Capítulo 2 - Olhar que avalia

1320 Words
Júlia passou o resto da manhã tentando agir como se nada tivesse acontecido. E, tecnicamente, nada tinha acontecido. Ela entrou na sala do CEO. Entregou um relatório. Respondeu algumas perguntas. Saiu. Simples. Profissional. Controlado. Então por que aquilo não saía da cabeça? Ela fechou um e-mail com mais força do que deveria e soltou o ar devagar. Ridículo. Pedro Villaça era só o CEO da empresa. Frio, arrogante e distante. O tipo de homem que avaliava tudo. Incluindo pessoas. Era só isso. Ele tinha analisado ela como analisava qualquer coisa. Nada mais. Era isso que ela repetia para si mesma. O problema… era que não parecia suficiente. — Você está estranha. Júlia nem levantou o olhar. — Estou trabalhando. — Com cara de quem quer demitir alguém. Agora ela olhou. Marina. Café na mão, curiosidade nos olhos. — Talvez eu queira. — Foi o Carlos? — Não. — Financeiro? — Não. Marina inclinou a cabeça. — Ah. Júlia suspirou. — Não começa. — Foi ele? Silêncio. Júlia voltou a digitar. — Foi uma interação profissional. — Com Pedro Villaça? — Sim. Marina soltou uma risada baixa. — Então não foi normal. Júlia ignorou. Mas não conseguiu ignorar completamente. O escritório já estava cheio. Telefone tocando. Gente passando apressada. Reuniões sendo marcadas. Rotina. Caos controlado. Era ali que Júlia funcionava melhor. Só que, naquela tarde… algo estava fora do lugar. Ou alguém. Ela sentiu antes de ver. Aquela sensação incômoda na nuca. Como se estivesse sendo observada. Júlia ergueu os olhos. Do outro lado do vidro, Pedro conversava com dois diretores. Terno escuro. Postura firme. Expressão fechada. Ele falava baixo, e os dois ouviam sem interromper. Até que, no meio da conversa… ele olhou para ela. Direto. Sem hesitar. Júlia travou por um segundo. Não foi um olhar perdido. Foi intencional. Como se ele soubesse exatamente onde ela estava. Pedro voltou para a conversa logo depois. Natural. Como se nada tivesse acontecido. Mas tinha. Ela sentiu. — Droga… — murmurou. — O quê? — Marina perguntou. — Nada. Mas não era nada. — Júlia! Ela virou. Carlos vinha com pressa. — Preciso que você leve esses contratos para assinatura. Ela olhou a pasta. Depois olhou para ele. — De quem? Carlos fez uma careta. — Do Pedro. Claro. — Não pode mandar por e-mail? — Ele quer impresso. Júlia pegou a pasta. — Eu levo. Carlos praticamente suspirou de alívio. Marina observou tudo. — Segunda vez no dia? — Não inventa. — Não estou inventando. Estou assistindo. Júlia fechou a pasta. — Então assista em silêncio. O elevador parecia lento demais. Tempo demais para pensar. E pensar, naquele momento, não ajudava. Quando as portas se abriram, o silêncio do andar da diretoria era outro tipo de silêncio. Mais frio. Mais controlado. Júlia caminhou até a sala. Renata, a assistente, levantou o olhar. — Ele está terminando uma ligação. Pode esperar. Júlia assentiu. Ficou ali, de pé, segurando a pasta. — Você é a Júlia, né? — Renata perguntou. — Sim. — A dos relatórios. Não era pergunta. Júlia deu um leve sorriso. — Já espalharam? — Quando ele presta atenção em alguém… espalha rápido. A frase ficou no ar. Júlia apertou a pasta. — Foi só trabalho. Renata não respondeu. A porta se abriu. Pedro saiu falando ao telefone. Parou ao ver Júlia. Foi rápido. Mas foi suficiente. Ele terminou a ligação, entregou o celular para Renata e disse: — Entra. Sem formalidade. Sem opção. Júlia entrou. A sala parecia maior. Ou talvez fosse só ele. Pedro foi direto para a mesa. — Os contratos. Ela entregou. — Vieram para assinatura. Ele abriu a pasta. Leu. Silêncio. Júlia ficou de pé. Imóvel. Profissional. Mas consciente demais da presença dele. — Você está desconfortável? — ele perguntou, sem levantar os olhos. Ela franziu a testa. — Não. Agora ele olhou. — Tem certeza? — Tenho. Ele a observou por um segundo. — Você mente melhor no papel. Aquilo