Amigos, família e filhos

1520 Words
Melissa Tompson Após chegar em casa apenas queria me enfiar no quarto e chorar, infelizmente por ser adulta não poderia escapar do que me assustava. E digamos que essa era a parte triste da história, se fosse em outra situação eu lidaria com isso da forma mais madura o possível; ignorando tudo o que estava a minha volta. Era dessa forma que eu lidava com os meus problemas quando eu não era mãe de duas crianças e tinha muitas coisas para lidar, além de claro, das contas que todos os meses vinha um boleto me lembrando que eu tinha que dar parte do meu salário para alguma companhia se quisesse ter o mínimo para ter uma vida realmente digna. Aquilo iria me perseguir por um bom tempo, uma assombração até que eu encarasse. E eu faria isso, no meu tempo. Primeiro é claro, eu cuidei dos gêmeos, fiz ambos tomarem banho e depois fiz algo para que pudessem comer. Emily ainda estava lá, me ajudando e eu agradeço por isso. Acho que meu surto teria sido um pouco maior se por acaso Ela ficou olhando por um tempo os dois para que eu pudesse tomar banho, após isso deixamos os dois vendo desenho na sala do apartamento enquanto iríamos resolver algumas coisas. Ou melhor dizendo... Falaríamos sobre o que aconteceu na praia. Ou para ser mais precisa ainda falaríamos sobre Theo Fernandes. Depois do que aconteceu há anos atrás, estávamos acostumados a conversar e lidar com tudo em equipe, ou melhor dizendo, em família. Uma família com vários defeitos e um tanto estranha para não dizer outras coisas. Ainda assim uma família. Só estávamos esperando Demian, havia mandado uma mensagem para o celular dele e isso só me deixou mais aflita, afinal de contas eu não era nem de longe alguém que gostava muito de esperar as coisas, eu simplesmente não conseguia lidar bem com a espera. Eu estava sentada na cama, abraçada a uma almofada e Emily estava andando de um lado para o outro, mordiscando a pontinha do dedo. Soltei um grito baixo com isso. — Para com isso Ems, você está me enlouquecendo. — Pedi Antes de Emily falar alguma coisa, a porta foi aberta com a imagem de Demian ganhando destaque. — É sério? — perguntou. — Sim. — Respondeu Emily que se virou no segundo seguinte em que viu Demian. A entrada dramática do meu tão querido amigo atraiu a atenção dos meus filhos, felizmente não foi o suficiente já que ambos logo viraram os rostos para a TV prestando atenção no que passava diante dos olhos. Um fato sobre Demian: ele adora entradas dramáticas, mesmo em um momento como esse não perdia a oportunidade de realizar uma. Felizmente a atenção era capturada pelo desenho animado que passava, que na cabecinha deles era muito mais interessante do que prestar atenção no tio agitado andando pelo apartamento. A porta se fechou, Demian entrou e se sentou na cama. Ficou olhando para o chão, sem ânimo. — O quê ele quer? — questionou. — Não sabemos. — Disse Emily, continuou de pé, os braços estavam cruzados e um dedo mordiscado. — Ele quer ver as crianças? Espera...— Deixou um tempo pequeno entre as falas apenas para poder respirar fundo e tentar acalmar um pouco os ânimos. — Ele sabe das crianças? — Não sabemos. — Disse Emily. Massageava a testa, os olhos fechados, tinha relances do que aconteceu um pouco mais cedo. Virei o rosto e olhei cada um deles. — Por favor, parem. — Disse. — Ele não sabe da existência de James e Aurora, muito menos da ligação entre eles, e eu não sei o que ele quer estando de volta na cidade. Ao terminar de falar deixei as costas encostadas na cama, os braços cruzados e as pernas imitando aquela ação enquanto a almofada ficava no meu colo. — Talvez, ele não queira nada, afinal de contas ele não veio me procurar, só parecia estar de passagem ou algo assim. — Disse. — Talvez, no final das contas, só estamos exagerando em algo que não tem nada de mais. Demian virou seu rosto na minha direção, o vi suspirar fundo antes de falar o que eu tinha para falar. — Como você está? — Eu não sei. — Respondi depois de um bom tempo em silêncio. Vi Demian franzir o cenho, confuso. Emily me analisando um pouco distante dali. Por mais sem sentido que possa parecer a minha resposta, é a verdade. Eu