O fim da tarde no 12º andar deixou o clima pesado. Depois da reunião terminar de forma brusca, a luz do pôr do sol entrou pela sala ao lado da presidência, criando sombras longas que pareciam observar cada movimento de Júlia Andrade. Ela estava sozinha.
Dessa vez, o silêncio não incomodava — ajudava. Ela mantinha aberta a aba da investigação, cruzando dados que Pedro Villaça achava que estavam escondidos na burocracia da empresa.
Júlia não sentia que estava só trabalhando. Ela estava observando. Analisando tudo. Olhava cada detalhe da agenda de Pedro: o motorista citado na ligação, os destinos frequentes, e principalmente, quem era a mulher que parecia ter tanto poder sobre ele.
A sensação de ser observada, no entanto, era mútua. Mesmo na ausência física de Pedro, Júlia sentia que as câmeras de segurança e a própria estrutura do prédio agiam como olhos que permaneciam sobre ela. Era um jogo de espelhos. Enquanto ela investigava o ponto cego de Pedro, o sistema da Villaça Holding monitorava sua eficiência. Ela sabia que qualquer hesitação, qualquer erro na entrega dos relatórios da TransGlobal, seria interpretado como uma falha, como Pedro gostava de dizer.
O cansaço começava a aparecer, mas a curiosidade falava mais alto. Foi então que ela encontrou algo: uma despesa recorrente com segurança privada. Não passava pela empresa — era paga direto por Pedro. O nome era vago, mas o endereço era claro: um condomínio de luxo fora da cidade. Seria lá? Seria ali que tudo se escondia? Seria ali que o "homem perigoso" deixava de ser o mestre do jogo para se tornar o peão de outra pessoa?
O som do elevador privativo chegando ao andar interrompeu seu fluxo de pensamento. Júlia rapidamente minimizou a janela de pesquisa e voltou para a planilha de logística. Pedro entrou na sala. Ele não parecia o vitorioso que saíra da reunião tensa. Seus ombros estavam levemente caídos, e o nó da gravata, antes impecável, fora afrouçado. Ele parou diante da mesa de Júlia, cujos olhos permaneceram fixos na tela, fingindo uma concentração absoluta.
— Você ainda está aqui, Andrade — Pedro observou, sua voz soando mais rouca do que o normal. — O silêncio finalmente te seduziu ou você está apenas tentando provar que sua lealdade não tem horário comercial?
— Estou finalizando o que você pediu. Os diretores precisam disso antes das seis — respondeu ela, olhando para ele. — Sem espaço para erro. — E, como você disse, o primeiro capítulo não admite notas de rodapé.
Pedro se aproximou e ficou observando em silêncio. Ele a estudou em silêncio por um longo momento. Júlia sentiu que aqueles eram olhos que permaneciam, que buscavam ver além da diretora de operações, tentando decifrar o que ela escondia por trás daquela eficiência robótica.
— Você tem olhos que permanecem, Júlia. Olhos que não apenas veem, mas que analisam. Isso é perigoso em um ambiente onde todos tentam esconder algo — ele disse, com uma nota de advertência que fez o sangue de Júlia gelar. — O que você viu hoje, além dos números da TransGlobal?
— Eu vi um líder que encerrou uma reunião estratégica por causa de um telefonema — ela disparou, decidindo testar o limite da ousadia. — E vi que, no 12º andar, a verdade realmente não pode ser camuflada.
Pedro não se irritou. Pelo contrário, ele soltou um riso seco e sem vida.
— A verdade fundamental, Andrade, é que todos nós, do estagiário ao CEO, respondemos a alguém. Até mesmo eu — ele admitiu, inclinando-se levemente. — A diferença é que eu sei exatamente quem segura as minhas rédeas e o preço que pago por isso. Já você... você parece estar lutando desesperadamente contra rédeas que nem admite que possui. Seja lá quem for que te espera fora deste prédio, saiba que essa pessoa está competindo diretamente com o topo. E o topo, Júlia, nunca aceita o segundo lugar.
O comentário, embora genérico, atingiu Júlia como um soco físico no estômago. Pedro não precisava saber o nome de Rafael ou os detalhes do relacionamento deles para entender que havia uma vida inteira sendo sacrificada no altar daquela ambição. Ele sentia o conflito interno nela e, como o manipulador experiente que era, usava isso como combustível para prendê-la ainda mais ao seu domínio.
— Ninguém segura minhas rédeas, Pedro. Eu faço minhas próprias escolhas e arco com as consequências delas — ela rebateu, começando a organizar seus pertences com mãos que ela forçava a permanecerem firmes.
— Veremos o quanto essas suas escolhas suportam a pressão — Pedro disse, caminhando em direção à porta de sua sala, mas parando antes de entrar. — Amanhã, às sete em ponto. O segundo capítulo será consideravelmente mais difícil que o primeiro. Certifique-se de que seus olhos permaneçam focados apenas no que realmente importa para a empresa. O resto... o resto é apenas ruído descartável.
Quando o som da porta se fechando ecoou pelo andar, Júlia finalmente sentiu que o ar voltava a circular em seus pulmões. Ela recolheu suas coisas e caminhou em direção ao elevador, mantendo a cabeça erguida e evitando olhar diretamente para as lentes das câmeras. Ao sair do prédio e sentir o ar fresco — mas ainda pesado — da noite na Avenida Paulista, ela finalmente pegou o celular de dentro da bolsa. Havia uma nova mensagem de Rafael, mas ela não a abriu imediatamente.
Seus olhos permaneceram fixos no reflexo distorcido do imponente prédio da Villaça Holding nos vidros dos carros que passavam em alta velocidade. Ela percebeu, com uma clareza sombria, que a investigação que começara naquela tarde não era apenas sobre desmascarar Pedro ou descobrir a identidade da mulher misteriosa. Era sobre sua própria sobrevivência em um mundo onde a vigilância total era a regra de ouro.
Júlia Andrade agora tinha olhos que permaneciam abertos para o perigo iminente, para a ambição desmedida e para a descoberta perturbadora de que, no jogo absoluto do poder, ninguém está realmente seguro — nem mesmo o próprio Pedro Villaça.