O silêncio na sala de Júlia Andrade deveria ser absoluto. Após a descida perturbadora do 15º andar, ela havia sido clara ao telefone: queria uma hora sem interrupções para recalcular as rotas e, principalmente, sua própria postura diante de Pedro Villaça. O ar condicionado do 9º andar zumbia suavemente, mas não era o suficiente para dissipar o calor que ainda subia pelo seu pescoço quando ela lembrava do toque dele em seu queixo.
Ela encarava a planilha da TransGlobal na tela do computador, mas os números pareciam flutuar. Júlia buscava a precisão técnica que lhe rendera a fama de Mulher Que Nunca Tremia, mas a imagem do horizonte de São Paulo visto do terraço insistia em se sobrepor aos dados de logística.
O som de três batidas secas na porta de vidro agiu como uma descarga elétrica em seus nervos.
Júlia não respondeu de imediato. Ela esperou, torcendo para que quem quer que fosse entendesse o recado do silêncio. No entanto, a maçaneta girou e Marina colocou apenas o rosto para dentro, com uma expressão que misturava hesitação e urgência.
— Júlia? Eu sei que você pediu uma hora, mas...
— Marina, eu fui bem específica ao telefone — Júlia interrompeu, a voz cortante, sem desviar os olhos do monitor. — Eu disse que precisava de tempo para recalcular essas rotas da TransGlobal e da LogiTech antes que o dia terminasse. O que é tão urgente que não pode esperar quarenta minutos?
Marina entrou por completo, fechando a porta cautelosamente atrás de si. — O pessoal da LogiTech está em conferência na linha dois. O diretor de operações deles, o Simões, disse que se não falasse com você agora sobre o aditivo da rota sul, ele levaria a questão direto para a presidência. Ele sabe que o Sr. Villaça está acompanhando esse contrato de perto.
Júlia sentiu uma fisgada de irritação na têmpora. A menção ao nome de Pedro como uma forma de pressão externa era exatamente o que ela queria evitar.
— Ele não vai ligar para a presidência por causa de um aditivo de rota. Ele está blefando para furar a minha agenda.
— Ele parecia bem decidido, Ju — Marina insistiu, aproximando-se da mesa. — E a Renata acabou de ligar do andar de cima perguntando se você já tinha os relatórios de impacto que o Villaça pediu no terraço.
— O Villaça acabou de me ver no 15º andar! — Júlia exclamou, finalmente batendo a caneta sobre a mesa de vidro com um estalo que ecoou na sala. — Ele sabe que eu acabei de descer. Isso é uma marcação cerrada que beira o ridículo.
Marina permaneceu em silêncio, observando a chefe. Ela raramente via Júlia perder a compostura por causa de burocracia. Antes que Júlia pudesse dispensar Marina novamente, a porta se abriu sem cerimônias.
Pedro Villaça entrou na sala com a energia de quem não reconhecia limites territoriais. Ele já não usava o colete; a camisa branca estava com o botão do colarinho aberto e as mangas dobradas até os cotovelos. Ele carregava um tablet e ignorou completamente a presença de Marina, fixando os olhos em Júlia.
— O Simões está me mandando mensagens dizendo que você não atende a LogiTech, Júlia — Pedro disse, caminhando até a mesa dela e apoiando as mãos na superfície, inclinando-se para frente.
Júlia respirou fundo, tentando conter a vontade de gritar.
— Sr. Villaça, eu pedi uma hora de isolamento para resolver justamente as pendências da TransGlobal e da LogiTech. As interrupções constantes estão atrasando o processo, não acelerando.
Pedro deu um sorriso de lado, aquele que Júlia já começava a identificar como um sinal de desafio pessoal, e não profissional.
— O problema das rochas, Júlia, é que elas acham que podem bloquear o caminho de todo mundo. Mas eu não sou todo mundo. Marina, deixe-nos a sós. Eu vou ajudar a Sra. Andrade com a LogiTech.