estava dividida internamente, os sentimentos que eu jurei ter enterrado pareciam estar voltando e eu não gostava nem um pouco disso. Felizmente, eu não era uma adolescente emocionada ou coisa assim, lidaria com isso da melhor forma possível. Enfrentando Theo Fernandes. Eu merecia ouvir a verdade, e também queria deixar claro a minha posição sobre a volta dele. — O quê você pensa em fazer? — Emily perguntou. — Vou falar com ele. — Disse dando de ombros. A verdade? Eu estava juntando todas as minhas forças para não acabar simplesmente desabando bem ali e agora. Eu não era mais aquela pessoa que fugia dos problemas, que precisava de tempo para aprender como lidar com eles. A vida - infelizmente - me ensinou que só existe uma única maneira de lidar com os problemas e normalmente é, enfrentando o de frente. Eu entraria em contato com ele, teria uma conversa e depois tudo iria ser apenas algo distante e então voltaria ao normal. O problema é que bem lá, no fundo, eu sabia que nada voltaria ao normal. — Falar com ele? — perguntou Emily um tanto descrente. — Acha que é a melhor opção? — Sim. — Disse, minha voz carregava um tom sério assim como o meu rosto. O que queria dizer claramente que eu não estava brincando sobre o assunto. Respirei fundo. — Não existe maneira melhor de lidar com essa situação, eu tenho que falar com ele e saber o que quer, assim talvez eu também possa ter as minhas respostas. — Expliquei. — É a única forma de obter uma resposta. — Eu vou com você. — Disse Demian. — Não. — Retruquei movendo a minha atenção para o homem sentado na beirada da minha cama. Atualmente Demian tinha crescido alguns centímetros, o que o fez ficar com o ego ainda mais elevado do que já era. Os cabelos estavam pintados apenas as pontas de vermelho, o restante foi reforçado com a cor preta. Um efeito de labareda que Demian tinha gostado muito. — Não? — Rebateu. — É claro que eu vou, vai precisar de apoio. Sorri de canto, Demian era super protetor e é uma das coisas que mais gosto dele. Curvei um pouco o corpo e acariciei suas mãos, trocamos olhares carinhosos. Ele era um de meus amigos mais antigos, eu amava aquele homem. Foi com a ajuda de Demian e de Emily que eu consegui me reerguer e não entrar em uma depressão profunda por causa de uma paixão. — Eu sei que eu vou, e você vai estar lá quando eu precisar. — Disse, minha voz era calma e paciente. Demian respirou fundo, me olhava já sabendo o que iria ouvir como resposta. — E eu sou grata por isso, grata tanto pelo seu apoio como pelo de Ems também, é só que... — Você quer fazer isso sozinha, não é? A pergunta de Emily me fez calar por alguns segundos. Confirmei com a cabeça. — Bom, se é a sua escolha, apenas vamos respeitar você. — Disse a mulher. — E vamos estar lá para socar a cara dele caso uma única lágrima escorra pelo seu rosto mais uma vez Mel. — Disse Demian. A última parte me fez rir baixinho. Eu tinha ótimos amigos, eu tinha ótimas pessoas ao meu redor. Não tinha com o que ficar preocupada. Theo não era mais um problema. Com o corpo ainda perto do dele o puxei para perto em um abraço caloroso, o que fez uma onda de risadas se misturar e quando menos percebi estava os três deitados na minha cama rindo como bobos. Era bom ter amigos. Ter um suporte para se apoiar é ótimo. Ter alguém que vá escutar suas queixas, seus choros e te dar conselhos é algo maravilhoso. Eu não sei e não quero imaginar como seria a minha vida sem esses dois. E então nossos corpos foram agredidos por outros dois, dessa vez um pouco menores. Aurora e James tinham se juntado naquela bagunça de uma maneira não muito convencional, pulando em cima da gente, o que fez uma onda de "aí" sair de nossas bocas. — Mamai mamai. — disseram os dois. — Sim? — Pipoca mamai. — Pediram. Tente dizer não para duas crianças fazendo a cara mais fofa que você pode imaginar e falhe miseravelmente com isso. Revirei os olhos, confirmando silenciosamente com a cabeça que faria. Ao verem a minha reação, os dois sorriram alegres e saíram em disparada até a cozinha. Ri vendo a cena. Eu amava a minha família e faria de tudo para proteger o que eu tenho.
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