Capítulo Oito

1379 Words
Alex Com certeza, este não está sendo um dos meus melhores dias. Talvez seja, na verdade, um dos piores, e olha que já passei por alguns bem ruins. Se alguém quiser uma lista dos motivos, ela é longa o bastante para encher páginas e páginas. Mas vamos por partes. Primeiro : estraguei o dia da minha irmã, Emily. O que deveria ter sido apenas uma lição para aquele garoto metido que estava dando em cima dela acabou se transformando em uma humilhação pública. Eu queria que o moleque fosse colocado em seu lugar, só isso. Mas o resultado foi desastroso: ele não só riu da situação como deixou claro, na frente de todos, que não gostava dela. Eu estava ao lado quando Emily ouviu aquilo, e a expressão em seu rosto foi um golpe certeiro no meu peito. O choro dela ecoa na minha memória como um castigo. Não importa quantas vezes eu feche os olhos, continuo vendo as lágrimas escorrendo pelas bochechas dela. Segundo: fui suspenso da faculdade. A cena foi digna de filme. Um verdadeiro show de horrores na cantina, com bandejas voando, comida pelo chão e a risada histérica da Mylene, aquela garota que parece viver para me provocar. Quando o Diretor Joe me chamou para a sala dele, eu já sabia que não ia terminar bem. Até aquele momento, eu era considerado um dos garotos mais populares do campus, alguém com um histórico impecável, um exemplo para os demais. Agora? Sou apenas um delinquente juvenil em suspensão, alguém que conseguiu manchar a própria reputação em questão de minutos. Terceiro: Meu pai decidiu que eu deveria “aprender a ser responsável”. Nossa discussão foi épica, uma daquelas que ficam na memória como um marco. Ele soube da suspensão, ficou furioso e, sem perder tempo, anunciou que não ia mais bancar minha “irresponsabilidade”. As multas que levei hoje a caminho da faculdade, o combustível que gasto como se fosse água e até minhas saídas noturnas… tudo isso, a partir de agora, sairia do meu próprio bolso. O veredito foi claro: eu teria que trabalhar. Só de pensar nisso, sinto um tédio sufocante. Trabalho. Eu. Parece uma piada de mau gosto. E, por último, como se não bastasse, tratei a babá como lixo. A pobre Amanda. Eu despejei nela toda a raiva acumulada, toda a frustração que estava me corroendo por dentro. Eu sei que fui um i****a, um verdadeiro cretino. Mas, na minha defesa, não tive culpa por estar de cabeça quente. A questão é: por que ela tinha que se aproximar logo naquele momento, depois de eu ter discutido com meu pai? Ela apareceu com aquela expressão preocupada, querendo ajudar, e eu simplesmente explodi. Não merecia. Não dela. Agora, a culpa me consome. Não por pressão de ninguém, não porque meu pai ou minha mãe me mandaram pedir desculpas, mas porque algo dentro de mim sabe que fui injusto. A imagem de Amanda, com o olhar ferido e silencioso, está grudada em minha mente de um jeito incômodo. Não consigo ignorar. Respiro fundo, saio do meu quarto e começo a procurá-la. A sala está vazia. A cozinha também. Passo pelo quintal, mas nem sinal dela. Já estava prestes a desistir quando minha intuição me conduz ao corredor. A porta do banheiro está fechada. O silêncio atrás dela me dá a estranha sensação de que Amanda está lá dentro. Bato três vezes, de leve. O som ecoa no silêncio da casa. — Amanda…? — minha voz sai calma, quase doce, uma versão de mim que raramente aparece. Nada. Nenhuma resposta. Ainda assim, sinto que ela está ali. Tento de novo, baixando ainda mais o tom. — Amanda, se estiver aí… me responde. — falo, sincero. Mais silêncio. Nenhum sinal. Talvez ela não queira me ver, talvez esteja com medo de que eu volte a ser grosso. Seguro a maçaneta e, com cuidado, giro-a. Para minha surpresa, a porta se abre facilmente. Estava destrancada o tempo todo. Parte de mim se pergunta: ela confia tanto assim? Ou apenas não pensou em trancar? Assim que entro, meus olhos a encontram. Amanda está encolhida no chão, abraçando os joelhos contra o peito, como se