Capítulo Onze

1556 Words
Alex Abraçar a Amanda foi, sem dúvida, a melhor decisão que já tomei em toda a minha vida. Depois de toda a confusão com meu pai, da discussão com Jonas e da suspensão que parecia não ter fim, sentir o calor dela envolvendo-me foi como encontrar abrigo no meio de uma tempestade que me engolia há semanas. O mundo parecia se comprimir em torno de nós, como se cada respiração lenta e compartilhada diminuísse a tensão que me sufocava desde que Jonas decidiu me empurrar para fora do meu conforto, para me “forçar a amadurecer” à força. Quando finalmente encostei meus lábios nos dela, mesmo que fosse apenas um selinho rápido, senti a suavidade de sua pele e o choque que percorreu todo o meu corpo. Naquele instante, todas as minhas preocupações se dissolveram, e o tempo parecia ter decidido fazer uma pausa apenas para nós dois. Era como se o universo tivesse criado aquele momento exclusivamente para que eu pudesse respirar sem o peso do mundo nos ombros. Mas, como sempre, a realidade voltou com brutalidade. Assim que Amanda se afastou, fugindo com aquela pressa quase desesperada, o quarto que antes era um refúgio passou a parecer menor, mais sufocante, repleto das sombras do que estava por vir. Onde eu iria morar? Como pagaria a faculdade? Onde conseguiria trabalhar? Todas essas perguntas giravam incessantemente em minha cabeça, cada uma mais angustiante do que a outra, me apertando o peito de maneira quase física. Senti uma raiva ardente de meu pai, de Jonas, que parecia não perceber o quanto suas atitudes me despedaçavam. Ele dizia que queria que eu aprendesse a ser responsável, mas precisava me jogar nesse caos absoluto para “me transformar em homem”? Claro que não! Só conseguia enxergar nele a frustração de uma vida inteira sendo despejada sobre mim, e eu me via incapaz de me defender desse turbilhão emocional. Uma batida suave na porta me fez pular levemente, tirando-me do transe. — Alex, sua mãe está te chamando para almoçar. — Era Rute, nossa governanta, com aquela voz sempre serena e cuidadosa. Mal percebi que o dia havia avançado tanto. O almoço chegou quase despercebido, e eu ainda me encontrava atolado nos meus pensamentos. — Já vou. — Respondi, ainda deitado, sem muita vontade de sair do meu mundo de angústia e confusão. Levantei-me com um suspiro pesado e caminhei até a sala de jantar. Ao abrir a porta, a visão me atingiu como uma mistura de alívio e tensão: Emily e Mylene me olhavam com aquela mistura de pena e expectativa; minha mãe, com preocupação; Jonas, com a frieza que parecia capaz de cortar metal; e Amanda… bem, ela me olhava com uma curiosidade tímida, quase cautelosa, que me desarmava por completo. — Oi. — Amanda disse, acenando de forma contida, com um leve rubor colorindo suas bochechas. — Oi. — Respondi, acenando também, tentando parecer o Alex de sempre, aquele que ainda se segurava mesmo no caos. Fiz uma piscadinha para ela, e seu sorriso tímido conseguiu, por um breve momento, me afastar da tensão que pairava na sala. Jonas, percebendo minha distração, resolveu aumentar a pressão. — Dá para vir comer? Só estávamos esperando você! — Sua voz grossa reverberou pelo ambiente. — Estou indo, Jonas. — Respondi, fitando-o com uma raiva contida. O silêncio se tornou cortante, quase palpável, como uma corda prestes a arrebentar. — Jonas, não. Pai. — A raiva cresceu dentro de mim, e eu não consegui me conter. Caminhei até a mesa e puxei uma cadeira, o som metálico arrastando no chão parecia um trovão, capturando a atenção de todos. Cada olhar parecia medir a tensão entre nós, cada respiração pesada carregava a expectativa de um confronto. — Desculpe, mas não tenho pai. — As palavras escaparam antes que eu pudesse refletir sobre elas. Vi Jonas apertar o copo em sua mão, e um sorriso quase involuntário se formou no meu rosto. Ele estava nervoso, e isso me trouxe uma satisfação estranha, quase proibida. — Saia da mesa e vá comer no seu quarto! — Sua voz baixa e controlada carregava uma fúria tão intensa que parecia capaz de cortar vidro. — Se for para não olhar mais para a sua cara, eu vou com muito prazer, “papai”. — Levantei-me, sentindo o poder da minha própria audácia. Passei por Amanda, fazendo um gesto com a mão para que ela me acompanhasse. Ela entendeu, assentindo, e só o fato de ela me seguir já me dava forças para enfrentar qualquer coisa. Subimos os degraus até meu quarto. Cada passo parecia uma declaração silenciosa de independência, um aviso de