Chego um pouco atrasada ao trabalho, mas só um pouco mesmo. Talvez dez minutos, talvez quinze. Nada que pareça grave para quem olha de fora, mas para mim cada minuto de atraso parece uma eternidade. As ruas estavam mais cheias do que eu esperava, carros buzinando sem parar, pessoas andando apressadas, o ar da manhã pesado com aquela mistura de poluição e pressa que parece tomar conta da cidade durante a semana. Tento me convencer de que não é culpa minha, mas a ansiedade de voltar para a casa dos Miller me fez perder a concentração no trânsito. Peguei o caminho errado, hesitei em algumas curvas e, quando percebi, já estava atrasada.
Respiro fundo antes de subir os degraus da varanda. Seguro firme na alça da bolsa, como se o objeto fosse me dar alguma coragem extra. Toco a campainha, uma, duas, três vezes. O tempo parece se arrastar como uma eternidade, cada segundo ampliado por uma inquietação que não sei nomear. Um arrepio percorre minhas costas, como se o ar ali fosse diferente, carregado de algo que não consigo explicar. Finalmente, a porta se abre.
Alex está ali, parado na soleira, e por um instante quase não o reconheço. Seus olhos estão vermelhos, como se tivesse chorado por horas; o rosto inchado, marcado por olheiras profundas que denunciam noites sem sono. A expressão dele é um retrato vivo de exaustão e frustração, e quando me fita, tenho a impressão de que aquele olhar carrega o peso do mundo inteiro.
— Bom… — tento começar, minha voz falha, mas ele não me deixa terminar.
— Entra. — diz com a voz rouca, quase quebrada. A falta de paciência é evidente, e a irritação é igual, se não pior, do que a de ontem. Há algo nele que me faz querer recuar, mas minhas pernas não obedecem.
Entro na casa sem questioná-lo, engolindo em seco. O ar dentro parece ainda mais pesado do que o do lado de fora, como se as paredes guardassem segredos dolorosos. Reconheço os móveis familiares — o sofá bege com uma manta azul dobrada no encosto, a estante com alguns porta-retratos e livros, as cortinas ligeiramente abertas deixando a luz cinzenta da manhã atravessar. Mas tudo me parece diferente, como se a casa tivesse mudado de atmosfera. Não sei se é a energia dele que transformou o ambiente ou se sou eu que estou mais sensível hoje.
Ele não me cumprimenta, não pergunta nada. Apenas dá um sorriso curto, quase irônico, e se afasta, indo em direção à cozinha. Fico ali, parada no meio da sala de estar, sem saber o que fazer. Seguro a alça da bolsa com mais força e respiro fundo, tentando decidir se devo segui-lo ou esperar. O coração bate rápido, e a sensação de deslocamento me sufoca. Sinto como se tivesse invadido um território que não me pertence, mesmo sabendo que estou aqui a trabalho. Afinal, eu não sou da família, não sou amiga íntima. Sou apenas a babá. A minha função é cuidar de Emily, brincar com ela, alimentá-la, garantir que esteja segura. Não me cabe me envolver nos dramas que rondam essa casa.
Viro de costas, pensando seriamente em ir direto para o quarto de Emily, ou talvez até voltar para casa, quando a voz dele me alcança. Firme, mas embargada.
— Amanda, vem aqui por favor.
Congelo no lugar. A voz de Alex é uma mistura estranha de choro contido e raiva acumulada. Algo em seu tom desperta uma pontada de preocupação no meu peito, algo que não consigo ignorar. Meus pés, antes hesitantes, se movem quase sozinhos, e caminho até a cozinha sem pronunciar palavra.
Ele está parado no meio do cômodo, a cabeça baixa, os punhos cerrados sobre a mesa como se estivesse lutando contra si mesmo. A cozinha, iluminada pela luz fria que entra pela janela, parece ainda mais silenciosa do que o normal. Paro diante dele e espero. Ele ergue o olhar para mim, e por um instante sinto que seus olhos atravessam cada camada de mim. Há dor ali, uma dor tão nítida que é quase palpável. Ele me fita como se pedisse ajuda sem saber como, como se buscasse em mim uma resposta que eu não posso dar.