quisesse desaparecer. Ainda não percebeu que entrei. Fecho a porta atrás de mim, e o clique suave a faz levantar a cabeça, assustada. Quando nossos olhares se cruzam, sinto um soco no estômago. Os olhos dela estão vermelhos e inchados. As bochechas, ainda úmidas pelas lágrimas. Droga. Eu a fiz chorar. A culpa me atravessa como uma lâmina. Sou um babaca, um completo i****a. — Podemos conversar? — pergunto, me aproximando com cautela. Minha voz não tem nada da agressividade de antes. Ela se levanta devagar, enxuga as lágrimas com pressa, tentando se recompor. — Claro. — responde num sussurro quase imperceptível. Respiro fundo, sem saber por onde começar. Minha pose de durão simplesmente se desfaz. — Olha… eu queria te pedir desculpas. Eu fui um grosso. Estava irritado, cheio de problemas na cabeça, e acabei descontando em você. Não medi palavras, nem o tom. Foi injusto. Você só queria ajudar, e eu… eu estraguei tudo. Sinto muito. Você me perdoa? As palavras saem mais sinceras do que eu esperava. De repente, num impulso, me ajoelho à frente dela. Ela está sentada na tampa da privada, e eu queria estar na mesma altura. Seguro as mãos dela entre as minhas, num gesto que me surpreende tanto quanto deve ter surpreendido Amanda. Os olhos dela se arregalam. A surpresa toma o lugar da tristeza, e por um instante parece que o ar fica mais leve. Um pequeno sorriso se forma em seus lábios. — Eu te perdoo, sim. — ela responde, doce, antes de me puxar para um abraço inesperado. Por alguns segundos, fico paralisado. Não estou acostumado a ser abraçado assim, com tanta ternura. Mas logo cedo, cedo ao calor daquele gesto e a envolvo pela cintura, puxando-a mais para perto. Seu perfume me envolve, delicado e floral, como uma brisa suave de verão. O cabelo dela roça em meu rosto, macio, e sua pele é quente contra a minha. É apenas um abraço, rápido, mas já me sinto viciado. Queria ficar ali, no silêncio, sentindo sua presença, como se o mundo lá fora não existisse. — Acho melhor sairmos daqui. — Amanda murmura, se afastando, a voz um pouco mais firme. Por dentro, reclamo. Por fora, sorrio, tentando disfarçar. — Por quê? — pergunto, ainda com um sorriso brincalhão, e arrumo uma mecha de cabelo dela atrás da orelha. O toque é leve, mas suficiente para arrepiar meus dedos. Ela cora levemente. — Podem pensar que… que estávamos fazendo alguma coisa errada. Eu me divirto com o jeito nervoso dela. — Tipo o quê? — ergo a sobrancelha, deixando o sorriso malicioso escapar. — Você sabe! — ela retruca, corada, desviando o olhar. — Agora, com licença. Amanda se levanta, determinada a sair, mas eu seguro seu braço. Minha intenção é inocente: um beijo na bochecha, um gesto de amizade, reconciliação. Só que ela vira o rosto no exato instante em que me aproximo, e nossos lábios se tocam. Um selinho. Rápido, mas suficiente para virar meu mundo de cabeça para baixo. Ela congela, vermelha como um tomate, os olhos arregalados em choque. Eu, por outro lado, sinto uma descarga elétrica percorrer cada parte do meu corpo. Como se algo tivesse despertado dentro de mim. — D-desculpa… eu não… foi sem querer. — gaguejo, perdido, ainda segurando sua cintura. — N-não foi nada… não se preocupa… Tchau! — ela responde rápido, antes de sair praticamente correndo do banheiro, deixando-me sozinho. Fico ali, sentado na tampa da privada, tentando processar o que acabou de acontecer. Aos poucos, um sorriso bobo se forma em meu rosto. O beijo foi breve, inesperado, quase um acidente… mas a sensação ainda está presente. O calor, a suavidade, o gosto doce. Fecho os olhos, encosto a cabeça para trás e rio sozinho. — Amanda… como você faz isso comigo? — murmuro, olhando para o teto. Eu, Alex, o garoto que nunca se importou com ninguém, acabo de me perder em um abraço e em um beijo no banheiro. E, em vez de me irritar, estou flutuando, como se tivesse encontrado algo que nem sabia estar procurando.
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