Júlia decidiu evitar.
Não no impulso.
Não por drama.
Não como quem foge sem pensar.
Foi uma decisão fria. Calculada. Necessária.
Porque, se continuasse agindo como se nada tivesse mudado, perderia o controle por completo.
E o problema já não era mais só Pedro.
Era o que ficava nela depois dele.
O quase beijo não aconteceu.
Mas tinha deixado marca mesmo assim.
No silêncio.
Na respiração presa.
Na lembrança exata da distância curta demais entre os dois.
No instante em que ela não recuou.
E, pior, no instante em que percebeu que não queria recuar.
Aquilo, sim, era perigoso.
Na manhã seguinte, chegou mais tarde do que de costume.
Não muito.
Só o suficiente para não cruzar com ele no prédio vazio, no elevador vazio, nos corredores ainda silenciosos em que qualquer encontro parecia maior do que deveria.
Quando sentou à mesa, abriu o notebook, ligou a tela e tentou mergulhar no projeto confidencial como se pudesse se esconder dentro do trabalho.
Planilhas.
Contratos.
Cláusulas.
Risco.
Prazos.
Coisas concretas.
Muito melhores do que pensar em boca, proximidade e no tipo de silêncio que antecede um erro.
— Você está estranha de novo — Marina disse, pousando o café na própria mesa e se inclinando na divisória.
Júlia nem ergueu os olhos.
— Eu estou trabalhando.
— Você sempre responde isso quando quer fugir do assunto.
— Então talvez o problema seja o assunto.
Marina arqueou uma sobrancelha.
— Tá. Piorou mesmo.
Júlia continuou digitando.
— Não piorou.
— Você chegou mais tarde.
— Trânsito.
— Você nunca usa trânsito como desculpa.
Silêncio.
Marina esperou dois segundos.
Depois foi direto:
— Aconteceu alguma coisa ontem?
Júlia parou de digitar, mas só por um instante.
— Não.
— Júlia.
— Não aconteceu.
Marina estreitou os olhos.
— Então por que você está com cara de quem passou a noite discutindo com a própria consciência?
Júlia soltou o ar devagar e fechou uma janela do navegador sem necessidade nenhuma.
— Porque algumas coisas não precisam acontecer de verdade para virar problema.
Dessa vez, Marina ficou em silêncio.
— Quase aconteceu? — perguntou mais baixo.
Júlia não respondeu.
Não precisava.
A amiga soltou um suspiro curto.
— Meu Deus.
— Não exagera.
— Eu não estou exagerando. Eu só estou acompanhando o desastre em câmera lenta.
Júlia olhou para ela finalmente.
— Não é um desastre.
— Ainda.
A palavra caiu entre as duas com um peso irritante.
Júlia voltou para a tela.
— Eu só preciso manter isso no lugar certo.
— E onde seria o lugar certo?
— No trabalho.
Marina riu sem humor.
— Amiga, essa frase já morreu faz uns três capítulos.
Júlia não respondeu.
Porque, infelizmente, sabia que ela não estava totalmente errada.
O resto da manhã passou sem qualquer contato direto. Nem mensagem. Nem ligação. Nem recado de Renata. E aquilo, em vez de acalmá-la, só a deixava mais alerta.
Como se estivesse esperando o momento em que ele resolveria atravessar a distância de novo.
Talvez não fisicamente.
Mas de algum jeito.
Às 11h18, Carlos apareceu na mesa dela com dois relatórios em mãos.
— Preciso que você revise isso antes do almoço.
Ela pegou os papéis, agradecida demais pela interrupção objetiva.
— Entrego em meia hora.
— Ótimo. E, Júlia…
Ela levantou os olhos.
— O Pedro pediu a atualização do projeto confidencial até o fim do dia.
Claro que pediu.
— Eu mando.
Carlos fez menção de sair, mas hesitou.
— Está tudo bem?
Júlia quase perguntou o que ele estava vendo no rosto dela para aquela ser a segunda pessoa no mesmo dia a notar alguma coisa.
Em vez disso, respondeu:
— Está.
Ele assentiu e se afastou.
Mentira.
Não estava.
Estava funcional. Que era diferente.
