Amanda
Estava na sala, sentada no sofá, folheando uma revista de decoração, enquanto Sandra, ao meu lado, revisava alguns documentos. O ambiente estava calmo, quase silencioso, e a tranquilidade da casa dos Miller começava a me dar uma sensação de paz. A manhã turbulenta parecia um borrão distante.
Conversávamos sobre o meu currículo, sobre as expectativas dela em relação ao meu trabalho e sobre como ela e Jonas haviam se conhecido. Sandra era uma mulher notavelmente acolhedora.
De repente, a porta da frente se abriu com um clique suave, e Emily entrou, com a mochila ainda nas costas. Acalmei-me, pronta para tentar uma nova abordagem amigável, mas parei assim que olhei para o seu rosto. Seus ombros estavam tensos, sua postura era curvada e seus olhos estavam baixos, evitando contato. Uma mecha de cabelo caía sobre sua testa, e pude ver a umidade em suas bochechas. Ela havia chorado.
— Emily, que bom que chegou! Assim, pode mostrar seu quarto para Amanda. — Sandra disse, com a voz alegre, sem perceber a dor evidente em sua filha.
Emily levantou a cabeça, e a voz que saiu de sua garganta era rouca e trêmula, carregada de um choro contido.
— Claro... Vem, Amanda. — Ela disse, sem me olhar nos olhos, e começou a subir as escadas, arrastando os pés.
Vou atrás dela. No topo da escada, ela me espera, mas o olhar em seu rosto é de pura resignação. Assim que entro em seu quarto, um santuário de cores e pôsteres de bandas, fecho a porta atrás de mim e me viro para ela. Emily joga a mochila no chão e se senta na beirada da cama, o corpo pequeno tremendo ligeiramente.
Sento ao seu lado, deixando um espaço entre nós.
— Você quer me contar o que aconteceu? — Pergunto, minha voz suave, a intenção de ser uma "babá" completamente substituída pela de ser uma amiga.
Ela me olha pela primeira vez, os olhos vermelhos e inchados, e solta uma risada amarga.
— Você tem tempo para me ouvir?
— Claro que tenho, afinal, é por isso que estou aqui. — Digo, com um pequeno sorriso, colocando as mãos nos joelhos. — Olha, se você não quer uma babá, eu posso ser sua amiga. O que você acha? — A proposta sai de forma natural. Vejo um alívio sutil em seu rosto, e um sorriso fraco finalmente desponta.
— Por mim, tudo bem. — Ela diz, e o som de sua voz é mais leve.
— O que houve? — Pergunto, me
aproximando e enxugando uma lágrima solitária que escorre por sua bochecha. O toque é suave, e ela não se afasta.
O primeiro soluço escapa, seguido por um choro mais forte e descontrolado.
— Eu não aguento mais sofrer por ele! — ela diz, entre soluços, me olhando como se estivesse pedindo ajuda, a dor em seus olhos sendo o suficiente para partir meu coração.
— Ele quem? — pergunto, preocupada.
— Rick, meu namorado da escola. — O nome sai com amargura. — Semana passada, peguei ele com outra garota. Como eu sou otária, o perdoei. E agora, ele me renegou na frente dos seus amigos e, principalmente, do meu irmão. — A voz dela quebra, e ela se desfaz em lágrimas.
Meu coração se aperta. Agora tudo faz sentido. A tristeza dela, o drama da manhã, o sumiço do Alex. Ele devia ter ido tirar satisfações com o garoto, e o resultado foi o pior possível. Puxo-a para um abraço apertado, beijando o topo de sua cabeça, sentindo a dor dela em cada soluço.
— Sei que é difícil. Mas o amor é assim: você sofre muito até que o cara certo aparece para fazer as feridas do seu coração cicatrizarem. — Digo, acariciando seu cabelo, sentindo uma lágrima solitária escorrer pelo meu próprio rosto. — Ele vai perceber a garota maravilhosa que perdeu e vai se arrepender muito. — Digo, e as palavras parecem alcançar o seu coração, porque ela sorri.
