Capítulo 13 — O Que Ele Nunca Explica

928 Words
Pedro Villaça não era um homem impulsivo. Nunca foi. Controle não era só um traço. Era estrutura. Era hábito. Era defesa. E, por muito tempo, isso foi suficiente. Até Júlia. Ele percebeu isso no momento em que decidiu não procurá-la. Não foi um impulso. Foi cálculo. Distância forçada. Ausência como teste. Silêncio como estratégia. Mas, pela primeira vez em anos… não estava funcionando como deveria. Ele chegou cedo. Como sempre. 06:30. O prédio ainda vazio. Silencioso. Previsível. Tudo no lugar. Menos ele. Pedro entrou na sala. Colocou o paletó na cadeira. Afrouxou levemente a gravata. Movimentos automáticos. Mas a mente… não estava ali. Estava nela. Na forma como ela tinha ficado. Na forma como não saiu. Na forma como disse: “Eu não quero que isso aconteça assim.” Aquilo não era rejeição. Era limite. E limite… ele sempre soube atravessar. Mas dessa vez… não parecia tão simples. Pedro abriu o notebook. Tentou focar. Relatórios. Contratos. Reuniões. Nada prendia. Porque, pela primeira vez em muito tempo… não era ele quem estava conduzindo tudo. Era reação. E ele não gostava disso. Uma batida leve na porta. — Pode entrar. Renata apareceu. Impecável como sempre. — Sua reunião das oito foi confirmada. Pedro assentiu. — E… Ela hesitou. — A senhorita Helena ligou novamente. Silêncio. O nome caiu no ambiente como algo antigo. Familiar. Incômodo. Pedro não respondeu de imediato. Renata continuou: — Ela pediu retorno ainda hoje. Pedro pegou a caneta. Girou entre os dedos. — Depois. Renata assentiu. Mas não saiu. — Algum problema? Pedro levantou o olhar. — Não. Ela sustentou por um segundo. — Certo. Saiu. A porta fechou. Silêncio. Helena. O nome trouxe algo diferente. Não tensão. Não impulso. História. E obrigação. Pedro se recostou na cadeira. Por um instante… não era o CEO. Era alguém que lembrava. Helena não fazia parte do caos. Ela era o oposto. Organizada. Elegante. Previsível. Vinha de uma família tão tradicional quanto a dele. As famílias se conheciam há anos. Negócios. Eventos. Jantares formais. E expectativas. Sempre expectativas. Nunca houve paixão. Mas nunca foi necessário. Com Helena… era simples. Funcional. Seguro. E, acima de tudo… aceito. Pedro sempre soube. Mais cedo ou mais tarde… aquilo aconteceria. Um casamento alinhado. Estratégico. Sem surpresas. Sem risco. Sem… perda de controle. Ele nunca questionou isso. Até agora. Porque Júlia não era nada daquilo. E, ainda assim… ocupava espaço demais. Pedro passou a mão pelo rosto. Irritante. Impreciso. Fora de padrão. Exatamente o tipo de coisa que ele evitava. O celular vibrou. Mensagem. Helena: “Você está me evitando?” Direta. Como sempre. Pedro leu. Não respondeu. Outro ponto fora do padrão. Com Helena, tudo era respondido. Tudo era alinhado. Sem atraso. Sem ruído. Mas, naquele momento… não parecia prioridade. No andar abaixo… Júlia trabalhava. Ou tentava. Mas algo estava errado. Diferente. Silencioso demais. Ele não apareceu. Não chamou. Não enviou mensagem. Nada. — Tá tudo calmo demais — Marina comentou. Júlia não respondeu. Mas percebeu. E odiou perceber. — Ele não te chamou hoje? — Não. — Nem mensagem? — Não. Marina estreitou os olhos. — Estranho. — Bom. — Não. Silêncio. — Isso não é bom. Júlia fechou um arquivo. — Por quê? Marina inclinou a cabeça. — Porque agora você vai pensar nisso o dia inteiro. Silêncio. E ela estava certa. Porque já estava. Júlia tentou ignorar. Tentou focar. Mas a ausência dele… parecia presença. Constante. Irritante. Ela abriu o projeto. Revisou. Corrigiu. Mas a mente… voltava. Para a sala. Para a distância curta demais. Para o momento em que ele perguntou: “Você vai sair de novo?” E ela ficou. — Júlia? Ela levantou o olhar. Carlos. — Pode subir um minuto? — Agora? — Ele pediu. O coração dela acelerou. Claro. Tinha que pedir. Ela levantou. — Depois me conta — Marina disse baixo. Júlia não respondeu. O caminho até a diretoria parecia diferente. Mais tenso. Mais incerto. Ela bateu. — Entra. Júlia entrou. Pedro estava de pé. Mas algo estava diferente. Não era postura. Era… distância. Ele não se aproximou. Não olhou como antes. Mais contido. Mais frio. — Você pediu a atualização. Ela disse. — Sim. Ele pegou o tablet. Sem tocar nela. Sem se aproximar. Aquilo incomodou mais do que devia. Silêncio. Pedro analisou. — Está bom. Direto. Sem prolongar. Sem provocar. Sem nada. Júlia franziu levemente a testa. — Só isso? Ele levantou o olhar. — O que mais você esperava? Silêncio. Ela não respondeu. Porque não sabia. Pedro fechou o arquivo. — Pode voltar. Aquilo foi seco. Final. Júlia ficou parada um segundo. Algo dentro dela… não gostou. Nada. — Certo. Ela virou. Deu dois passos. E então— — Júlia. Ela parou. Virou. Pedro a observava. Mais sério. Mais distante. — Isso não muda nada. A frase veio firme. Mas não clara. — O quê? Silêncio. Ele não respondeu direto. — Continua sendo trabalho. Aquilo bateu. Forte. — Foi você quem disse isso. Pedro sustentou o olhar. — Eu sei. Silêncio. Agora era diferente. Não era provocação. Era contenção. E, pela primeira vez… isso incomodou mais. Júlia saiu. Mas dessa vez… não se sentiu no controle. Quando voltou, Marina já estava esperando. — E aí? Júlia deixou o tablet na mesa. — Ele está estranho. Marina arregalou os olhos. — Estranho como? Júlia demorou. — Frio. Silêncio. — Isso é pior — Marina disse. — Eu sei. GANCHO FINAL Naquela noite, Júlia recebeu uma mensagem. Número desconhecido. Ela abriu. “Você é a Júlia, certo?” Silêncio. Outra mensagem. “Acho que precisamos conversar.” E então o nome apareceu: Helena.
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