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1265 Words
Filipa Graças a Deus acabou o horário de expediente da v.a.g.a.b.u.n.d@ aqui. Vim andando até o ponto de ônibus com uma colega minha, e ela ficou rindo da dona Vera. Só que o problema foi quando a gente chegou no ponto de ônibus. A gente tava em pé, e a dona Vera, com outras quatro mulheres que eram bem mais novas do que ela, me encarou durante alguns segundos. Eu já dei dois passos pra trás, porque eu sou escaldada, nascida e criada no Rio de Janeiro, já sabia que isso não era boa coisa. Vera: É essa ali, a v.a.g.a.b.u.n.d@ que quer roubar o meu marido de mim! Podem bater! Filipa: Que isso, dona Vera? Não é bem assim que as coisas funcionam. Eu não quero roubar o seu marido, o p.a.u dele nem saber mais. Pelo amor de Deus, eu acabei de sair do trabalho, um dia cansativo, só quero pegar meu ônibus lotado, com gente fedendo a gambá, pra poder ir pra minha casa. Eu falei, mas não adiantou. As mulheres pegaram madeiras na mão e começaram a vir na minha direção, e eu, que não sou boba nem nada, saí correndo. A minha colega de trabalho começou a gritar por ajuda e eu comecei a correr. Elas vieram correndo atrás de mim, mas não conseguiram me alcançar, porque eu entrei em um beco. Fiquei ali durante alguns minutos, com o coração batendo igual tambor de escola de samba, e depois fui olhando pra ter certeza de que não tinha mais nenhuma maluca atrás de mim. Em uma eu bato, agora em todas é difícil. Chamei um Uber e, graças a Deus, ele me deixou na portinha da minha casa. Entrei tranquila, mas quando dei de cara com a minha mãe sentada no sofá, com um pano sujo de sangue na mão, eu já comecei a me tremer todinha. Meu coração afundou na hora e eu encarei ela. Filipa: Como foi na consulta? Me diz, pelo amor de Deus, que a médica te deu uma solução… Fernanda: Deu, meu amor… mas não é das melhores. Ela disse que eu tenho que fazer uma operação, e que essa operação pode ser de 30 a 80 mil. Ela disse que eu até consigo fazer pelo SUS, mas que está demorando bastante… também disse que eu não tenho esse tempo todo. Os meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu fiz a forte, porque eu não podia chorar na frente da minha mãe. Eu choro no chuveiro, eu choro no meu travesseiro, mas não na frente dela. Filipa: Eu vou dar um jeito. Fernanda: Meu amor, escuta… você já está trabalhando demais, você está exausta, e mesmo juntando o dinheiro que você ganha com o auxílio-doença não vai dar esse valor todo. Você é muito nova, você tem que seguir a sua vida… e tá tudo bem. Filipa: Eu só tenho você… eu não posso te perder — falei, e comecei a chorar. Ela me abraçou com força, sem falar nada, e eu desabei ali mesmo. Fernanda: Eu sei que somos só nós duas… só que, se você continuar nesse ritmo, daqui a pouco quem vai estar doente é você. Eu amo muito você e quero que você seja muito feliz. Se eu morrer, você tem que me prometer que vai fazer o possível pra ser feliz… você é uma ótima filha. Filipa: Eu não posso te perder… Quando eu falei isso, ela começou a tossir muito sangue. Eu comecei a gritar que nem uma desesperada, e foi aí que uma amiga dela, nossa vizinha, veio correndo junto com o marido. Eles colocaram ela no carro e trouxeram a gente pro hospital. Eu fiquei sentada do lado de fora, chorando. Eu nem sei quanto tempo eu fiquei ali sentada naquela cadeira dura do hospital. Pra mim parecia horas, mas ao mesmo tempo parecia que o tempo nem estava passando. Eu só conseguia olhar pra porta por onde levaram a minha mãe e rezar baixinho, pedindo pra Deus não levar ela de mim. Minhas mãos estavam geladas, tremendo, e o meu coração parecia que ia sair pela boca a qualquer momento. Foi quando a porta abriu. Uma médica saiu de dentro, tirando a máscara devagar, com aquele olhar sério que, só de bater no meu, já fez o meu estômago afundar. Eu levantei na hora, quase tropeçando nos próprios pés. Filipa: Doutora… minha mãe… como ela tá? A médica respirou fundo antes de falar, como se estivesse escolhendo as palavras. Médica: Ela está estabilizada por agora… mas o quadro é grave. Senti meu corpo gelar inteiro. Filipa: Grave como? Médica: Sua mãe está com uma úlcera gástrica em estado avançado. Essa ferida no estômago já estava lá há algum tempo e acabou evoluindo para um sangramento interno. Eu levei a mão na boca na mesma hora. Filipa: O sangue… que ela tava tossindo… Médica: Não é tosse… é sangue do estômago que acabou voltando. Isso é um sinal de hemorragia digestiva, e é muito sério. Minhas pernas ficaram fracas. Eu precisei me apoiar na parede. Filipa: Mas… tem cura, né? Tem o que fazer? A médica assentiu, mas o olhar dela não ficou mais leve. Médica: Tem… mas precisa ser feito com urgência. Meu coração disparou ainda mais. Filipa: Urgência quanto? Médica: O ideal seria operar o mais rápido possível. Eu diria que, no máximo, em uma semana… sendo bem realista. Se esse sangramento voltar com mais intensidade, ela pode não resistir. Foi como levar um soco no peito. Filipa: Uma semana…? Minha voz saiu falha. Filipa: Doutora… e… a cirurgia? Médica: É uma cirurgia para conter o sangramento e tratar a úlcera. Em alguns casos, a gente precisa retirar a parte do estômago que está mais comprometida. Não é uma cirurgia simples, mas é necessária. Eu engoli seco. Filipa: E… o valor? A médica me olhou com mais cuidado dessa vez, como se soubesse que aquilo ia pesar. Médica: No particular, incluindo hospital, equipe médica, centro cirúrgico e possíveis dias de internação… o custo pode variar entre trinta a oitenta mil reais. Meu mundo parou ali. Trinta a oitenta mil. Eu dei um passo pra trás, tentando processar aquilo. Filipa: Eu… eu não tenho esse dinheiro… Minha voz saiu praticamente em um sussurro. Médica: Existe a opção do SUS, sim… mas, como eu te falei, o quadro dela é urgente. A fila pode demorar mais do que o tempo que ela tem. As lágrimas começaram a cair sem eu conseguir segurar. Filipa: E… se não operar? A médica não desviou o olhar. Médica: O risco de um novo sangramento é muito alto… e, numa próxima vez, pode ser fatal. Aquilo acabou comigo. Passei as mãos no rosto, tentando limpar as lágrimas, mas era inútil. A sensação era de estar presa num buraco fundo, sem escada, sem saída. Filipa: O que eu faço…? A médica se aproximou um pouco mais, com a voz mais calma. Médica: Agora, o mais importante é manter ela estável. Nós vamos segurar o quadro com medicação e observação… mas isso é temporário. Você precisa decidir o quanto antes como vai seguir com a cirurgia. Eu só conseguia balançar a cabeça, sem conseguir falar nada. Médica: Eu vou deixar todos os exames e o relatório preparados. Se você conseguir o valor ou encaminhamento rápido, a gente já consegue agilizar tudo. Ela colocou a mão no meu ombro por um segundo. Médica: Seja rápida, Filipa… no caso da sua mãe, tempo faz toda a diferença. Ela saiu. E eu fiquei ali. Sozinha… com o coração em pedaços… e um prazo correndo contra mim.
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