De volta ao seu lar, o Caçador correu em direção ao Ministério do Esclarecimento para conversar com o regente da cidade. Ele pegou uma senha e esperou... Esperou bastante e sabia que ainda iria demorar um pouco mais. Infelizmente, a burocracia não é algo que faz parte apenas do mundo dos vivos. A paciência e a pressa correm livres no nosso âmago, mesmo sabendo que temos toda a eternidade. Fazer o quê? Meros vícios humanos, adquiridos quando mortais. Quando as respostas vieram, o Caçador foi de encontro à Eduardo novamente. Ele se tele transportou direto para o quarto de hotel que Eddie havia alugado para passar alguns dias na cidade de São Paulo até que eles pudessem esclarecer toda aquela situação, um pouco antes de o jovem prodígio cair no sono. Sabia também que ele estava ansioso por respostas:
— Débora, a minha colega curandeira vai nos acompanhar na missão. Existe outro nome aqui para ser nosso guia! Já está tudo certo.
Eduardo deu um pulo da cama apavorado. Com razão. Talvez os espíritos esqueçam o medo t**o que os encarnados possuem de desencarnados.
— p**a que pariu! Não faça isso de novo! Eu quase dormindo aqui e você aparece do nada! Que susto, seu “v***o”! – reagiu Eddie.
— É! Vamos ter que verificar esse vocabulário seu. Não combina com o que um médium deve dizer...
Mais alguns dias se passaram e tudo estava quase pronto. Eduardo já conseguia enxergar outras "almas penadas" com mais frequência e até mesmo separar seu corpo de seu espírito através de uma projeção astral, mesmo que momentaneamente.
Um belo dia, depois de uma sessão de treinamento de projeções astrais, Eddie questionou:
— No seu corpo espiritual, você não sente falta de nada?
O Caçador meditou um pouco e respondeu:
— Bem... Faltar até que não. Tenho digamos... Saudades! Saudade de coisas gostosas, momentos bons! Iguais àquela sensação que temos quando lembramos da infância! Você sente vontade de brincar de carrinho, de pique-pega com os amigos, de comer doces e guloseimas, mas você não brinca mais pois sabe que aquilo foi algo bom que ficou no passado! Algo que não volta... A não ser pela reencarnação.
— Nem de s**o? – questionou Eddie indignado, lembrando que fazia quase um mês que estava longe de casa, conversando apenas por telefone e redes sociais com sua esposa.
— As necessidades do corpo espiritual são diferentes das necessidades do corpo fisiológico, meu caro. Não precisamos comer, beber, respirar e nem f********o mais... Mas isto depende muito do grau de evolução e do quão denso e materialista seu espírito ainda está! Já vi espíritos do lado de cá que dormem, comem, bebem e pasmem, até mesmo vão ao banheiro! Existe s**o sim do lado de cá também, entretanto é algo mais puro, mais ligado ao sentimento verdadeiro! Aqueles que ainda possuem uma obsessão s****l muito grande vampirizam os seres encarnados para obterem a sensação idêntica ao s**o daí da terra. Mas não se preocupe com isto agora, acredito que até Chico Xavier disse uma vez em entrevista televisiva que s**o não é pecado. Deus não daria uma benção tão grande para a nossa reprodução se não fosse para utilizarmos dela. O pecado está no exagero, como tudo na vida, se feito em exagero, irá gerar um problema futuro. No caso do s**o, a promiscuidade, ou seja, a realização do ato s****l pura e simplesmente para satisfazer as vontades carnais em demasia, passando até mesmo pelos sentimentos de outrem, que inclusive ferem o próximo. Repita sempre: Ame ao próximo, não faça e não deseje ao próximo aquilo que não queres para ti. Hum, aproveitando o ensejo, já que eu disse sobre vampirismo, melhor te falar um pouco sobre como lutar contra essas criaturas...
Eduardo arregalou os olhos e disse:
— Vampiros?
— Sim! Chegamos num ponto importante: vampiros! Mas são diferentes dos vampiros que você conhece pela mitologia. São vampiros psíquicos que vampirizam emoções fluídicas. São criaturas com as quais vou ensinar você a lutar também. Estes são seres totalmente ligados às obsessões, sejam elas de qualquer tipo, como por exemplo, comida, drogas, sexo... Melhor irmos para uma aula prática...
O Caçador pediu para que Eduardo destacasse seu corpo astral, o perispírito, de seu corpo material e daí, num toque de mãos, os dois foram transportados para uma rave, uma festa de jovens, regada à bebida e outros tipos de drogas. A música estava extremamente alta e podia-se dizer que ficava difícil distinguir os vivos dos mortos dali. O Caçador apontou para um jovem embriagado e mostrou quantos espíritos desencarnados pairavam ao seu redor, vampirizando suas energias.
— Bom, vamos aproveitar este quadro também para treinamento. Você precisa aprender a possuir corpos agora.
