Desde pequena, minha vida tem sido uma sequência de provações. Nunca imaginei que viveria um inferno dentro da minha própria casa. Nunca pensei que as pessoas que deveriam me proteger de tudo e de todos fossem, na verdade, as mais cruéis. Lembro com clareza da minha infância. São memórias que nunca me deixam, assombrando minhas noites, transformando meu sono em um labirinto de pesadelos sufocantes. Eu não sei como me livrar desse tormento. Não sei como fugir das lembranças que me perseguem. Eu tinha sete, talvez oito anos, quando vi meu próprio pai matar minha mãe. Ela dormia. Estava indefesa. E ele... ele a assassinou sem hesitação. A cena está gravada em minha mente como uma cicatriz que nunca desaparece. Eu assisti a tudo, imóvel, apavorada, espiando pela fresta da porta. Minha respiração estava presa na garganta, meu coração batendo tão forte que eu temia que ele me ouvisse. Mas ele não me viu. Depois, tentei contar para algumas pessoas. Busquei ajuda, mas percebi que todas elas falavam com ele. E, toda vez que isso acontecia, ele me encarava com aquele olhar frio e me dizia que tudo era fruto da minha imaginação. Foi quando a minha sentença começou. Ele me proibiu de sair, de falar com qualquer pessoa. Meu mundo foi reduzido a quatro paredes e um silêncio esmagador. E assim foi por anos. Hoje, sou alguém que não confia em ninguém. Nem mesmo na lei. Porque eles nunca fizeram nada. Porque ninguém nunca fez nada. E agora... já é tarde demais. Minha mãe já estava morta.
Sufocada com aquele travesseiro enquanto dormia, sem a menor chance de lutar por sua vida. O brilho dos olhos dela se apagou naquela noite, e com ele, qualquer resquício de esperança que eu ainda pudesse ter. Não demorou muito para meu pai colocar outra mulher dentro de casa.
E essa mulher... essa mulher é tão c***l quanto ele.
Desde o primeiro dia, percebi a frieza em seus olhos, a maldade escondida por trás de seus sorrisos falsos. Mas eu sempre evitei contato. Mantive distância. Nunca olhei para ela por mais tempo do que o necessário.
Eu sobrevivo como posso, me esgueirando pelos cantos dessa casa maldita, fingindo não existir.
Até que uma voz que eu desprezo corta o silêncio do meu refúgio.
— Maisie? — Congelo no mesmo instante. Minha pele arrepia de repulsa, e meus punhos se cerram automaticamente. Eu reconheço essa voz. E odeio cada sílaba dela. — Você está surda, garota?! — Bianca grita, impaciente.
O som da sua voz me causa náuseas. Não há um único dia em que ela se dirija a mim sem segundas intenções.
— O que você quer? — minha voz sai seca, carregada de desgosto. Eu já sei que ela quer algo. Ela nunca fala comigo à toa.
Do outro lado da porta, escuto sua risada debochada.
— Perdeu até os modos de tanto viver trancada nesse quarto — provoca.
Sempre tranco a porta. Sempre.
Se eu pudesse, trancaria a casa inteira para nunca mais precisar vê-los.
— Fala logo o que você quer — corto o assunto, sentindo um arrepio de asco só de imaginar o que essa mulher pode estar planejando.
— Seu pai vai trazer uma visita hoje — sua voz soa satisfeita. Claro que vai. — Ele pediu que você se arrumasse, fosse educada e comparecesse ao jantar. São sua família.
Minha família.
A ironia quase me faz rir. Engulo em seco, mantendo a expressão vazia.
— Certo — murmuro apenas.
E, sem mais uma palavra, ela finalmente me deixa em paz. Por enquanto.
Passei o resto do dia imersa nos livros, aqueles mesmos que já estavam desgastados pelo tempo e pelo uso excessivo.
Nunca tive o direito de ir à escola depois de tudo que aconteceu. Nunca soube o que era sentar em uma sala de aula e aprender como qualquer outra criança, porque tudo foi rápido demais para acontecer. Mas me recusei a ser ignorante. Me esforcei o quanto pude para aprender sozinha, devorando cada página, absorvendo cada palavra, porque sabia que, se não fizesse isso, acabaria me tornando um nada. E eu não queria ser um nada. Dou graças a Deus por minha mãe ter enchido meu quarto com livros antes de morrer. Foi o único presente verdadeiro que recebi dela, a única coisa boa que me restou nesse inferno.