De repente, sem aviso, Alex me puxa para um abraço. Forte, desesperado, intenso. Sinto o calor do seu corpo contra o meu, o peso da sua cabeça encostada no meu ombro, e logo as lágrimas dele começam a molhar minha blusa. Hesito por um instante, mas logo envolvo meus braços ao redor dele, apertando-o como se quisesse, de alguma forma, colar os pedaços quebrados que ele carrega. Quero que ele sinta que não está sozinho, mesmo que eu não saiba como ajudar de verdade.
— O que aconteceu? — pergunto, minha voz quase um sussurro, preocupada, mas sem coragem de afastá-lo.
Ele ergue o rosto e me encara, os olhos brilhando de lágrimas.
— Só me abraça, por favor. Não faça perguntas. — diz, a voz firme e vulnerável ao mesmo tempo. Me aperta mais, como se tivesse medo de que eu fosse desaparecer no próximo segundo.
Confirmo com a cabeça, sem mais palavras. Me entrego ao abraço como se fosse o último da minha vida. Sinto seu corpo tremer contra o meu, o choro contido que ele tenta reprimir, a respiração irregular que bate contra meu pescoço. É impossível não ser afetada. A cada segundo, a dor dele parece escorrer para dentro de mim, e por alguns instantes esqueço de tudo — inclusive de Emily, da minha função, da minha própria história. Tudo se reduz a esse abraço.
Ele vai me soltando aos poucos, com relutância. Seus braços ainda me seguram, mas não como antes: agora ele me mantém à distância, como se precisasse olhar para mim. E quando o faz, sinto meu corpo estremecer. Seus olhos se fixam nos meus, intensos, carregados de algo que não sei definir. Desviam, então, para a minha boca. Um arrepio percorre minha espinha, e meu coração dispara em um ritmo quase doloroso.
Ele se inclina levemente e me dá um selinho rápido. Tão breve que poderia ser confundido com um acidente, mas a intenção está clara. Quando se afasta, vejo em seu olhar um brilho diferente. Não é confusão, não é arrependimento. É certeza.
— Dessa vez não foi um acidente. — diz, sua mão tocando meu rosto com delicadeza. — Dessa vez eu quis.
As palavras ficam ecoando dentro de mim, mesmo quando ele se afasta e sai da cozinha, me deixando sozinha. Permaneço parada, sem conseguir mover um músculo. A cozinha silenciosa parece girar ao meu redor, e meu corpo inteiro vibra como se tivesse sido atingido por uma corrente elétrica.
Meu coração bate tão forte que penso que vai rasgar meu peito. Que efeito é esse que Alex me causa? Por que cada gesto dele me desestabiliza tanto? Sinto-me viva de uma forma que não sentia há anos, mas também em pânico, tomada por um turbilhão de emoções contraditórias.
Há dois anos, minha vida, meus sonhos e meus sorrisos foram arrancados de mim por um homem. Um único homem foi suficiente para destruir tudo o que eu era, para me deixar com cicatrizes que não cicatrizam. Desde então, o trauma me persegue como uma sombra constante. Os pesadelos me acordam nas madrugadas, o medo me paralisa em situações banais, e os arrepios que sinto não são de prazer, mas de alerta, de sobrevivência. A simples presença masculina sempre foi suficiente para me causar náusea, vontade de fugir, gritar, me esconder. É um reflexo automático, uma defesa que meu corpo construiu contra qualquer possibilidade de reviver aquela noite.
Mas com Alex… com Alex é diferente. É como se meu corpo não soubesse como reagir. O medo ainda está lá, sim, latejando nas minhas veias, me lembrando de tudo que aconteceu. Mas junto com ele existe algo novo. Uma curiosidade estranha, uma sensação de segurança que não consigo explicar. Um desejo tímido, quase proibido, que me faz querer permanecer onde deveria sair correndo.
Não era para ser assim. Não era para eu sentir isso. Eu não deveria querer estar perto de um homem, não depois de tudo o que passei. Mas quando estou com ele, algo dentro de mim insiste em se reerguer, como se minha alma, cansada de tanto medo, estivesse tentando respirar novamente.
Meu Deus, o que significa esse nó no meu estômago? Por que Alex, justamente ele, é o único que não me faz querer correr? A dor dele se tornou minha dor, e aquele beijo — por mais breve e simples que tenha sido — reacendeu em mim não apenas uma chama de emoção, mas também os fantasmas do passado que eu jurei ter enterrado.
E agora, sozinha na cozinha silenciosa, percebo que não tenho mais certeza de nada.