Marina olhou de relance para Júlia, que apenas assentiu com um gesto rígido. Assim que a secretária saiu, o silêncio na sala tornou-se denso e sufocante.
— Você está tentando se esconder atrás de planilhas de novo — Pedro afirmou, a voz baixando para aquele tom que o vento do 15º andar quase tinha levado embora.
— Eu não estou me escondendo. Estou trabalhando — ela rebateu, levantando-se para manter o nível do olhar. — O senhor está sabotando a produtividade do meu setor apenas para provar que pode entrar na minha sala quando quiser.
— Eu entro onde eu quiser, Júlia.
Pedro deu um sorriso de lado, observando a tensão nos ombros dela.
— Eu disse para você recuperar o fôlego, não se isolar de tudo.
— Eu não estou me isolando — Júlia afirmou, levantando-se para não ficar em desvantagem física. — Estou tentando trabalhar. O senhor me manda descer para focar na técnica e depois entra aqui para quebrar o meu ritmo. É contraditório.
O telefone de Júlia, sobre a mesa, começou a vibrar intensamente. Um número piscava insistentemente no visor. Júlia estendeu a mão para atender, buscando qualquer pretexto para encerrar aquela interação, mas a mão de Pedro foi mais rápida. Ele espalmou a mão sobre o aparelho, silenciando a vibração contra o vidro.
— Não atenda — ele ordenou, com uma voz fria e cortante.
— Você está passando dos limites, Pedro. Este telefone é minha comunicação com o mundo fora desta empresa. Você não tem o direito de interferir na minha disponibilidade pessoal.
Pedro inclinou-se para frente, a expressão endurecendo. A autoridade do cargo de CEO agora emanava dele como uma ameaça palpável.
— Enquanto você estiver nesta sala, sua única disponibilidade é para os interesses desta companhia. Estamos falando de um contrato que pode custar milhões em perdas se não for assinado hoje. Se você priorizar uma chamada pessoal em detrimento de uma crise logística dessa magnitude, eu considerarei isso um sinal claro de que você não tem mais o perfil necessário para o cargo de diretora de operações.
Júlia sentiu o sangue gelar. A ameaça de demissão pairou entre os dois, nua e crua.
— Você está me ameaçando com o meu cargo porque eu quero atender um telefonema?
— Estou te lembrando das suas prioridades profissionais — ele retrucou, mantendo a pressão da mão sobre o celular dela. — Se você atender esse telefone agora, Júlia, pode considerar sua sala vazia até o final do dia. Escolha o que é mais importante: a sua vida lá fora ou a carreira que você diz que defende com tanto afinco.
Júlia olhou para a mão dele sobre o aparelho e depois para o rosto dele. O desafio não era mais sobre sentimentos; era sobre poder puro e simples. Ela retirou a mão lentamente, deixando o celular vibrar sob a palma de Pedro até que a chamada caísse.
A tensão foi interrompida por uma batida forte. Um diretor financeiro entrou na sala, seguido por Marina. — Júlia, Sr. Villaça! Os representantes da TransGlobal chegaram para a assinatura física. Estão na sala de reuniões principal e exigem a presença de vocês dois agora.
Pedro afastou a mão do celular instantaneamente, assumindo a postura de CEO impecável.
— Estamos indo, diretor. Estávamos apenas garantindo que não houvesse mais distrações antes da assinatura.
Ele caminhou até a porta, mas parou e olhou para Júlia por cima do ombro.
— Guarde o telefone na gaveta, Júlia. A TransGlobal espera foco total.
Júlia ficou parada no centro da sala enquanto ele se afastava. O celular parou de vibrar e a tela escureceu. Ela percebeu que sua autoridade fora esmagada pela hierarquia de Pedro. Ela respirou fundo, ajeitou o blazer e preparou-se para a reunião, sabendo que a Mulher Que Nunca Tremia acabara de ser lembrada de quem realmente detinha as rédeas daquele prédio.