Júlia sabia que não estava mais no controle completo.
E aquilo… incomodava.
Desde o toque.
Desde o olhar.
Desde o momento em que ela não se afastou.
Ela tentou trabalhar.
Tentou.
Mas o corpo lembrava antes da mente permitir esquecer.
O pulso.
O silêncio.
A proximidade.
E o pior…
a forma como ele tinha percebido tudo.
— Você está pior hoje — Marina disse, observando.
Júlia não olhou.
— Estou trabalhando.
— Você está tentando não pensar.
Silêncio.
— Ele fez alguma coisa ontem?
Júlia parou.
Só um segundo.
— Não.
Marina inclinou a cabeça.
— Então por que parece que fez?
Júlia voltou a digitar.
— Porque algumas coisas não precisam acontecer pra serem problema.
Marina ficou em silêncio.
— Isso não é bom.
— Eu sei.
O telefone tocou.
Número interno.
Júlia respirou fundo.
Atendeu.
— Júlia.
— Sala de reunião. Agora.
A voz dele.
Mais firme que o normal.
Ela desligou.
— Ele de novo? — Marina perguntou.
— Ele.
— Todos dos dias serão assim? — Marina perguntou.
— Não sei
— Boa sorte.
Júlia saiu.
Sentindo uma irritação.
O corredor parecia diferente.
Mais silencioso.
Mais fechado.
Mais… carregado.
Ela abriu a porta da sala dele.
Pedro já estava lá.
Mas dessa vez…
não estava sozinho.
Documentos espalhados.
Tela ligada.
Ambiente preparado.
Profissional.
Seguro.
Ou pelo menos parecia.
— Feche a porta.
Júlia fechou.
— Senta.
Ela sentou.
Pedro não.
Ele continuou de pé.
— Esse projeto precisa ser finalizado hoje.
Júlia assentiu.
— Eu já revisei—
— Comigo.
Direto.
Silêncio.
Ele puxou a cadeira ao lado dela.
Sentou.
Perto.
Mais perto do que o necessário.
Júlia sentiu.
Mas não comentou.
Eles começaram.
Cláusulas.
Valores.
Ajustes.
Trabalho.
Mas não só.
Porque, mesmo em silêncio…
a presença dele ocupava espaço demais.
— Aqui.
Ele disse, apontando a tela.
Júlia se inclinou levemente.
Pedro também.
Os ombros quase encostaram.
Quase.
Ela percebeu.
Mas não se afastou.
Erro.
Talvez.
— Essa cláusula — ele continuou — precisa ser mais firme.
— Eu posso ajustar—
— Não.
Ele virou o rosto.
Perto.
Muito perto.
— Assim.
A mão dele veio.
Por cima da dela.
Guiando.
Não segurando.
Mas também não neutra.
Júlia travou.
O toque era leve.
Mas consciente.
O corpo respondeu na hora.
Respiração curta.
Pedro não tirou.
Apenas manteve ali.
Por um segundo a mais.
— Viu?
A voz dele saiu mais firme.
Júlia não respondeu.
Porque não estava focada na tela.
Estava no contato.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
A mão dele deslizou levemente.
Agora não guiando.
Sentindo.
Júlia puxou a mão de volta.
Devagar.
— Eu consigo sozinha.
Silêncio.
Pedro a observou.
— Eu sei.
Mas não pareceu recuar.
O ar mudou.
Mais pesado.
Mais lento.
— Isso não é necessário.
Júlia disse.
— Não.
Ele respondeu.
Sem desviar.
— Mas você não parou.
Aquilo bateu.
— Eu estava trabalhando.
— Não naquele momento.
Silêncio.
Ele se aproximou um pouco mais.
Agora não havia espaço neutro.
— Você percebe quando acontece.
— Isso não significa nada.
Pedro inclinou levemente o rosto.
— Significa escolha.
O coração dela acelerou.
— O senhor gosta disso.
— Disso o quê?
— De testar.
Pedro não negou.
— Eu gosto de saber até onde você vai.
Silêncio.
— E até onde eu vou?
Ele demorou um segundo.
— Mais do que você admite.
Aquilo ficou.
Pesado.
Júlia respirou fundo.
— Isso não muda nada.
— Muda.
Ele se inclinou.
Agora perto demais.
O suficiente para que ela sentisse a respiração dele.
Quente.
Próxima.
Perigosa.
Júlia não se mexeu.
Não recuou.
Erro.
Ou escolha.
Pedro observou.
Cada detalhe.
— Você continua.
A voz dele mais baixa agora.
— Mesmo sabendo.
Silêncio.
Júlia sustentou o olhar.
— Eu não fujo.
O canto da boca dele subiu.
— Eu sei.
Mais perto.
Agora não havia espaço.
Só tensão.
O olhar dele desceu.
Para a boca dela.
Rápido.
Mas não rápido o suficiente.
Júlia percebeu.
E, pela primeira vez…
não desviou.
O mundo pareceu parar.
Silêncio.
Respiração.
Proximidade.
Tudo lento.
Pedro inclinou levemente o rosto.
A distância…
mínima.
Um segundo.
Só um.
Era o que separava.
Júlia sentiu.
O corpo inteiro atento.
Esperando.
Ou resistindo.
Ela não sabia.
Pedro parou.
Ali.
Sem tocar.
Sem fechar.
Só… perto.
— Agora você entende.
A voz saiu baixa.
Muito baixa.
Júlia fechou os olhos por um segundo.
Abriu.
Ainda ali.
Ainda perto.
Ainda perigoso.
— Isso é um erro.
— Eu sei.
Mas ele não se afastou.
Silêncio.
Mais um segundo.
Mais um.
E então—
Júlia virou o rosto.
Quebrou.
A distância voltou.
Pequena.
Mas suficiente.
Pedro recuou.
Devagar.
Sem pressa.
Mas com algo diferente no olhar.
Não era dúvida.
Era certeza.
— Você não recuou.
A frase veio baixa.
Júlia respirou fundo.
— Eu recuei agora.
— Depois.
Silêncio.
Aquilo ficou.
Pesado.
Irreversível.
Ela levantou.
— Eu preciso voltar.
Pedro não impediu.
— Precisa.
Mas o tom dizia outra coisa.
Júlia saiu.
Passos firmes.
Mas o corpo ainda reagindo.
No corredor…
ela parou.
Um segundo.
Respirou.
Tentando reorganizar.
Sem sucesso.
Quando voltou, Marina levantou.
— O que aconteceu?
Júlia sentou.
Silêncio.
— Júlia.
Ela demorou.
Um segundo.
Dois.
— Nada.
— Você não tá me enganando.
Júlia virou para o computador.
— Não foi nada…
Pausa.
— …mas quase foi.
Marina congelou.
— Quase o quê?
Júlia olhou para a tela.
Mas não via nada.
— O que foi que ele fez?
Marina perguntou.
Júlia respirou fundo.
— Quase nos beijamos...
— O quê?
Marina perguntou espantada.
— Fale baixo…
Pausa.
— não dá mais pra voltar.
GANCHO FINAL
Naquela noite, a mensagem chegou.
“Você virou o rosto.”
Júlia leu.
Respiração lenta.
E então…
outra mensagem.
“Mas não antes de querer.”
Ela travou.
Porque dessa vez…
não tinha como negar.
Nem pra ele.
Nem pra ela.