que eu não cederia. — Eu vou procurar meu celular que deixei lá em cima. — Amanda disse, a ansiedade evidente na sua voz, mas seus passos rápidos mostravam que ela não hesitou. — Vem. — Segurei sua mão, sentindo a suavidade e o calor da pele dela. Fechei a porta e a tranquei, querendo preservar aquele momento longe de qualquer interrupção. Sentamo-nos na cama, e fiz um gesto para que ela se aproximasse. — Amanhã eu vou embora desta casa, e… sei que não vou te ver mais. — Minha voz falhou, carregada da primeira admissão real do que estava acontecendo. — Antes disso, quero fazer algo que venho desejando desde a primeira vez que te vi. — Passei a mão pelo rosto dela, explorando cada curva, cada detalhe da sua suavidade, como se pudesse memorizar aquele instante. — O q-quê? — Ela sussurrou, o medo evidente em sua voz. — Te beijar. Mas não um selinho qualquer. — Seus olhos se arregalaram. — Posso? — N-não. — Ela se levantou abruptamente, caminhando em direção à porta, e o coração me apertou. — Mas por quê? — Perguntei, confuso e magoado, a rejeição queimando mais que qualquer discussão com meu pai. — É… que é… que… esquece. — Ela destrancou a porta e saiu correndo, quase voando pelos corredores. Sentei-me na cama, passando as mãos pelos cabelos. A dor no peito rapidamente se transformou em fúria. O que eu fiz de errado? Por que me preocupo tanto com ela? Eu, Alex, que nunca me importei verdadeiramente com ninguém além de mim e das minhas irmãs, agora me sentia completamente vulnerável. Peguei um objeto qualquer da cama e o arremessei contra a parede, quebrando-o sem remorso. — Que p***a! — Gritei, caído na cama, cobrindo o rosto com as mãos. A raiva, a frustração e a tristeza se misturavam em um turbilhão que parecia não ter fim. Minutos depois, batidas suaves na porta interromperam meu colapso silencioso. — Entra. — Minha voz saiu abafada. Minha mãe entrou com uma bandeja, colocando um prato de comida sobre a cama. — Oi, amor. — Ela sorriu, mas seus olhos denunciavam a preocupação que tentava disfarçar. — Mãe, não estou no clima. — Disse, sentando-me de maneira desanimada. — Come um pouco. — Ela insistiu, empurrando a bandeja levemente para mais perto de mim. Assenti e comecei a comer, sentindo uma estranha sensação de conforto no sabor da comida, como se aquela simples ação pudesse amenizar a tempestade dentro de mim. — Não ligue para seu pai, ele tem um gênio forte, às vezes. — Ela alisou a parte de trás da minha cabeça, tentando acalmar meu espírito rebelde. — Ele não é meu pai! — Retribuí, segurando o garfo com força. — Pare de falar desse homem, eu não quero ouvir nada sobre ele! Ela assentiu, lágrimas ameaçando cair. — Posso te ajudar a procurar um apartamento. — Tentou manter a calma, oferecendo uma solução prática. — Não se preocupe, mãe, posso fazer isso. — Coloquei a mão no ombro dela. Uma lágrima escorreu, e a vi morder o lábio, tentando não demonstrar vulnerabilidade. — Não chore, mãe, eu não vou muito longe. — Sequei a lágrima e a abracei com força. — Eu te amo, filho. — Ela disse, afastando-se e beijando minha testa com ternura. — Também te amo, mãe. — Repeti o gesto, sentindo que, apesar da bagunça que sempre foi nossa família, o amor dela permanecia inabalável. E era esse amor que me dava forças para enfrentar tudo que ainda estava por vir, mesmo que o caminho à frente parecesse incerto e cheio de obstáculos. O silêncio que se seguiu foi quase reconfortante, cheio de pequenas respirações compartilhadas, um momento de pausa em meio ao caos. Olhei para a comida que ainda repousava na bandeja, lembrando-me de que, apesar de tudo, ainda havia momentos simples que valiam a pena. O mundo lá fora poderia estar desmoronando, mas naquele quarto, naquele instante, sentia-me, pela primeira vez em dias, um pouco inteiro. A sensação era breve, efêmera, mas suficiente para me dar coragem. Porque, por mais que tudo estivesse desmoronando, eu tinha Amanda, minha mãe, e a certeza de que, apesar de tudo, eu ainda podia lutar pelo que importava. E isso, de alguma forma, era o começo de algo maior, uma pequena fagulha de esperança no meio da tempestade que parecia interminável. Sentado na cama, com Amanda ainda próxima, percebi que aquele era o momento de decidir quem eu realmente queria ser, longe das expectativas e frustrações que me perseguiam. E, pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez pudesse dar um passo à frente sem medo.
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