— Obrigada, Amanda. — Ela diz, e me abraça forte.
Ficamos mais um pouco no quarto, conversando sobre trivialidades, a fim de distraí-la. A calma se instalava novamente, até que um som estridente vindo do andar de baixo nos assusta. É uma discussão, e é alta. Muito alta.
— EU NÃO VOU TRABALHAR! EU JÁ TENHO DINHEIRO! — A voz de Alex, cheia de raiva, preenche o ambiente, reverberando pelas paredes.
— DINHEIRO QUE NÃO É SEU! DINHEIRO QUE EU GANHO COM O MEU SUOR! ISSO É UMA COISA QUE VOCÊ VAI TER QUE COMEÇAR A FAZER! — A voz de Jonas, carregada de fúria e frustração, grita de volta.
Emily se encolhe.
— O que está acontecendo? — ela pergunta, espantada.
— Eu vou ver, ok? Fica aqui. — Digo, e ela assente, os olhos fixos na porta.
Saio do quarto e corro para o corredor, a discussão no andar de baixo me puxando como um ímã. Mas assim que chego ao topo da escada, Alex sobe, quase correndo. Ele não me vê. Eu me esquivo para o lado e ele, distraído pela raiva, esbarra em mim. O impacto é forte, e o calor do seu corpo me atinge.
— Olha por onde anda, i*****l ! — ele diz, com a voz cheia de ódio, o olhar frio e o semblante duro, antes de entrar em seu quarto e bater a porta.
O xingamento, o tom, o desprezo em seus olhos. A dor em seu rosto. Tudo me atinge de uma vez, mas a vontade de ajudá-lo é mais forte do que a ofensa. Penso duas vezes, mas a ideia de ir falar com ele persiste em minha cabeça. Ele não parecia bem. Decido ignorar a grosseria.
Caminho até a sua porta, a mão em um punho hesitante. Bato com receio, mas respiro fundo, tentando reunir coragem.
— Alex? — Chamo.
A porta se abre, revelando um Alex sem camisa, os músculos tensos e uma tatuagem no ombro que eu não tinha notado antes. Ele está ofegante, com uma fina camada de suor em seu peito, resultado da raiva. E o cheiro de suor misturado com seu perfume é inebriante. Olho de cima a baixo, minha garganta seca, a respiração presa... A boca ficou tão seca que por um instante pensei ter babado, mas me seguro.
— O que você quer? — ele diz, apoiando-se no batente da porta. Sua voz é dura, sem a doçura de antes.
Seco rapidamente a boca e foco no mais importante: seu rosto. Os olhos ainda estão cheios de fúria.
— Eu vim ver se você está bem. — Digo, meio tímida, ignorando o tom rude.
— Estou ótimo. Muito obrigado por se preocupar e se intrometer. Agora, vaza! — ele diz, mais grosso do que antes, a voz carregada de raiva, como se a minha presença fosse a gota d'água.
Abaixo a cabeça, segurando as lágrimas que tanto luto para segurar. Não suporto quando gritam ou são grossos comigo, ainda mais quando só o quero ajudar. É uma fragilidade minha, uma parte de mim que se desmancha diante da hostilidade.
— T-tudo bem. — Digo, com a voz embargada, e acelero o passo, correndo para o banheiro mais próximo.
Fecho a porta e me encosto na parede, permitindo que a lágrima que tanto lutei para segurar role pelo meu rosto. Uma, duas, três. As lágrimas vêm em um fluxo constante. Sento-me no chão, abraçando os joelhos. A grosseria de Alex, a dor de Emily, a briga entre pai e filho... é demais para o meu primeiro dia. Por que eu me importo tanto com a raiva dele? Eu sou só a babá.
Ouço batidas leves na porta.
— Amanda...? — A voz de Alex, calma e suave, me faz congelar. O som é uma completa contradição com o que ele acabou de me dizer.