Capítulo Nove

1407 Words
Alex O dia amanhece e, por mais que meu corpo implore por alguns minutos a mais, eu me levanto da cama quase que imediatamente. Há algo me impulsionando, uma inquietação que não consigo ignorar. Não é preguiça, não é sono perdido: é um turbilhão de pensamentos que me prende, me chama, me força a agir antes que eu possa pensar melhor. Tomo um banho rápido, me visto, me movo como se estivesse fugindo de mim mesmo. Cada gesto é apressado, quase desesperado, e não sei por quê. Na sala de estar, encontro minhas irmãs, Emily e Mylene, em silêncio absoluto, tomando café da manhã como se nada tivesse acontecido. Mas o silêncio pesa, carregado de tensão depois da tempestade de ontem. — A Amanda já chegou? — pergunto, tentando parecer casual, mas falhando miseravelmente. Sou o primeiro a quebrar o silêncio, e isso me surpreende. Eu, Alex, que deveria ignorar a babá, me vejo perguntando sobre ela. Emily ergue os olhos para mim, surpresa. Um pequeno sorriso surge em seus lábios, m*l escondendo a mistura de curiosidade e reprovação. — Não. Por quê? — diz, sua voz suave, mas carregada de significado. — É que… é que… Ah, esquece! — gaguejo, sentindo minhas bochechas arderem. Sento-me no sofá, evitando o olhar delas. É humilhante admitir que minha mente está mais preocupada com Amanda do que com qualquer outra coisa. Mylene se inclina para perto, com um sorriso malicioso. — Está querendo pegar a babá, maninho? Reviro os olhos, empurrando a mão dela. — Me poupe, Myle. — Mas o rubor em meu rosto é uma resposta clara demais. Ela ri baixinho, triunfante, e se afasta, satisfeita. Nesse instante, a porta da cozinha se abre. Meu pai, Jonas, entra com a postura impecável de sempre. Terno bem passado, gravata ajustada, olhar frio. Ele me observa, e há uma pressão invisível pairando no ar, como se o ar tivesse ficado mais denso, mais sufocante. — Está pronto para trabalhar, Alex? — pergunta, firme, sem deixar espaço para respostas evasivas. A raiva ferve em mim, ainda viva da discussão da noite passada. Sinto meu corpo todo tenso, pronto para explodir. — Eu já disse que não vou à merda nenhuma! — grito, deixando a fúria transbordar. Sem qualquer hesitação, ele estende a mão e segura meu braço com força surpreendente, me erguendo do sofá. O impacto me desequilibra, mas não consigo recuar. — Mas que po… — tento protestar, mas ele me corta. — Pare de usar esse palavreado absurdo! — sua voz, carregada de autoridade, me atinge como um soco. — Não aceito palavrões na MINHA casa! — Dane-se! — explodo, o calor da raiva queimando minhas veias. — Essa casa também é minha! Minha boca também é! Eu falo como quiser! Minhas palavras são explosivas, mas a reação deles é instantânea. Mylene puxa Emily para o andar de cima, longe da briga, e a porta se fecha. O silêncio repentino só aumenta o peso do confronto. Minha mãe, Alessandra, entra logo atrás, seguida de Rute. Ela encara a cena, olhos arregalados, coração visivelmente apertado. — O que está acontecendo aqui?! — sua voz, misto de fúria e desespero, ecoa pelo ambiente. — Seu filho deu para me responder agora! — meu pai grita, raiva crua em seus olhos. — Meu filho, não. Seu também. Ou por acaso eu o criei sozinha?! — minha mãe rebate, com firmeza, mas há uma ponta de dor em sua voz. — Não fez, mas criou sozinha por quatro anos! Anos que não educou direito! — ele grita, cada palavra pesada como tijolo caindo. Ela encolhe-se, olhos marejados, tentando absorver a dor do ataque. Sinto minha raiva explodir como um vulcão. Quem ele pensa que é para usar o passado dela como arma? Meu corpo treme, minhas mãos se fecham em punhos. — Quem você pensa que é para gritar com a minha mãe?! — avanço, empurrando-o. Ele revida. O impacto físico é mínimo comparado à explosão emocional que nos consome. — Alex, por favor… — minha mãe tenta intervir, segurando meu braço. Sinto sua respiração acelerada, sinto suas lágrimas pingando em meu ombro. A visão dela me acalma, mas não o suficiente para apagar