Júlia Andrade caminhava pelo corredor de mármore em direção à sala de reuniões principal, sentindo cada passo ecoar como uma batida de tambor. A ordem de Pedro Villaça para que ela guardasse o telefone ainda ressoava em sua mente, uma demonstração de força que a deixara com os nervos expostos. Ela ajeitou o blazer, buscando no tecido estruturado a armadura que sempre a protegera, e respirou fundo antes de cruzar a porta dupla de madeira nobre.
A sala de reuniões do 12º andar era um templo de vidro e aço, onde o poder era exercido com vozes baixas e canetas de ouro. Os representantes da TransGlobal já estavam acomodados, ladeados por pastas de couro e tablets de última geração. No centro de tudo, Pedro Villaça ocupava a cabeceira da mesa, a imagem perfeita da liderança inabalável.
— Sra. Andrade, que bom que se juntou a nós — disse um dos diretores da TransGlobal, levantando-se para um cumprimento formal. — Estávamos comentando como a sua estratégia de escoamento foi o diferencial para fecharmos este acordo.
Júlia forçou um sorriso profissional, sentindo o olhar de Pedro fixo nela. — A logística é uma questão de precisão, cavalheiros. Fico feliz que os números tenham falado por si mesmos.
Pedro indicou a cadeira à sua direita, um lugar que colocava Júlia no centro do fogo cruzado. — Sentem-se. Vamos revisar os termos finais antes da assinatura. A Sra. Andrade tem alguns pontos de eficiência que gostaria de destacar, tenho certeza.
O jogo começou naquele instante. Durante as duas horas seguintes, Pedro não apenas conduziu a reunião; ele orquestrou uma exibição de autoridade onde Júlia era constantemente colocada à prova. Ele lançava perguntas técnicas complexas sem aviso prévio, exigindo dados que testariam a memória de qualquer gestor, mas Júlia respondia com a frieza de quem conhecia cada quilômetro da malha rodoviária.
No entanto, o verdadeiro jogo de Pedro não estava nos números. Estava na forma como ele a incluía nas conversas, usando um tom que, para os outros, parecia de respeito profissional, mas que para Júlia soava como um desafio constante. Ele a observava enquanto ela falava, não com a atenção de um colega, mas como um predador avaliando sua presa.
— A TransGlobal espera um comprometimento total com os prazos de entrega — mencionou o representante da logística. — Não podemos permitir distrações ou falhas na comunicação direta.
Pedro inclinou-se para frente, entrelaçando os dedos sobre a mesa.
— Garanto que a Sra. Andrade compreende perfeitamente a importância da exclusividade e do foco. Acabamos de alinhar isso em uma conversa privada no 9º andar. Ela sabe que, neste nível de contrato, não há espaço para interrupções externas.
Júlia sentiu o rosto esquentar. Ele estava usando a ameaça feita minutos antes na sala dela para marcá-la diante dos parceiros. Era uma manobra brilhante e c***l; ele a elogiava enquanto a mantinha sob controle total.
Quando as pastas foram abertas para a assinatura física, o silêncio na sala tornou-se solene. Júlia pegou a caneta, sentindo o peso do documento de milhões de reais. Antes de assinar, ela olhou para Pedro. Ele não estava olhando para o papel; estava olhando para a mão dela, esperando por um sinal de hesitação.
Júlia assinou com firmeza, o traço de sua rubrica sem uma única oscilação. A Mulher Que Nunca Tremia estava de volta, ao menos na superfície.
— Excelente — declarou Pedro, levantando-se assim que o último documento foi rubricado. — Um brinde a esta parceria. Renata, por favor.
A secretária entrou com taças de cristal, e o clima na sala relaxou instantaneamente. Os homens da TransGlobal começaram a rir e a trocar apertos de mão. Júlia, porém, sentia-se em um campo minado.
— Você foi impecável, Júlia — sussurrou Pedro ao passar por ela para servir o champanhe. — Quase me convenceu de que aquele telefone na gaveta não significa nada para você.
— Eu sou uma profissional, Sr. Villaça. Minhas prioridades estão onde devem estar — ela respondeu, mantendo a voz baixa e o tom gelado.
— Veremos até onde essa sua disciplina aguenta — ele retrucou, o olhar descendo rapidamente para os lábios dela antes de voltar para os convidados. — O jogo está apenas começando. Assinar o contrato é a parte fácil. O difícil será você manter essa fachada de rocha enquanto eu estiver no comando da operação.
A reunião se dissolveu em conversas informais, mas Júlia m*l conseguia participar. Ela sentia a vibração fantasmagórica do celular no bolso do seu blazer, embora soubesse que ele estava trancado na gaveta três andares abaixo. Pedro circulava pela sala com uma facilidade irritante, sendo o anfitrião perfeito, mas sempre mantendo-a em seu campo de visão.
Ao final do evento, quando os representantes da TransGlobal se retiraram, Júlia preparou-se para sair.
— Júlia, espere — Pedro chamou, sua voz ecoando na sala agora vazia. — Não terminamos.
Ela parou com a mão na maçaneta. — Os contratos estão assinados, os diretores estão satisfeitos. O que mais o senhor quer de mim hoje?
Pedro caminhou até ela, parando a uma distância que fazia o ar parecer denso.
— Eu quero que você entenda que a hierarquia neste prédio não é uma sugestão. Hoje você provou que pode focar sob pressão, mas amanhã a pressão será maior. Eu não vou aceitar nada menos do que a sua entrega total à estratégia que desenhei.
— Eu entrego resultados, Sr. Villaça. Não entrego a minha vida — ela afirmou, sustentando o olhar.
— Nesta empresa, Júlia, às vezes os dois são a mesma coisa.
Ele abriu a porta para ela, um gesto de cavalheirismo que parecia uma expulsão. Júlia desceu para o 9º andar sentindo o peso da vitória comercial ser esmagado pela realidade de que Pedro Villaça não estava apenas jogando com a empresa; ele estava jogando com ela. Ao abrir a gaveta e pegar seu celular, ela viu dez chamadas perdidas. O mundo lá fora continuava chamando, mas dentro daquele prédio, o jogo de Pedro acabara de definir as novas regras.