— Eita! Existe possessão também? E eu indignado há alguns meses com o lance de reencarnação. Pensei que essa papagaiada toda era coisa de filme.
— Existem níveis de possessão. Quando um espírito começa a sugestionar de tal forma um ser encarnado por exemplo, este não mais segue suas vontades, mas sim as daquele espírito obsessor, isto se transforma numa espécie de controle onde se confundem encarnado e desencarnado. Este jovem mesmo que estamos observando. Espere um pouco! – enquanto isto, o Caçador desapareceu num instante e rapidamente "se instalou" naquele indivíduo.
Obviamente, os seres encarnados, quando estão sob efeito de entorpecentes, são facilmente sugestionáveis. Ele entrou em estado sonambúlico e o Caçador tomou seu lugar. Utilizando aquele corpo, o espírito fixou o olhar na forma etérea de Eduardo e disse:
— Pronto! Estou aqui! Usando-o como ferramenta!
Apesar de a festa estar lotada, ninguém ligava para um bêbado falando para os quatro ventos. Além do mais, quase todos ali ao redor demonstravam sinais de estarem no mesmo estado. Problemas da juventude deste século.
— Caramba. Consigo ver você através dele, mas ele faz tudo que você faz. Parece que você está pilotando o cara! – respondeu o aprendiz.
— Sim. Este é um dos motivos pelo qual devemos evitar álcool e outras drogas também. Quando este cara acordar nem vai saber o que aconteceu. Agora é sua vez!
O Caçador desacoplou daquele sujeito e pediu para que seu pupilo fizesse as vezes. Sem precisar explicar muito, Eduardo rapidamente pegou o jeito. Entretanto, naquele instante, o ensinamento foi interrompido quando, no corpo daquele garoto embriagado, acidentalmente atingiu um brutamontes que passava ali perto num descontrolado movimento com as mãos.
— Ei! Toma cuidado moleque! – excomungou o ser empurrando o jovem em seu "corpo emprestado".
Eddie topou o desafio e empurrou o grandalhão de volta. Alguns socos e chutes depois, finalizados com uma bela joelhada no queixo do grandalhão fizeram Eduardo se gabar todo. Mas a luta foi interrompida por uma voz grave e apavorante, daquelas típicas para assustar criancinhas, que berrou:
— Saiam daqui! Vim pegar este jovem. Ele deve vir comigo lá pra baixo!
Uma criatura de aproximadamente dois metros de altura surgiu. Seu corpo era cheio de músculos, pele n***a, estilo africana. Usava uma calça de capoeira e nada tampando o peitoral, a não ser cordões e correntes com símbolos de umbanda. O que mais chamava a atenção era o rosto. No lugar da face havia uma caveira com olhos vermelhos flamejantes.
— Quem é ele? – perguntou Eduardo amedrontado, enquanto apontava para aquela figura misteriosa e que no processo acabou saindo do controle do garoto bêbado.
— Exú! São bons de briga. Você cometeu um erro ao chamar tanta atenção. Agora deixe comigo que eu resolvo – respondeu o Caçador enquanto ia na direção da ameaça.
Não houve mais tempo para conversas. Quando ele percebeu que não arredariam o pé dali, Exú deu três mortais no ar e atingiu os dois pés no peito de seu oponente, arremessando-o longe. Após a queda e com um salto estilo “pulo de gato”, o Caçador falou:
— Eduardo. Sai correndo que o bicho vai pegar aqui!
— Nada disso! Essa eu quero ver!
Eddie nunca viu um espírito lutando capoeira. Teve vontade de entrar na luta para ajudar, porém percebeu o fio de felicidade no semblante de seu mentor ao brigar com uma figura tão famosa e temida. O ser sobrenatural bloqueava e esquivava dos socos e pontapés com perfeição, entretanto o Caçador não ficava por baixo.
A luta durou por um bom tempo até o ser perder a paciência:
— Já chega! Não vim até aqui pra ficar brincando contigo, moleque. Vou levar aquela alma e será agora!
Entretanto, quando a entidade deu por si, o jovem que ele veio ceifar havia sumido. Eddie sorriu:
— Já era brother! Seu passageiro saiu mais cedo enquanto vocês lutavam.
— Seus moleques! Volto pra pegar vocês! – foram as últimas palavras de Exú ao desaparecer em meio a um fogo semelhante à efeitos especiais de quinta categoria.
Eduardo estava aprendendo bem. Enquanto o Caçador praticamente tomava uma surra daquela entidade poderosa, ele sugeriu para uma jovem extremamente linda ali na festa que atraísse o alvo da desencarnação para um local mais "íntimo". O plano funcionou perfeitamente. O homem que iria "dessa pra melhor" mudou na hora sua sintonia, tornando-se praticamente invisível para Exú, que no momento tinha outras preocupações. Pelas ameaças da criatura, uma coisa era certa: Não era a última vez que veriam a criatura!