a fúria. — Você puxou a infertilidade da sua mãe! — meu pai grita, sua voz carregada de rancor antigo. — Ambos deixam o orgulho acima de tudo! — Ele respira fundo, exasperado, e estende a mão: — Me dá a chave do carro. O chão parece abrir sob meus pés. O carro… minha liberdade… nas mãos dele. — O quê!? — minha voz falha, incredulidade me paralisa. — Me dá a chave do carro! — repete, firme, autoritário. — Não! — balança a cabeça, minha raiva colidindo com a realidade. Minha mãe segura meu ombro, seu toque é quase desesperado. Ela encosta o rosto no meu peito, lágrimas quentes pingando em minha camisa. — Dá logo, filho… — sussurra, quase em prantos. Sua voz frágil me corta. Respiro fundo e, com um nó na garganta, retiro a chave do bolso e entrego a ele. — O celular também. — acrescenta, sem olhar, e eu o entrego, minha derrota sendo confirmada. — Vai querer minhas roupas também? — pergunto, ironia na voz, mas derrotado por dentro. Ela apenas assente levemente. — Você vai ficar sem mesada. — ele diz, pausadamente, cada palavra carregada de determinação. — Não irei mais pagar sua faculdade. Se quiser estudar, trabalhe e pague. Há uma vaga na minha empresa, se quiser. O mundo desaba sobre mim. Não há raiva, apenas uma mistura de choque e impotência. Baixo a cabeça, incapaz de encarar o olhar frio de Jonas. — Só isso? — murmuro, quase sem voz. — Não. — sua resposta é fria, inabalável. — Você vai ter que procurar uma casa para morar. Vai ter que se virar e sustentar a si mesmo. O chão parece se abrir, e sinto o mundo girar de maneira c***l. Minha mãe arregala os olhos, horror e desespero estampados no rosto. Ela tenta falar, mas a voz falha. — Jonas, o que você está fazendo? — pergunta, em pânico. — Expulsando nosso filho de casa. — diz, firme, implacável. Sem qualquer hesitação. O nó na garganta aperta. Sinto meus joelhos quase cederem. O mundo que eu conhecia, a base de toda a minha vida, desmorona diante dos meus olhos. Cada respiração é pesada, dolorosa, enquanto absorvo a realidade. Sento-me no sofá, mãos nos olhos, tentando organizar pensamentos que se recusam a se alinhar. A raiva ainda pulsa, mas a realidade é esmagadora. A segurança que eu tinha evaporou, e não há caminho de volta. Minha mãe se aproxima, senta ao meu lado, mãos trêmulas em meu ombro. Sinto seu coração acelerado, lágrimas deslizando por sua face. É o único consolo, mas também um lembrete c***l de que nada pode ser mudado naquele instante. Meu pai dá as costas, firme, respirando como se tivesse completado uma missão. Cada detalhe dele me provoca repulsa e medo. Ele não se importa com o colapso que causou, apenas com a manutenção do seu controle. — E Amanda… — murmuro, quase esquecendo de mim mesmo. Ela nem chegou ainda, e minha mente já corre para ela. Um pensamento que me distrai da dor, mas que também me tortura. O dia continua, mas tudo parece cinza, pesado, lento. Cada movimento é difícil. Até respirar se torna um esforço. Não há motivação, só um vazio que se instala no peito. Meu mundo mudou em minutos. A sensação de poder que eu tinha evaporou, substituída por uma responsabilidade que nunca pedi, nunca desejei. A casa, a faculdade, a mesada — tudo perdido em uma tarde. Mas mesmo na tempestade, uma fagulha insiste em existir: Amanda. O pensamento dela ilumina um canto escuro da minha mente. Seu rosto, o sorriso rápido, a maneira como me olha… tudo me lembra de algo que ainda pode ser humano, caloroso, vivo. E mesmo com todo o caos, não consigo evitar pensar nela. A babá, que deveria ser apenas alguém a mais na casa, tornou-se um ponto de referência, uma distração perigosa que me mantém à tona. Sento-me, cabeça entre as mãos, respirando pesado, tentando controlar a raiva e a dor, tentando encontrar um fio de esperança. A vida mudou de repente, mas ainda resta algo pelo que vale a pena lutar. E Amanda… Amanda será meu refúgio ou apenas mais uma complicação nesse mundo que insiste em me derrubar?
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