Conseguiu trabalhar por quase uma hora sem pensar nele com intensidade absurda. Quase. O suficiente para terminar a revisão dos relatórios, responder e-mails acumulados e enviar dois ajustes do projeto antes do almoço.
Foi quando ouviu a voz.
— Júlia.
Não alta.
Não brusca.
Mas suficiente para mudar o ar inteiro do setor.
Ela travou antes de levantar o olhar.
Conhecia aquela voz agora.
Conhecia o efeito dela também.
Quando olhou, Pedro estava parado a alguns metros da mesa, de terno escuro impecável, expressão controlada e atenção completamente voltada para ela.
Aquilo, sozinho, já bastava para atrair o olhar de metade do andar.
Pedro Villaça não descia até ali.
Não daquele jeito.
Não para chamar alguém pelo nome diante de todo mundo.
Marina parou o que estava fazendo. Carlos olhou por cima do monitor. Até o telefone tocando em alguma mesa distante pareceu ficar menor.
Júlia se levantou devagar.
— Senhor.
A palavra saiu mais fria do que o normal. Intencionalmente.
Pedro não pareceu se importar.
— Preciso falar com você.
Direto. Sem contexto. Sem delicadeza.
Ela percebeu os olhares aumentando.
Ótimo. Exatamente o que queria evitar.
— Podemos falar depois? — perguntou, igualmente profissional.
Pedro segurou o olhar dela por um segundo.
— Não.
Silêncio.
Júlia pegou o tablet sobre a mesa.
— Com licença.
Marina não disse nada, mas a expressão dela já falava o suficiente: isso não vai dar certo.
O caminho até a sala dele foi feito em silêncio.
Júlia andou meio passo atrás, consciente demais da própria postura, da própria respiração, da forma como o corpo inteiro parecia saber que aquela conversa não seria simples.
Quando a porta se fechou atrás dos dois, o mundo pareceu mudar de escala.
Ali dentro, tudo ficava mais concentrado.
A tensão.
O silêncio.
A presença dele.
Pedro não foi para trás da mesa.
Permaneceu perto da porta por um momento, observando-a.
Júlia se manteve a uma distância segura.
Ou tão segura quanto podia.
— Você está me evitando — ele disse.
Sem rodeio.
Ela sustentou o olhar.
— Estou trabalhando.
O canto da boca dele se moveu de leve.
Não era humor. Era reconhecimento da manobra.
— Não comigo.
— Isso também é trabalho.
Pedro deu um passo na direção dela.
— Não está parecendo.
Júlia cruzou os braços.
— Eu não sabia que o senhor monitorava os meus trajetos internos na empresa.
— Eu monitoro quando alguém muda de padrão por minha causa.
Aquilo bateu direto demais.
— Isso é presunção.
— Não. — Ele se aproximou mais um pouco. — É observação.
Silêncio.
Júlia respirou fundo.
— Eu só estou colocando as coisas no lugar certo.
— Não. Você está tentando fingir que ontem não aconteceu.
Ela travou por uma fração de segundo.
Pequena. Quase invisível.
Mas ele viu. Claro que viu.
— Ontem nada aconteceu.
Pedro a observou com atenção irritante.
— Esse é o argumento que você escolheu?
— É o fato.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Não.
A voz dele caiu.
— O fato é que você ficou.
O coração dela acelerou no mesmo instante.
— E saí.
— Depois.
Silêncio.
A resposta simples foi pior do que qualquer frase mais longa teria sido.
Júlia apertou o braço contra o corpo.
— Eu encerrei antes de ultrapassar o limite.
— Porque quis?
Ela franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
Pedro deu mais um passo.
Agora a distância entre os dois já não era confortável.
— Quer dizer que você saiu porque decidiu. Não porque quis desde o início.
Aquilo irritou.
Muito.
Porque se aproximava demais de algo que ela estava tentando não nomear.
— O senhor gosta de transformar tudo em leitura psicológica?
— Quando a leitura é óbvia, sim.
— Não é óbvia.
— Para mim, é.
Silêncio.
Júlia sentiu a própria raiva subindo, e dessa vez não tentou conter completamente.
