Ruby
O cheiro de sangue e podridão impregnava o ar enquanto eu saltava para longe das garras afiadas do monstro que se atirava sobre mim. As criaturas do Purgatório eram sempre horrendas, mas essas pareciam saídas de um pesadelo ainda pior do que o normal. Gigantescas, com olhos vazios e corpos deformados, suas garras gotejavam um líquido n***o que derretia o solo onde pingava.
Agarrei firme minha katana, ignorando a dor no braço causada por um golpe m*l calculado. O monstro que me feriu rugiu, sua boca cheia de presas se abrindo para me atacar novamente. Rolei para o lado, levantando meu arco e disparando uma flecha diretamente em um de seus olhos ocos. Ele soltou um grito agonizante, se debatendo, enquanto eu aproveitava a chance para cortar sua perna.
Um segundo monstro investiu contra mim, sua massa corpulenta esmagando o chão sob seu peso. Saltei sobre ele, cravando a espada em sua espinha. Ele rugiu, tentando me agarrar, mas fui mais rápida, retirando a lâmina e descendo em um giro rápido, golpeando sua garganta.
Pensei que estava indo bem. Até que senti uma dor lancinante atravessar meu corpo.
Olhei para baixo e vi as garras do terceiro monstro atravessando meu abdômen. Um choque percorreu minha espinha e minha visão escureceu por um momento. Meu corpo cedeu, mas antes que eu pudesse tocar o solo, algo estranho aconteceu.
Uma aura alaranjada brilhou ao meu redor.
O monstro recuou, soltando-me como se tivesse sido queimado. Pisquei, atordoada, enquanto ele se desfazia diante dos meus olhos. Não apenas ele, mas também as árvores, a vegetação e o solo ao redor de onde eu estava. Tudo estava sendo consumido e desintegrado, como se meu próprio ser estivesse apagando a existência ao meu redor.
Minha cabeça latejou e meus olhos arderam como se estivessem pegando fogo. Meu corpo tremia, uma sensação de calor insuportável percorria cada fibra do meu ser. Eu tentei dar um passo, mas tudo ao meu redor girou e então...
Escuridão.
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Acordei em meu quarto, piscando para afastar a confusão. Minha cabeça ainda doía, e um cansaço absurdo pesava sobre meus membros. Como cheguei aqui?
Levantei-me devagar, notando que minhas roupas estavam limpas e que não havia sinal do ferimento que o monstro havia me causado. O que aconteceu? A última coisa que me lembrava era daquela aura estranha e de perder a consciência...
Olhei ao redor e vi algo sobre minha escrivaninha. Uma carta.
Peguei-a com uma sobrancelha arqueada. O selo era desconhecido para mim, e a caligrafia, firme e elegante. Meu coração acelerou enquanto eu a abria.
"Ruby,
Você precisa aprender a controlar esse poder antes que ele te consuma. E, acima de tudo, não conte a ninguém sobre ele. Existem olhos que observam, e se souberem o que você é capaz de fazer, estará em grande perigo.
Tome mais cuidado. Considere isso um favor, e um dia, quando estiver pronta, eu o cobrarei.
Lysander."
Fiquei olhando para a assinatura. Lysander. Quem diabos era esse?
Bufei, jogando a carta de volta na mesa. Eu não tinha paciência para enigmas. Algum dia ele viria cobrar esse "favor"? E que história era essa de perigo? Sim, o que aconteceu foi estranho, mas não parecia tão ameaçador assim.
Revirei os olhos e me joguei na cama. Mais um mistério para lidar. Como se eu já não tivesse problemas suficientes.
Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que essa história estava apenas começando.
***†*******
Cris
A eternidade me ensinou a observar sem interferir. Mas nunca pensei que isso seria tão doloroso quando se tratava dela.
Do alto de um penhasco no Purgatório, meus olhos acompanharam cada movimento de Ruby enquanto ela enfrentava os monstros. Seus golpes eram fortes, certeiros, sua determinação era inabalável. Ela era minha filha. Minha carne e meu sangue. Mas ela não sabia disso. E eu nunca poderia lhe contar.
Quando seu poder despertou, uma aura alaranjada explodiu ao seu redor, consumindo tudo. Vi as criaturas desaparecerem, a vegetação se desfazer. Meu coração apertou. Isso não devia estar acontecendo agora. Ela ainda não estava pronta.
Quando ela caiu, inconsciente, um homem de cabelos loiros surgiu das sombras. Lysander. Eu o conhecia, mas ele era um enigma. Ele se aproximou, pegando-a no colo com cuidado. Eu sabia que ele não a machucaria, mas não gostei de vê-lo ali. Mesmo assim, permaneci onde estava. Se eu aparecesse, colocaria tudo a perder.
Esse Lysander tinha vindo atrás de mim querendo saber de Ruby, fiquei sem entender como ele sabia da existência dela, e como descobriu que era minha filha, ainda mais que tinha o poder de matar Deuses, algo que na época eu não sabia que tinha herdado de Dragomir.
Fiquei perplexa e sem saber o que fazer, já que esse homem poderia ser um problema, já que parece precisar dela para algo que não entendo.
Foi convidado a ficar em Ravania pelos outros Deuses, mas ninguém sabe de onde esse homem veio, apenas que é forte. Quero saber o que quer da minha filha, pois se for um problema para ela terei que arrumar uma forma de mata-lo.
Ruby acordaria em seu quarto, segura. E a carta? Sim, eu sabia que Lysander a deixaria. Ele gosta de enigmas.
Um suspiro escapou dos meus lábios. Olhei para o lado, onde Raven estava, observando tudo em silêncio. Ele sempre me acompanhava. Sempre ao meu lado. Seu olhar sombrio carregava preocupação.
— Você não pode protegê-la para sempre, Cris — sua voz era baixa, mas firme.
— Eu sei — respondi, apertando os punhos. — Mas posso tentar.
Raven suspirou, aproximando-se e segurando minha mão. Seu toque era frio, mas reconfortante.
— Se descobrirem sobre Ruby...
— Eles nunca vão descobrir — interrompi, minha voz carregada de determinação. — Eu a escondi por um motivo. Deixei que minha mãe a criasse, para que ninguém suspeitasse. Para que ela tivesse uma vida segura.
Raven assentiu, mas seus olhos ainda carregavam dúvidas.
— E se ela precisar de você?
Olhei para o céu escuro do Purgatório. Eu queria tanto estar ao lado dela. Mas se Ruby soubesse a verdade, correria perigo. Era um risco que eu não podia correr.
— Ela já precisa. Mas o melhor que posso fazer é protegê-la das sombras.
Raven apertou minha mão e sorriu de leve.
— Então eu protejo você.
Me permiti um sorriso curto antes de voltar meu olhar para Ruby, que agora dormia em seu quarto, inconsciente da verdade. Ela não sabia quem eu era. Mas eu sempre estaria ali. Sempre.
Mesmo que ela nunca soubesse.