Capítulo 05

1731 Words
Darcy vinha andando no meio daquele mato alto, com um casaco e botas de cano longo. Deus do céu, eu me sentia como a Lisy, meu peito deu aquela pontadinha apaixonada de amor platônico. Tinha quase certeza que estava babando. Pelo canto de olho vi Antônio prender o cabelo em um coque, e isso nublou meu amor por Darcy. - Estranho. - Antônio disse por fim. - Ele vai até a casa dela assim? Sem flores? - É um filme Antônio. - Revirei os olhos. - O importante é que ele foi. E no fim ela ficou rica mesmo, e de quebra ficou com ele. - Ele foi arrogante. E ela também. Se os dois tivessem visto logo que se amavam acima de tudo teriam tido mais tempo de romance, e menos de briga. - Ele bufou. Darcy sempre causava isso nos homens. - Eles tem personalidades diferentes. - Disse a ele. - Você já teve namorado? - Antônio era um belo de um curioso. - Sim. - Estava brincando com o notebook nas minhas pernas. - Fui noiva, até a faculdade acabar e ele decidir que ia morar fora. Tínhamos acabado de maratonar uma série bem legal. Ensaiamos a música durante meses. Era a música de despedida de um cara para ela. E ele tocou a mesma música para mim. Nem precisou dizer muitas coisas. Ele foi, e eu fiquei. - Também tive uma noiva, mas não me lembro dela. Sei que ia me casar, e aí acordei assim. Alguma coisa está bloqueando a imagem dela da minha mente. - Antonio tinha a voz grave e baixa. O engraçado era que eu não o via como nos filmes em que pessoa é quase translúcida ou brilha. Para mim ele era de carne e osso, tirando o fato de aparecer do nada e atravessar paredes. Só eu o via. - Vamos assistir outro filme. - Ele me tirou dos meus pensamentos. - Preciso comer alguma coisa. Quando voltar assistimos algum filme. Pousei o notebook na cama e calcei meus chinelos. A noite na fazenda fazia um pouco de frio. Peguei meu casaco e quando me virei Antonio havia sumido. - Bem a cara dele. - Dei de ombros. Jorge tinha feito arroz de forno, carne de panela e uma salada maravilhosa. Como de costume agradecemos pela nossa vida, pela mesa farta. Soltei a mão dos meus pais e abri os olhos. Antonio estava lá. O sacana estava sentado na outra ponta da mesa, quando eu o olhei ele piscou e sorriu para mim. Safado. - Como estão as coisas com as aulas? - Jorge me perguntou. - Bem. Mais cedo encontrei um possível aluno. Vou deixar tudo pronto até segunda. Preciso dar um jeito na minha vida. - Recebi uma proposta de emprego. - Minha mãe sorriu estranho. - Não é tão perto daqui, serão três dias da semana. - E? - Nesses dia precisarei ficar por lá. Mas sua tia Malda disse que pode ficar com você.' Antonio olhava de mim para a minha mãe. Casos de família ao vivo. - Posso me virar aqui mãe. Você sabe. O marido da Tia é estranho. Prefiro ficar aqui. - Não é nada certo ainda. Posso dar um jeitinho de ficar só dois dias por lá. Ainda mais sendo plantonista. Já trabalhei assim e sei que são dias intercalados. Fica tranquila. Por hora, fico atendendo no centro da cidade mesmo. Engoli um pedaço da carne e nem tinha mastigado direito. Se minha mãe resolvesse ficar com o emprego, Jorge iria junto. O homem tinha um ciúmes louco dela. Não o culpo, minha mãe é uma morena de cabelos cacheados muito linda. Comemos em silêncio. Antonio se levantou e começou a andar pela sala, passou pela minha mãe com o maior respeito, limpou uma poeirinha na careca do Jorge, deu a volta e sentou do meu lado. Era difícil manter a calma. - Você precisa sair um pouco. Arrumar um namoradinho. - Minha mãe tentando ser descolada era cabuloso. Ela tinha razão, eu precisava sair. Mas e aí quando alguém me perguntasse o que gostava de fazer. Eu responderia, Assistir filme com meu amigo fantasma. Seria a louca da cidade outra vez. Melhor não. - Ela está bem assim. - Jorge piscou para mim. - Uma hora a Gi arruma um moço daqui. Um agroboy. - Você já superou o Rafa? - Minha mãe quando queria tirar algo de mim arregalava os olhos. Parecia uma louca. E nunca dava certo. - Claro. Quer dizer, ele sempre foi um músico e tanto. O importante é que ele está feliz, e uma hora pode conhecer alguém. - Já conheceu. - Jorge boca lisa depois que soltou a fofoca pressionou a boca. - Ele está noivo. - Minha mãe tentou parecer fria. - Até mandou o convite de casamento. Recusei, e mandei de volta. - Amanhã a tia vem passar aqui, preciso dormir cedo. Depois de beijar meus pais, e lhes desejar boa noite subi para meu quarto. Pouco me importava se Sara me desse um tapão bem no meio da cara, ou o fantasma metido a Christian Grey me desse umas chibatadas. Nada doía mais que meu coração. Pensava que depois de tudo Rafael voltasse para me procurar e dissesse que sentia muito. Daria uma de difícil