Nunca fui uma desocupada, mesmo não precisando tanto assim de dinheiro procurava trabalhar. Minha avó dizia que não tinha nada melhor do que caminhar sozinha, ou seja conquistar meu dinheiro. Dona Áurea ficou viúva cedo, minha mãe e tia Malda eram duas crianças. Ela voltou para a fazenda e trabalhou duro, quando meus bisavós morreram ela tinha o dinheiro da parte dos dois irmãos. Ficou com a fazenda para ela e tocou a vida.
Minha mãe se formou em odontologia. Trabalhou na cidade durante um ano, até que conheceu o doador de esperma que me fez. Vovó e minha mãe tiveram uma briga b***a, e no fim o homem que me fez fugiu pois era casado. E minha mãe saiu de casa.
Vovó sempre mandou dinheiro, e todas as ferias Jorge me levava até a fazenda para ficar com ela. Nesses dias eu ajudava a colher café e ganhava meu dia trabalhado.
A cidade de Vera Cruz parecia ter parado no tempo. Já era quase meio dia quando saí do banco. Logo após minha experiência com um fantasma sadomasoquista que me deixou duas marcas enormes nas costas usei as redes sociais para conseguir alunos de violão. A fazenda era um pouco longe da cidade, mas quem quer faz. E eu tinha espaço de sobra na casa.
Comprei mais três violões, folhas em branco, canetas e lápis. Uma lousa branca e um jogo de canetas. Aproveitei para comprar outro pijama. Um baby Doll. Já que dormiria no mesmo quarto com um fantasma gato, iria jogar meu charme também.
Estava voltando para o carro, cheia de sacolas quando esbarrei em alguém.
– Me desculpe. – Ele se abaixou e pegou as coisas que deixei cair.
– Não te vi. – Dei um sorriso. – Obrigada.
– Você não é a moça que ensina violão?
– Sou eu mesma.
– Eu vi sua proposta mais cedo. Fiquei interessado em aprender. Me chamo Fernando.
Fernando era um baita de um moreno alto de olhos negros assim como os cabelos.
– Muito prazer Fernando. Me chamo Giovana.
Passei meu telefone, marcamos de fazer uma aula experimental e assim ele me ajudou a colocar as coisas no carro. Quando Fernando voltou para onde estava indo, dei partida no carro e voltei para casa.
Durante o caminho repassei toda a minha experiência mais cedo. Eu estava vivendo por outros olhos ou já tinha vivido aquela vida?
Conhecia alguns testes que me ajudaria a saber da verdade, pelo menos sobre isso e os faria, assim que chegasse em casa.
***
Eu sabia que não encontraria minha mãe em casa. Desci do carro confiante. Coloquei todas as coisas na sala e fechei a porta. Não estava sozinha, sentia olhos me espreitando. A vibração do espirito da Sara era forte. Ela era raivosa. Antônio era um pouco mais brando, como se não soubesse nem porque estaria ainda nesse plano. Mas essa vibração era forte, pesada. De canto de olho vi uma silhueta de um homem de terno parado junto a mesa da sala de jantar. Não era Antônio, continuei olhando, tentando focar. Minhas mãos tremiam tanto que reverberou na sacola. Regulei minha respiração pois espíritos de baixa vibração as vezes se alimentam de nossas emoções mais fortes. Medo era uma delas.
Estava sozinha, Tia Malda não tinha o costume de ir até a cede durante o dia. Jorge e ninguém era a mesma coisa. Me abaixei minimamente, peguei a lousa branca, enfiei em baixo do braço e segui para a primeira sala a direita. Abri a porta e coloquei a lousa ali. Quando voltei o olhar, ele não estava mais lá. Minha mente disparou quando uma cadeira da mesa de jantar atravessou a sala na maior rapidez e parou quase nos meus pés. Encarei os fatos, estava sozinha e o ghost sabia mexer nas coisas, a raiva dele era palpável. Nem mesmo Sara deu as caras ali. Passei pela cadeira tombada de lado com um pulo perfeito e subi as escadas de dois em dois degraus.
Estava com fome, a adrenalina correndo no meu corpo todo. Fechei a porta e encarei a fechadura. Não demorou muito para ver uma pequena vibração, que aos poucos se transformou em sacudidas violentas.
- Para com isso! - Falei firme. - Seu lugar não é aqui!
A porta continuava sacudindo com força, Onde estava Antônio?
Mentalmente pensei nele. Fechei os olhos e o chamei. Sentia que o espirito do outro lado da porta se divertia comigo. E aí parou de uma vez. Abri um olho, e depois o outro. Antônio estava na minha frente, com o sorriso presunçoso. Os braços largos cruzados na frente do corpo, me encarando de cima para baixo.
-Porque fez aquilo?- Apontei para a porta.
- Eu não fiz nada, - Ele respondeu o obvio. - Vim aqui porque você me chamou. Estava me chamando lembra?