irritou. — Talvez eu não esteja aqui para ser analisada. — Todo mundo é analisado aqui. — Inclusive o senhor? Um leve sorriso apareceu. — Principalmente. Ele assinou a primeira folha. — Você responde rápido demais. — Eu penso rápido. — Ou não tem medo suficiente. Júlia cruzou os braços. — Eu deveria ter? Ele levantou os olhos. — Depende do quanto pretende ficar aqui. Silêncio. Aquilo não era só sobre trabalho. Ela sentiu. — O suficiente para não me intimidar fácil. Agora ele se levantou. E a diferença foi imediata. Mais próximo. Mais presente. Mais… perigoso. Ele se aproximou. Parou perto demais. — Você é sempre assim? — Assim como? — Confiante. Júlia sustentou o olhar. — Só quando tenho razão. Algo mudou no olhar dele. Interesse. Claro. Direto. Pedro se inclinou levemente. — Você gosta de ser testada. O coração dela acelerou. — E o senhor gosta de testar. — Só quando vale a pena. Silêncio. Denso. Ele voltou para a mesa, assinou o restante e fechou a pasta. Quando entregou, os dedos dele tocaram os dela. Rápido. Leve. Mas suficiente. Júlia puxou a mão de volta um pouco mais rápido do que gostaria. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Pronto — ele disse. — Obrigada. — Júlia. Ela olhou. — Cuidado. — Com o quê? Ele respondeu sem pressa: — Você chama atenção quando tenta parecer que não sente nada. Aquilo atingiu direto. Ela apertou a pasta. — Então talvez o senhor esteja olhando demais. Silêncio. Pela primeira vez… ele não respondeu imediatamente. Júlia virou e saiu. O elevador desceu. Ela soltou o ar só quando ficou sozinha. — i****a… — murmurou. Não sabia se era ele. Ou ela. — Meu Deus — disse Marina quando ela voltou. — O quê? — Sua cara. — O que tem? — Parece que você brigou com alguém. Júlia ligou o computador. — Exagero. — Ele fez alguma coisa? Júlia hesitou. Não. Nada concreto. Nada que pudesse ser dito. Mas ainda assim… — Não. Só é irritante. Marina cruzou os braços. — Irritante como? Júlia digitou mais forte. — Como alguém que acha que sabe mais do que deveria. Marina deu um sorriso lento. — Entendi. Júlia ignorou. Mas não conseguiu ignorar a sensação. Mais tarde, quando o escritório já estava quase vazio, Júlia terminou o último relatório. Olhou o relógio. 20:38. Tarde. Ela desligou o computador e foi até o elevador. Entrou. Apertou o térreo. As portas começaram a fechar. Mas uma mão impediu. Pedro entrou. Claro. Tinha que ser. Ele estava sem o paletó agora. A gravata levemente solta. Ainda assim… controle absoluto. Ele apertou o botão da garagem. Depois olhou para ela. — Ainda aqui? — Trabalhando. — Você sempre responde assim? — Assim como? — Como se estivesse se defendendo. O elevador começou a descer. — Só quando alguém pergunta como se estivesse investigando. Ele apoiou o ombro na parede espelhada. — E o que eu estaria investigando? Júlia olhou o reflexo dele. — Não sei. O senhor parece interessado. Ele repetiu a palavra. — Interessado… Silêncio. — O senhor me observa. Agora ficou mais pesado. Ele não negou. — Talvez porque você seja difícil de ignorar. O coração dela acelerou. De novo. — Talvez o senhor precise tentar mais. O canto da boca dele subiu. — Talvez você precise parar de me dar motivo. As portas se abriram. Ele saiu. Deu dois passos. Parou. Virou levemente. — Boa noite, Júlia. Ela não respondeu. Não conseguiu. As portas se fecharam. Ela ficou sozinha. Respirando devagar. Agora não havia mais dúvida. Ele não estava apenas reparando nela. Ele estava prestando atenção. E isso… era um problema. Gancho Final Na manhã seguinte, havia um envelope preto sobre a mesa dela. Sem nome. Sem explicação. Dentro, apenas um cartão. “Hoje, você vem comigo para a reunião do conselho.” Sem assinatura. Mas ela sabia exatamente quem tinha enviado. E, pela primeira vez… Júlia sentiu que não estava mais no controle da situação.
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