e voltaria para ele. Rafa era o único que não se importava com a minha mediunidade. Aliás, ele não se importava com nada que eu dizia. Fui direto para o banheiro. Tomei um banho, chorei horrores e me enrolei na toalha. Lembrei do meu colega de quarto e me troquei no banheiro mesmo. Coloquei meu baby doll preto, escovei os dentes e saí do banheiro. Meu colega de quarto estava sentado na banquetinha folheando um livro , inapropriado digamos assim. Arregalei os olhos quando notei a concentração dele. - Hey! Antonio fechou o livro e colocou em cima da penteadeira. Estava confuso, coitado. - Quer falar sobre ele? - Ele me perguntou. Ele, que não era o livro. - Não tenho nada para dizer Antonio. Ele foi meu primeiro amor. Ficamos noivos por dois anos e um dia Rafael me disse que iria embora para o Canadá. Eu não pude ir, o Jorge estava muito doente ainda. E mesmo assim ele foi. Antonio esperou que eu me sentasse na cama e caminhou lentamente pelo quarto, foi até a porta, pensativo e voltou . Sentou do meu lado todo paciente, e mesmo assim ainda esbanjava autoridade. - E essa música que você me falou mais cedo? Respirei fundo, abri o notebook, pesquisei no youtube e deixei que ela começasse a tocar. Deixei o notebook no pé da cama e me deitei de lado. Antonio fez o mesmo. - Achei que fosse inapropriado. - Disse com um sorriso no rosto. - Em que século você está? - Ele riu também. Quando ele ria os olhos se estreitavam. Ficamos um silêncio ouvindo a música. Sentia meu peito arder de tanta tristeza, algumas lágrimas teimosas rolaram, mas em momento algum desviamos nossos olhares. Estava deitada na minha cama com um Barão do Café. Um baita barão na verdade. Senti o peso nos olhos, mas não queria deixá-lo ali. acabei caindo na escuridão de novo. Estava sonhando outra vez. Tinha acabado de me levantar da frente do espelho. Olhei para as minhas unhas com satisfação. Hoje eu iria conhece-lo. Meu futuro esposo. Borrifei meu perfume favorito, ajeitei o vestido e desci. Hoje nenhum n***o podia sair para fora da Senzala ou ele não me aceitaria. Nem mesmo Sara veio me ajudar mais cedo. A mesa já estava posta, tomei somente um café, e comi uma fatia de queijo. Uma dama não podia ter curvas a mais. Já passava das dez horas quando a família Albuquerque chegou. Eram uns caipiras mesmo. Os dois irmãos viviam por conta desde que os pais morreram vítimas da Tuberculose. Eu sabia que me casaria com o mais novo dos irmãos. Antonio. Observei o carro parar. Antonio era o mais alto e pensei ter sentido algo por ele. Ele esperou até o outro sair do carro, era mais baixo e mais magro, tinha os mesmo olhos estreitos a mesma cor de cabelo. Porém era um homem da sociedade, daqueles que viviam de festas e mulheres fáceis, um cafajeste. Antonio subiu primeiro. Depois de conversar com meus pais veio até mim, estendi minha mão e ele a pegou, depositou um beijo na ponta dos meus dedos. A barba grande roçou na minha pele, me provocando sentimentos estranhos. - Bom dia Senhorita. Logo depois foi a vez do irmão dele. Senti o toque na boca dele na minha mão. Os olhos verdes frios se estreitaram para mim. Senti o cheiro de perfume misturado á tabaco. Ele não tinha barba, o rosto era liso com um bigode fino acima dos lábios. Quando puxei a mão de volta ele piscou para mim e entrou na casa. Senti um puxão no braço. Meu corpo rodopiou em uma espiral, e de repente os vi. Estavam meio encobertos pelas sombras. As roupas jogadas no chão. Ouvi os gemidos baixos, ela estava tão entregue que não me notou ali, mas ele sim. Tentei sair do quarto e acabei esbarrando em algo despertando assim a atenção deles. O homem saiu de dentro dela, veio até mim. eu olhava para ela encoberta pelas sombras, cobrindo o corpo com um lençol branco, e tentava não olhar para ele. Esperava que ela me desse uma ordem, ou que o mandasse parar. Me encolhi quando o vi se aproximando,nu. Senti quando a mão dele se fechou em volta do meu braço em um aperto dolorido. - Não me mata. - Disse com a voz fraca. - Não me mata por favor. - Sai daqui sua.... - Ele me encarou, os olhos verdes feito duas esmeraldas furiosas. - Se eu souber que contou algo. Te mato... Acordei assustada. Sentei na cama e olhei para o meu pulso, estava marcado. Regulei a respiração. Tinha sido outro sonho estranho. Começava a entender o que havia acontecido. Talvez a noiva do Antonio tenha tido algo com o irmão dele. Tadinho do Antonio. Como eu contaria para ele? - Sonhou de novo? - Antonio se afastou da janela. - Um sonho estranho. - Se veste. Sua tia está chegando.. Tia Malda e os dois cachorros labradores dela tinham chegado na fazenda. Era o dia da família.
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