— Caçador, não entendo uma coisa... Estamos praticamente mortos, ou seja, em espírito, ou desencarnado, ou sei lá... Porque sentimos dor quando levamos "pancada" no mundo espiritual?
— O perispírito, que é o envoltório da alma, é uma cópia do seu corpo terrestre. Você não vê que muitos acidentados apresentam os ferimentos de quando ainda estavam vivos? Depois da morte demora ainda um certo tempo para "cair a ficha". Espíritos ainda comem, bebem e fazem uma porção de coisas que faziam quando vivos, como já te disse antes. Apenas espíritos muito elevados não possuem mais as mesmas necessidades que nós.
— Aff! Antes eu pensava que depois da morte nossa alma se elevasse aos céus. Depois que conheci todo aquele lance de reencarnação, pensei que fosse um ciclo infinito. Agora tem essa ainda. Que complicação! – resmungou Eduardo.
— Ha ha ha! Os mentores nem sempre são seres evoluídos ainda. Por muitas vezes são espíritos como eu e você, mas com uma missão e já com um certo nível de entendimento de índole. E desde quando você acha que ficar trocando "p*****a" com espíritos malignos é coisa de ser evoluído? Só me deram essa "vaguinha" aqui por causa da nossa sintonia e dessa minha habilidade especial de lidar com os chamados barra-pesadas. Além do mais, eu fui o primeiro espírito que você viu. Ainda temos muito que evoluir, espíritos crísticos como Jesus não necessitam nem de relar nos espíritos malévolos para expulsá-los ou evitar que estes façam o m*l. Apenas irradiando sua aura de luz e bondade, já seria um poder equivalente ao daqueles famosos ataques de energia espiritual que tanto assistimos em desenhos animados j*******s.
— Mas e aí? Se você pode machucar um espírito, pode matá-lo também?
— m***r não. O perispírito é como se fosse uma roupa. A vestimenta da alma. Sua alma é imortal. A roupa ficará rasgada, destruída, desgastada, quase que irreconhecível, mas o espírito estará ali dentro, intacto. O problema é que quando o perispírito está muito lesionado, demora muito, mas muito tempo mesmo para ser reparado. É triste e bem impactante ver uma cena dessas. Uma vez resgatamos um espírito em estado lamentável. O que já foi um homem, um ser humano, não passava de uma espécie de geleia no chão. O procedimento para curá-lo fora extremamente complexo. Não apenas através das casas de cura, tiveram que recorrer às reencarnações emergenciais. Na Terra, sempre ouvimos falar de tristes histórias onde as mães perdem seus filhos ainda no ventre, ou logo quando nascem. Alguns questionam a infinita sabedoria e bondade de Deus nestes casos. Contudo isto nada mais é do que um procedimento emergencial de cura para essas pobres almas necessitadas que já haviam perdido um formato para um corpo humano. Elas precisam renascer como homens, para assim retornarem a serem homens, entende? Como se fosse um procedimento médico para cicatrizar um ferimento difícil de ser curado.
— Caramba! Acho que você causou um "câimbra" no meu cérebro! – respondeu Eddie.
— Não esquenta! Você ainda tem muito que aprender! Você pode achar que obteve sucesso em sua empreitada ao encontrarmos o Exú naquela balada, entretanto, se não fosse o fato de você ter iniciado aquela briga, poderíamos ter evitado tal encontro. Foi um combate arriscado. Tenho que retornar agora. Amanhã continuaremos com nossas atividades e treinamentos normais.
Espíritos também dormem segundo o Caçador. Naquela noite, Eddie teve um sono pesado, verdadeiramente restaurador, mas com um sonho muito intrigante e que já tivera no decorrer de sua vida. Ao acordar, lembrou-se que teve um período de sua última encarnação, antes da atual, onde costumava sonhar bastante como agora, com sonhos recorrentes. Aliás, sempre há um período em nossas vidas onde sonhamos muito. Depois o ritmo de sonhos diminui, depois volta a crescer, como uma mola que se dilata e se contrai. Bem, como já fora comprovado cientificamente e Eduardo sabia bem, sempre sonhamos, todas as noites, sem exceção. O que muda é o fato de lembrar ou não destes sonhos. No início, era bastante agradável lembrar deles, e foi justamente logo depois que o jovem iniciou seus estudos no espiritismo, que explicaram que os sonhos nada mais eram do que o desprendimento da alma do corpo. Uma espécie de livre indulto permitido para que a alma possa sair por aí e se lembrar de como é a liberdade do mundo dos espíritos. Ao tomar conhecimento destes fatos, ele foi tomado por um certo medo em decorrência da realidade e o tamanho vulto e proporção que os sonhos tomavam.
No sonho, ele encontrou com o mestre dos mestres em pessoa, o regente de nossa galáxia: o Senhor Jesus Cristo. Sabia que era muita presunção de sua parte achar que um espírito daquele calibre conversaria com ele assim, sem mais nem menos. Afinal de contas, a simples presença dele, um espírito com uma luz que irradia um calor equivalente ao de dez mil sóis, acabaria com qualquer um inferior no mesmo instante que entrasse em contato. Entretanto, Eduardo gostava de pensar que se não foi um mensageiro direto dele, que ele mesmo poderia ter vindo falar consigo. Além do mais, Ele possui poder para fazer o que quiser, até mesmo reduzir sua luz por um breve momento para conversar com uma alma aflita.
