Ruby
Chegar ao Inferno sempre tem um certo impacto. Não importa quantas vezes eu venha aqui, a sensação de calor e a imponência do castelo de minha tia Scarlett sempre me impressionam.
Hoje é um dia especial. Ela me chamou para o aniversário de seu enteado, Vayron, e como sou uma pessoa educada, aceitei o convite. Além disso, uma festa infernal sempre é interessante.
Ao entrar no salão principal, sou recebida pelo brilho de lustres enormes e uma decoração luxuosa. As paredes têm detalhes dourados e negros, e uma enorme mesa com um banquete extravagante está no centro.
Vários demônios de alto escalão circulam pelo local, conversando e rindo. O Música infernal
É uma mistura de batidas pesadas e melodias estranhas, ecoa pelo salão.
Vou pegando uma taça com uma bebida desconhecida quando percebo um olhar sobre mim. Ao virar a cabeça, vejo Orion, o pilar que me venceu no torneio. Ele está encostado em uma das colunas, os braços cruzados e um sorriso no rosto. Sério quando luta, mas aparentemente mais descontraído em momentos de festa.
— Não esperava te ver aqui, Ruby — ele diz, se aproximando. — Já superou a derrota?
— Hah! Eu chamo de aprendizado — retruco, bebendo um gole da minha taça. — Além disso, a festa não é minha, é do Vayron.
— Isso é verdade. Mas é engraçado te ver sem estar tentando me cortar ao meio.
— Cuidado com o que deseja. Eu posso muito bem desafiar você de novo.
Ele ri, e pela primeira vez percebo que Orion, apesar de me dar uma surra, não parece do tipo arrogante. Na verdade, tem um jeito divertido.
— Se quiser ser derrotada de novo, estou sempre à disposição — ele brinca.
— Da próxima vez, não será tão fácil para você — digo, estreitando os olhos.
— Espero que não. Gostei da sua luta, Ruby. Você tem garra.
Sinto meu ego inflar um pouco, mas antes que possa responder, percebo Vayron no centro do salão, sendo cumprimentado por vários convidados. Me despeço de Orion e caminho até ele.
— Feliz aniversário, Vayron — digo, sorrindo.
Vayron, um jovem de aparência real e olhar perspicaz, sorri de volta. Ele veste um traje elegante, combinando com o evento, e segura uma taça de vinho infernal.
— Ruby, que bom que veio. Não sabia se aceitaria o convite.
— Claro que aceitei. Não é todo dia que sou convidada para uma festa infernal desse nível.
Ele ri e começamos a conversar. Descubro que Vayron tem um ótimo senso de humor e uma mente afiada para estratégias. Ele me conta sobre algumas lutas que teve recentemente, e eu compartilho algumas das minhas experiências no Purgatório. No meio da conversa, Scarlett se aproxima, um sorriso misterioso no rosto.
— Como está a conversa entre vocês dois? — ela pergunta, pegando uma taça de vinho.
— Muito boa, tia. Vayron tem histórias interessantes. — Sorrio, sem notar o olhar significativo que ela lança para mim.
— Claro que tem. Ele é um jovem brilhante, forte e… bem, um excelente partido.
— Hã? — Pisquei, confusa.
Vayron solta um suspiro e revira os olhos de leve, está desconfortável pelo que Scarlett disse.
—Ruby não está pegando a dica?— pergunta minha Tia me olhando, mas ainda não entendi.
— Que dica? — pergunto, completamente alheia.
Scarlett me encara por alguns segundos e depois suspira, murmurando algo sobre eu ser inacreditável.
— Nada, querida. Só estou feliz que vocês estejam se dando bem.
Vayron sorri de canto, parecendo se divertir com a minha confusão. Continuamos conversando, enquanto Scarlett nos observa com um olhar divertido. Seja lá o que for que ela estava insinuando, não consegui entender.
******
Ainda na festa, minha mente estava inquieta. Entre um gole e outro de vinho, meus olhos vagavam pelo salão cheio de convidados. Mas foi quando olhei para os jardins que notei uma figura solitária, recostada contra uma das colunas de pedra. Orion. Ele parecia tão tranquilo ali, afastado de toda a movimentação, que minha curiosidade falou mais alto.
Sem pensar muito, segui em direção ao jardim, sentindo o vento noturno soprar contra minha pele. Quando me aproximei, ele ergueu os olhos para mim e sorriu de canto, como se já esperasse que eu fosse até ele.
— O que faz aqui sozinho? — perguntei, cruzando os braços e inclinando levemente a cabeça.
— Fugindo um pouco da confusão — ele respondeu com um tom leve. — Festas são divertidas, mas às vezes prefiro um pouco de paz. E você? Por que veio?
— Curiosidade, eu acho. — Dei de ombros. — Você não parece do tipo que evita uma boa conversa.
— Depende da companhia. — Ele arqueou uma sobrancelha e deu um meio sorriso. — E, pelo visto, a minha não te incomoda, já que veio até aqui.
Ri, sentindo uma faísca de algo interessante surgir entre nós. Me encostei na coluna ao lado dele, observando a lua alta no céu.
— Ainda não me acostumei a perder — soltei, de repente.
Ele virou o rosto para mim, parecendo se divertir com minha confissão.
— Achei que você já tivesse superado.
Bufei, cruzando os braços.
— Eu queria ter vencido.
Orion riu, balançando a cabeça.
— Você luta bem, Ruby. Foi uma das adversárias mais difíceis que já enfrentei.
Senti um calor subir pelo meu peito, mas mantive minha expressão séria.
— Isso é um elogio?
— Pode considerar como quiser — ele respondeu, dando um passo à frente, reduzindo um pouco a distância entre nós. — Mas se quiser revanche um dia, estou disposto.
— Cuidado com o que deseja, posso te surpreender da próxima vez. — Sorri de lado, gostando do desafio.
— Espero que sim. Admiro pessoas que melhoram com as derrotas em vez de se lamentarem por elas. E você parece ser esse tipo. — A forma como ele me olhava fez algo em mim se remexer. Não era apenas um elogio, era um reconhecimento genuíno.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, apenas sentindo a brisa noturna e o som abafado da música vindo do salão. Não era um silêncio desconfortável, pelo contrário, era carregado de algo novo, algo que eu não sabia muito bem como nomear.
— Então, Ruby, além de lutas, o que mais te interessa? — ele perguntou, inclinando a cabeça levemente.
Pisquei, surpresa pela pergunta. Poucas pessoas realmente se importavam com isso.
— Hm... Viajar, treinar, explorar outras dimensões. Gosto de me desafiar. E você? O que um pilar do inferno faz além de derrotar oponentes?
Ele riu baixo, cruzando os braços.
— Gosto de coisas simples. Treinar, beber com os amigos, e... bem, gosto de boas conversas como essa.
— Então, vou considerar isso um elogio também.
— Considere. — Ele sorriu, e por um momento, senti que havia algo diferente nele. Não era apenas um guerreiro habilidoso, mas alguém que valia a pena conhecer melhor.
O tempo passou rápido, e quando percebi, a festa dentro do castelo já estava diminuindo o ritmo. Orion olhou para a porta do salão e depois para mim.
— Parece que logo teremos que voltar — comentou.
— É... Mas podemos continuar essa conversa em outra ocasião. Quem sabe em uma revanche? — provoquei.
Ele sorriu de canto, os olhos verdes brilhando com interesse.
— Estou contando com isso.