Nunca trabalhei. Nunca sequer tive a chance de experimentar a sensação de liberdade. Vivo presa, mantida entre essas quatro paredes porque meu pai tem medo. Medo de que eu fale algo. Então, ele me sufoca. Me prende.
E acha que isso é o suficiente para me silenciar. A noite finalmente chega, e com ela, a ironia da situação se torna ainda mais evidente. Hoje, mais uma vez, preciso fingir. Fingir que sou alguém normal, que essa casa é um lar, que essas pessoas não são monstros.
Assim como fiz da última vez. Visto um vestido simples, abaixo do joelho, porque sei que qualquer coisa diferente poderia ser um problema. Meu comportamento precisa ser impecável. Meu olhar precisa ser baixo. Minha postura, submissa.
Ninguém pode se aproximar demais.
O medo me consome ao ponto de me paralisar, mas eu já aprendi a engolir isso. Quando finalmente estou pronta, vou até a porta do quarto e a abro, encontrando Bianca saindo do quarto dela. Ela divide o quarto com meu pai. Para todos os efeitos, são casados. Para mim, são apenas dois vermes.
Ela me olha de cima a baixo, aquele sorriso debochado nos lábios.
— Comporte-se. — a palavra sai carregada de escárnio. Não respondo.
Apenas a ignoro e sigo logo atrás dela, sentindo meu coração acelerar. Cada passo que dou escada abaixo me pesa, como se estivesse marchando direto para um pesadelo do qual não posso acordar. Assim que chego ao andar de baixo, meu olhar encontra duas figuras familiares. O irmão do meu pai. E o filho dele.
— Boa noite. — meu tio diz, ao me ver.
— Boa noite, tio. — respondo, forçando um tom educado.
— Que bom vê-la. Quase nunca nos encontramos. — ele continua, analisando-me como se quisesse ter certeza de que estou "bem". Bem. Que piada.
— Bom vê-los também. — sorrio de forma ensaiada, tentando parecer simpática quando, na verdade, só quero que essa noite termine logo.
Então, Thiago, meu primo, abre a boca:
— Prima, você está mais bonita.
Não sei por que, mas seu elogio me causa um leve desconforto. Sorrio de maneira breve.
— Obrigada, primo.
Tudo em mim grita para sair dali. Mas eu preciso fingir um pouco mais. Afinal, essa é a única coisa que aprendi a fazer direito.
— O jantar está pronto, querido. — Bianca falou, com aquele tom ridículo que me dava náuseas. Eu e meu pai quase não trocamos palavras. Eu me mantenho distante dele, evito qualquer tipo de contato, até mesmo o mais superficial.
Notei que Bianca trocava olhares com meu tio enquanto meu pai ignorava completamente a situação. Eles estavam jogando seu jogo sujo, e eu não queria fazer parte disso.
— Vamos jantar. — disse meu pai, com a voz monótona, sem sequer tentar parecer interessado. Todos nos dirigimos para a sala de jantar, e como sempre, eu me sento no final da mesa, o mais distante possível. Eu nunca gostei de aproximações forçadas ou de conversas vazias.
— Por que você sempre se afasta, querida? — Ele perguntou, tentando me atrair para o seu olhar. Mas sua voz me repulsava, e a ideia de olhá-lo fazia meu estômago revirar.
— Deixe-a, querido, sabe que ela gosta de ficar assim. — Bianca disse, tocando o braço do meu pai e sentando-se ao lado dele, como uma cobra disfarçada de mulher.
— Tio, só vim acompanhar meu pai hoje porque tenho um aniversário para ir, aqui perto. Então consegui vir junto com ele. — Thiago comentou, enquanto tentava manter uma conversa qualquer com meu pai.
Eu não conseguia me concentrar nas palavras deles. O que estava acontecendo na sala parecia irrelevante. Bianca e meu pai continuavam em seu jogo de falsidade, como sempre. Eu me sentia sufocada. O jantar era um pesadelo disfarçado de refeição. Finalmente, Thiago se foi, e a casa parecia mais silenciosa. Só restavam os quatro de sempre. Então, Bianca se levantou, dizendo que precisava ir ao quarto pegar um presente que ela e meu pai haviam comprado para o tio. Mas eu sabia que era mentira. Algo ali não fazia sentido, e o meu instinto me dizia que ela estava tentando me manipular mais uma vez. Quando eu me preparei para me levantar e ir para o meu quarto, vi meu tio se levantando também, dizendo que iria ao banheiro. Eles estavam saindo, e isso me deixava ainda mais desconfortável. A casa já estava sufocante o suficiente sem a presença deles.