Eles estavam sentados em uma pequena mesa de madeira com dois copos, um de frente para o outro, cada um em sua simples cadeira também de madeira. Todos os móveis sem quaisquer adornos, cercados por um infinito cenário mais branco do que as nuvens. Após tomar um gole de um líquido semelhante ao hidromel terrestre, a antiga bebida tão adorada pelo povo nórdico antigo, conforme Eduardo se lembrava nos tempos de Edward, o Mestre pegou sua mão e com um semblante sério, disse:
— Você tem uma missão muito importante a desempenhar no futuro. Temo que seja uma missão de tamanha grandeza, que este fardo seja exaustivo demais até para ti.
Logo após suas palavras, ele acordou.
Ao mesmo tempo em que ficou extasiado de felicidade de se encontrar com o Mestre dos mestres, também lhe bateu de súbito uma terrível dor e um pensamento fixo: "Meu Deus! Se até Ele duvida que eu consiga completar essa missão, como poderei realizar tais atos? Não quero desapontar Yeshua, que é o nome original de Jesus – o Cristo, dito por ele a mim durante nossa conversa em sonho. Eu devo ser um guerreiro de Deus! Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei m*l algum, pois o Senhor é meu pastor, Ele me guiará! Essa vou levar graças ao Caçador ter me ensinado”.
Pelo fato de ter se lembrado deste sonho, Eddie invocou o espírito do Caçador em pensamento, ao que o seu guia respondeu rapidamente, parabenizando ainda o jovem por ter aprendido tão rapidamente a chamar um espírito em específico. O Caçador disse que estava na colônia onde aprendeu a controlar sua energia espiritual e a canalizá-la em conjunto com as artes marciais.
Muito queriam discutir sobre o fato de o sonho voltar à tona. Segundo o Caçador, as colônias espirituais eram como verdadeiras metrópoles flutuantes e invisíveis sobre o planeta Terra.
Ele teve que trabalhar muito para ganhar acesso às colônias especializadas em artes marciais durante sua evolução. Foi treinando de colônia em colônia. Passando por cidades espirituais que se encontravam tanto no Brasil quanto no exterior. China, Japão e Tailândia principalmente. Quando voltou ao "Brasil", ficou um bom tempo na colônia do Moscoso, em cima do estado do Espírito Santo, junto de amigos orientais.
Lá finalmente conheceu Bernard, seu tutor espiritual, que lhe passou as lições finais, não apenas marciais, mas morais também. Uma frase que nunca esquecia era constantemente repetida pelo velho Bernard:
— Observe as lições que a vida tem para te dar e reze para que seja feita a vontade Dele e não a nossa.
O Caçador aprendeu também que os estudos dos seres humanos não foram em vão, porém precisavam aprender a controlar a força espiritual, ou seja, o Ki, como os orientais chamam, bem como aos chakras. Eduardo teve um flash de sua encarnação como Samurai enquanto falavam de energia espiritual, para depois lembrar de uma outra versão indiana sua, muito curta encarnação, mas valorosa, onde ele aprendeu sobre os sete chakras, especialmente ao sexto, que tratava da evolução contínua. O princípio Kai Zen de melhoria constante.
Eduardo, em seu momento de transe e envolto de uma energia de coloração azul e arroxeada, disse para o Caçador:
— Perder um dia é como perder uma vida nas marés da eternidade da alma... As horas são como dias e as proporções de tempo e espaço apenas servem para nos confundir e nos mostrar que nunca devemos mergulhar nas trevas do ócio e da inutilidade.
O Caçador fitou, com certo orgulho, Eddie naquele momento e respondeu:
— Finalmente! Consigo ver que você tem total domínio agora sobre suas encarnações anteriores. Agora, sim, você está pronto para nossa missão. Só falta uma coisa para ti! Equilíbrio! O homem precisa de seu momento de lazer também, basta não abusar! Faz parte da máxima: Sede feliz! Para o espírito, a eternidade é a medida de tempo, a vida não é quase nada. Mas para o corpo que a guarda e a que a vida lhe parece custosa em determinados momentos, qualquer forma de prazer é um alívio e se as dores não significassem nada, a Terra não seria um plano de provações...
Eduardo interrompeu seu tutor e repetiu com suas palavras:
— Para o espírito, que é eterno, o tempo de vida é como um grão de areia no universo. Mas para o corpo material, que nos suporta durante este tempo na Terra, a vida parece por demasiadamente custosa e qualquer forma de prazer é um alívio. Se as dores fossem insignificantes, não precisaríamos de um plano terrestre de provações e expiações. Preciso voltar para minha casa! Para a minha esposa.
O Caçador deu uma leve risada e disse:
— Sim, nobre amigo. Vá em paz. Quando retornar, iniciaremos nossa caminhada.