— Então vamos ser claros.
Pedro não interrompeu.
Ela continuou:
— Eu não vou deixar que isso vire uma vantagem sua só porque o senhor sabe observar.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Vantagem?
— Sim. Esse jogo de pressionar, esperar, se aproximar até o ponto exato em que eu preciso decidir. O senhor faz isso o tempo todo.
Pedro ficou em silêncio por dois segundos.
Depois disse, baixo:
— E você decide ficar.
A frase entrou como lâmina.
Júlia deu um passo à frente antes mesmo de pensar.
Agora a distância entre eles era pequena o bastante para tornar a discussão algo físico também.
— Eu fico porque não fujo.
— Eu sei.
— E isso não é a mesma coisa que ceder.
Pedro segurou o olhar dela.
— Ainda não.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Júlia respirou fundo, mas era como se o corpo estivesse reagindo por conta própria à proximidade dele.
Detestava isso.
Detestava mais ainda o fato de ele saber.
— Eu não vou repetir o que já disse — ela falou. — Isso pode complicar tudo. Minha posição, meu trabalho, o ambiente inteiro.
— Eu sei.
— Então por que continua?
Dessa vez, foi ele quem demorou um pouco mais.
Não por falta de resposta.
Mas como se escolhesse qual parte dela queria atingir.
— Porque você também continua.
Silêncio.
Forte. Lento. Insuportável.
Ela poderia ter recuado naquele momento.
Podia ter virado as costas, encerrado a conversa, saído daquela sala com alguma dignidade intacta.
Mas ficou.
Pedro percebeu isso antes mesmo que ela percebesse.
— Olha pra mim e diz que não pensou nisso depois — ele disse, a voz mais baixa.
Júlia sustentou o olhar.
— Pensei.
A palavra saiu antes que ela decidisse entregar tanto.
Silêncio.
Os olhos dele mudaram. Não suavizaram. Não perderam intensidade. Mas ficaram mais atentos, mais focados, como se aquilo fosse a primeira honestidade completa entre os dois.
Júlia percebeu o que tinha admitido.
Tarde demais.
— Pensei — repetiu, agora mais firme. — E foi exatamente por isso que resolvi manter distância.
Pedro se aproximou só mais um pouco. O suficiente para desequilibrar o ar entre eles.
— Distância não é a mesma coisa que controle.
— É o que eu tenho agora.
— Não. — Ele inclinou o rosto levemente. — É o que você está tentando construir depois de já ter perdido parte dele.
O coração dela bateu forte demais.
Raiva.
Desejo.
Medo do que aquilo podia virar.
Tudo junto.
— O senhor sempre precisa vencer?
A pergunta saiu afiada.
Pedro não sorriu.
— Eu não estou tentando vencer.
— Não?
— Não.
Mais perto ainda, sem tocar.
— Estou tentando ver até onde você vai continuar mentindo pra si mesma.
Aquilo foi demais.
Júlia ergueu o queixo.
— Eu não estou mentindo.
— Está.
— Sobre o quê?
Pedro não desviou um segundo sequer.
— Sobre o fato de que o problema já não sou só eu.
Silêncio.
Pronto.
Ali estava.
A parte mais perigosa.
Porque era verdade.
E ela não tinha uma resposta rápida que apagasse isso.
O olhar dele desceu para a boca dela outra vez.
Devagar. Sem pressa. Sem disfarce.
Júlia percebeu.
E dessa vez o próprio corpo reagiu antes da lógica.
Respiração curta.
O pulso disparando.
Uma vontade absurda e irracional de não se mover.
Pedro viu tudo.
— Você vai sair de novo? — perguntou, baixo.
A pergunta caiu entre os dois com o peso de uma linha final.
Ela podia.
Devia.
Era a escolha certa.
Júlia não se mexeu.
Um segundo.
Dois.
Três.
O silêncio virou outra coisa. Denso. Íntimo. Quase insuportável.
Pedro levantou a mão devagar, e por um instante ela pensou que ele fosse tocar de novo. No rosto. No cabelo. Em qualquer lugar que tornasse o momento impossível de desfazer.
Mas ele parou antes.
A mão desceu.