Subi as escadas rapidamente, tentando fugir dessa falsa normalidade, mas assim que cheguei ao topo da escada, escutei um gemido abafado, vindo do quarto do meu pai. O som da porta se mexendo me fez parar no lugar.
— Maisie! — A voz do meu pai ecoou pela casa. Ele estava parado no primeiro degrau da escada. Sua presença, como sempre, me fez gelar. — Podemos conversar?
Aquelas palavras caíram sobre mim como uma pedra. Minha mente tentou processá-las, mas tudo o que eu queria era correr para o meu quarto e trancar a porta. Mas sabia que não poderia. Eu precisava fingir que ainda existia alguma humanidade nesse homem.
— Claro. — Mesmo sabendo que não era uma boa ideia, não gostava de ficar perto dele, e muito menos sozinha. Mas, antes de voltar para a sala, ouvi uma risada abafada e gemidos. Algo estava acontecendo naquele quarto e não parecia ser nada digno. Desci até a sala, e quando me aproximei, meu pai me observou de cima a baixo com um olhar que eu não suportava.
— Sente-se, por favor. — Ele apontou para o sofá, e eu obedeci, tentando manter minha calma.
— O que houve? — perguntei, ansiosa para entender o que ele queria.
— Tenho algumas coisas para falar. — Ele disse, e a forma como começou a andar lentamente pela sala, de um lado para o outro, me deixou desconfortável.
— Estou ouvindo. — Respondi, com a voz firme, mas meu corpo já tremia por dentro.
— Como você deve ter percebido, Bianca e eu gostamos de... coisas exóticas. — Ele começou, e o nó na minha garganta se apertou. — Ela gosta de t*****r com outros homens, e eu gosto de estar com outras mulheres. Isso é algo comum entre nós. — Ele sorriu, como se estivesse orgulhoso disso. — Hoje, ela queria se entregar ao meu irmão, e claro, isso não é segredo. Eu sei que eles fazem isso há muito tempo, e com outros também. — Suas palavras eram como facadas. A raiva e o nojo começaram a me consumir.
— Eu não quero saber nada da sua vida com ela. — Eu disse, sem rodeios. Levantei-me para sair dali, mas antes que eu pudesse dar um passo, ele agarrou meu braço com força.
— O que está fazendo? — Perguntei, nervosa, tentando me livrar dele.
— Eu falei para a Bianca que ia sair atrás de outra mulher enquanto ela estava com o meu irmão... mas não falei quem seria. — Ele disse, e um arrepio estranho percorreu meu corpo. — Hoje, eu quero f***r você. — Suas palavras me cortaram por dentro, e eu senti o estômago se revirando.
— Você ficou louco? Qual é o seu problema? — Perguntei, o medo começando a transbordar. Mas ele foi rápido, me empurrando contra o sofá.
Ele começou a tentar me violar, e eu me debatia com todas as forças que ainda tinha. Mas ele tampou minha boca com a mão para que eu não gritasse. Cada movimento dele me fazia sentir que seria o fim. A cada tentativa de me libertar, ele me beijava de forma grotesca, e aquilo me dava ânsias, empurrei ele várias vezes, mas nada o fazia sair de cima de mim, só então ouvir o barulho do zíper da sua calça se abrindo, aquilo me deixou em pânico. Eu precisava sair dali. Olhei ao redor, desesperada, até que vi o abajur ao meu lado. Com toda a minha força fui tentando alcançar o abajur, até que finalmente alcancei o objeto e, com ele, golpeei sua cabeça duas vezes. Ele desmaiou imediatamente, e eu, tomada pela adrenalina e pela dor, consegui empurrá-lo para longe de mim. As lágrimas corriam pelo meu rosto, mas o medo de ficar ali me impulsionou a agir. Eu corri até a porta e a abri, saindo daquela casa apavorante. A cidade ao redor parecia gigantesca, e eu estava perdida, sem saber para onde ir. O medo me consumia, as cenas na minha mente se repetiam como um pesadelo. Eu corri sem parar, sem olhar para trás. As lágrimas não cessavam, e a dor nos meus pés, que estavam cobertos de bolhas e sangrando, parecia um reflexo de toda a dor emocional que eu carregava.
Quando pensei que não aguentaria mais, uma senhora apareceu na minha frente. Ao me ver, ela parou, horrorizada com o estado em que eu me encontrava.