- Claro que lembro. Acabei de levar a maior carreira e não foi da Sara. - Recolhi meu braço. - A coisa, ou sei lá o que é aquilo correu atrás de mim e ficou forçando a porta.
- Eu sei. Cheguei aqui a tempo; - Ele descruzou os braços. - Ainda sinto a presença dele.
- Vocês nunca se encontraram por aí não?
- Não é tão fácil Giovana. Se ele não quiser que eu o veja, não verei. Nunca senti essa presença na casa. - Antônio respirou fundo. - Não sei como te dizer isso.
- O que?
- Eu e Sara não somos os únicos nessa casa. Os outros ficaram presos na Senzala. Na maioria jovens, ou gente que continuou o trabalho mesmo depois de passar desse plano. São inofensivos. Não entram na casa com medo de apanhar. Por isso não os vê.
Respirei fundo. Herdei esse dom da minha avó e no que me lembre, ela nunca se intimidava com nada. Eu também não ia mexer com o além, não faria minha hipnose pelo youtube para saber se vivi outra vida. Vai que saio do corpo e não consigo mais voltar.
- Olha, eu estou com fome. - Encarei meu gasparzinho particular.
- Quer que eu fique com você, é isso? - Antônio levantou a sobrancelha fendida para mim, e um sorrisinho vigarista cresceu nos lábios dele.
- Hum. - Dei de ombros.
Antônio caminhou até a porta e passou por ela, engoli em seco e fui atrás. Era estranho conversar com alguém de outro plano. No entanto, precisava ajudá-lo e estava cogitando gostar da questão caça fantasma de ser.
Quando desci a escada, todas as cadeiras estavam perfeitamente alinhadas, entrei na cozinha e Antônio estava sentado na mesa.
- Existe cadeira sabia? - Passei por ele e fui a procura de alguma coisa para comer.
Antônio revirou os olhos. Enchi um prato com morangos, piquei uma maçã grande e joguei mel por cima. Sentei na cadeira sob o olhar de Antônio.
Ele fazia o caminho do prato para a minha boca, com o olhar atento. Comi rapidinho, coloquei o prato na pia e passei por ele. Antônio me seguiu paciente, e entrou pela porta quando eu a abri. Liguei o notebook e ele sentou do meu lado na cama.
- O que vai fazer aí? - Ele me perguntou.
- Sabe o que é isso?
- Claro. Sua avó tinha um desses, Eu fiquei muito tempo aqui. Vi o mundo evoluir sob meus olhos. Ou eu aprendia, ou ficava louco. Até que acho interessante essas coisas.
Dei de ombros. Digitei rapidinho para deixar ele impressionado. Primeiro li alto sobre a história de Vera Cruz. Ele conhecia cada família escrita ali. Haviam também algumas coisas que eram mentira, Antônio revirava os olhos. Depois pesquisei sobre a família dele.
- Sua família foi uma das fundadoras da cidade. -Rolei o mouse com o dedo indicador. - Seu pai Hector Albuquerque e sua mãe Rúbia, certo? - Ele afirmou com um movimento. - Você teve um irmão, Mauricio. Aqui não conta muito sobre você. Só que depois da lei Áurea os escravos continuaram na fazenda, poucos se foram até sua família chegar e comprar essas terras. - Pesquisei diretamente o nome dele. Antônio Albuquerque, e a cidade. - Você deixou a cidade com trinta e dois anos.
Antônio içou o corpo para frente empertigado, mesmo sendo somente uma impressão do que era, Antônio puxou o ar com força. A carta estava exposta no museu na cidade de Marília.
- Eu vou lá. -Disse.
- Também vou.
- Mas você não pode sair desses portões.
Antonio riu da minha cara, aquela maldita risada de boca fechada. Me senti uma palhaça.
- Ué? Pensei que você ficasse preso aqui...
- Onde andou assistindo isso? - Ele balançou a cabeça, os fios castanhos claros balançando. - Alguma novela?
- Algumas séries. - Respondi irritada. - Olha, o museu só abre na parte da manhã. Hoje é sexta, então teremos dois dias para ir até as carta.
- Que eu não mandei. - Ele me respondeu, sério. - Eu tinha uma noiva. Alguma coisa aconteceu comigo, eu não me lembro do nome dela.
- Vamos descobrir Gasparzinho.
Antônio esticou as pernas longas do meu lado. Eu era uma azarada mesmo. O homem era um deus nórdico e eu não podia tocá-lo. Ele não sairia do meu lado, e eu não estava disposta a ficar olhando para aquele peito musculoso até babar.
- Gosta de filmes? - Perguntei.
- Nunca gostei.
- Vamos assistir um.
Entrei na minha conta de um dos vários aplicativos de filmes e rolei o cursor. Depois de uma longa briga entre qual assistir, optamos por Orgulho e Preconceito. Fingi que nunca havia assistido, e ele acreditou. Ah, o Senhor Darcy me enlouquece.