A distância continuou a mesma.
O controle dele, estranhamente, foi o que mais a abalou.
Porque mostrava que ele não estava à deriva.
Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
— Eu não quero que isso aconteça assim — ela disse de repente.
A frase saiu mais sincera do que pretendia.
Pedro ficou imóvel.
— Assim como?
Júlia engoliu em seco.
— Entre uma ordem e outra. Entre trabalho e porta fechada. Entre um quase e outro.
Silêncio.
Ele a observou como se estivesse ouvindo de verdade, não apenas esperando a vez de responder.
— Então você não está dizendo não — ele falou.
Júlia fechou os olhos por um segundo e odiou o fato de ele ter entendido tão rápido.
— Eu estou dizendo que isso é uma má ideia.
— Isso eu já sei.
— Então para.
Pedro soltou um ar curto.
Quase uma risada sem humor.
— Se você realmente quisesse que eu parasse, teria saído no segundo em que entrei no seu setor hoje.
Aquilo a acertou com força.
Porque também era verdade.
Ela poderia ter dito “depois”.
Poderia ter mantido distância pública.
Poderia ter recusado a conversa.
Mas veio.
E continuava ali.
Júlia recuou um passo enfim.
Consciente. Deliberado.
Precisava recuperar alguma margem.
— Eu preciso respirar longe do senhor por cinco minutos sem ter a sensação de que tudo aqui está prestes a explodir.
Pedro a observou, sem se mover.
Depois assentiu uma única vez.
— Então vai.
Não havia ironia. Nem provocação. Só uma permissão calma demais.
Ela pegou o tablet com força desnecessária e saiu.
No corredor, o ar pareceu frio.
Bom. Necessário. Insuficiente.
Parou perto do elevador, respirando fundo uma vez, depois outra, tentando reduzir os próprios batimentos como se isso fosse simples.
Não era.
Quando voltou para o setor, Marina levantou na hora.
— O que aconteceu?
Júlia largou o tablet na mesa.
— Nada.
Marina fez uma cara de puro descrédito.
— Você precisa parar de dizer “nada” com essa cara.
Júlia passou a mão pelos cabelos e sentou.
— A gente conversou.
— Conversou como?
Silêncio.
— Como duas pessoas que já sabem que têm um problema.
Marina ficou quieta.
Raro.
— E agora?
Júlia olhou para a tela escura do monitor.
Demorou alguns segundos.
— Agora eu não sei se estou segurando isso… ou só adiando.
Marina puxou a cadeira e sentou ao lado.
— Você gosta dele.
Não foi pergunta.
Júlia fechou os olhos por um instante.
— Gostar não resolve nada.
— Eu não disse que resolve.
— Só piora.
Marina não tentou discordar.
Porque não tinha como.
No fim do expediente, Júlia conseguiu enviar a atualização do projeto, revisar mais dois contratos e fingir normalidade o suficiente para que ninguém, além de Marina, notasse o caos silencioso nela.
Quando chegou em casa, tirou os sapatos na entrada, deixou a bolsa no sofá e ficou parada no meio da sala por alguns segundos, sem acender a luz.
O apartamento escuro parecia combinar com a exaustão daquele dia.
Acendeu o notebook por hábito, abriu a caixa de entrada e viu a nova mensagem.
Sem assunto.
Sem corpo de texto.
Apenas uma linha.
“Você foi honesta hoje. Mais do que antes.”
Júlia ficou olhando para a frase.
Não respondeu.
Minutos depois, outra mensagem chegou.
“E ainda ficou.”
Ela fechou os olhos.
Abriu de novo.
Leu mais uma vez.
Não apagou.
Não respondeu.
Só deixou ali.
Porque agora não era mais só uma disputa de resistência.
Era pior.
Era o que ficava depois dela.
Gancho final
Às 22h47, o celular vibrou com uma terceira mensagem.
Curta. Direta. Impossível de ignorar.
“Amanhã eu não vou te procurar.”
Júlia leu uma vez.
Depois outra.
E, antes que pudesse decidir o que sentia sobre aquilo, a última linha chegou:
“Vamos ver se você sente falta.”
Agora sim o jogo tinha mudado.