu porque ele ia fazer o impensável. Ela não tinha pra onde ir, então eu a trouxe pra cá. Fechei a mão em um punho sobre a mesa, minha respiração ficou pesada. Eu podia sentir o olhar do Barão sobre mim, esperando minha reação. Essa merda não ia ficar assim. — Se tem uma coisa na miserável vida que eu levo, é o ódio mortal por predadores sexuais. Eu sou capaz de matar esfolado qualquer filho da p**a. — Minha voz saiu fria, carregada de um desprezo que fazia meu sangue ferver. Coloquei a xícara sobre a pequena mesa de centro, meus dedos ainda cerrados ao redor da porcelana. — Me dá o endereço desse desgraçado. Eu vou resolver isso. Ensinar a ele como é que um homem deve morrer depois de tentar violar a própria filha. A raiva pulsava dentro de mim, forte, sufocante. Eu já tinha feito muita coisa nessa vida, cometido muitos pecados, carregado muita morte nas costas. Mas uma coisa que eu nunca admiti e nunca admitiria era um verme desse tipo respirando no mesmo mundo que eu. — Não... por favor. A voz dela foi baixa, mas cortante o suficiente para me fazer congelar. Meu olhar se virou automaticamente para a dona daquela súplica, e o que eu vi me fez prender o ar por um segundo. Porra... A garota era um absurdo de linda. Baixinha, mas com um corpo que parecia esculpido. Os olhos azuis eram profundos, mas carregavam um peso enorme, uma dor que eu reconheci na hora. Os cabelos loiros caíam em ondas suaves ao redor do rosto delicado, mas nada na expressão dela era tranquilo. Ela estava destruída. Não só fisicamente, mas mentalmente. — c*****o! — Barão soltou um assobio baixo ao meu lado. — Qualquer um tentaria mesmo. Meu punho se fechou no mesmo instante, e antes que eu pudesse me conter, desci um soco forte na perna dele. — Fala merda de novo pra ver se eu não quebro tua cara. — Rosnei, e ele resmungou, massageando a perna. Dona Maria suspirou e olhou para a garota com um carinho que eu não via com frequência. — Minha menina, o que faz fora da cama? — A voz dela era pura preocupação, e foi só então que meus olhos desceram para os pés da garota. Meu maxilar travou. Os pés dela estavam feridos, cortados, como se tivesse corrido descalça por quilômetros sem se importar com o chão ou com a dor. — Vou cuidar dos seus pés. Vem cá. — Dona Maria abriu os braços, e a menina, agora com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto, não pensou duas vezes antes de se jogar neles. Ela chorava sem som, como se tentasse segurar tudo dentro de si, mas falhando miseravelmente. — Tia... — A voz dela quebrou no meio do choro, e alguma coisa dentro de mim se revirou de um jeito que eu não gostei. Engoli em seco, sentindo um incômodo diferente. Algo que não era só raiva. Algo que eu não queria nomear. — Leve-a para o postinho. Fala que eu mandei cuidarem dessa moça. — Me levantei, tirando a jaqueta e jogando sobre o sofá. Meu olhar se fixou em dona Maria. — E eu ainda quero o endereço para matar esse filho da p**a. Dona Maria suspirou, mas antes que ela abrisse a boca, a voz da garota preencheu o espaço de novo. — Moço, perdão... — Ela soluçava, ainda agarrada à senhora. — Eu não quero que você suje as mãos de sangue por minha causa... Barão riu baixo, cruzando os braços. — Tá falando isso pro cara errado, princesa. E ele não estava mentindo. Porque esse verme ia morrer de qualquer jeito, eu não vou descansar até matá-lo, mas antes eu vou torturar ele da pior forma, ele vai aprender como é que um pai de merda quer estuprar a própria filha. Isso não vai ficar assim, eu vou esfolar cada parte do corpo dele.
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