Capítulo Treze

1390 Words
Alex Estou nas ruas há horas, percorrendo quarteirões, visitando apartamentos, batendo em portas, fazendo ligações, tentando algo que não parece existir para mim. O sol já se pôs, e as luzes da cidade começaram a brilhar, iluminando ruas que antes pareciam um playground. Agora, porém, cada prédio, cada porta fechada, cada interfone silencioso, transforma-se em um labirinto sem saída. A cidade inteira parece me dizer: “não, você não pertence aqui”. É estranho como o mesmo lugar que antes era meu território seguro agora se apresenta como um desafio impossível. A maioria dos apartamentos que visitei já está ocupada, ou os preços estão além do que posso pagar sozinho. Os poucos que restam são pequenos demais, escuros, apertados, ou caros demais para a realidade que estou prestes a encarar. A sensação é um soco no estômago, como se a vida estivesse finalmente me lembrando de que conforto e privilégio não duram para sempre. Eu, que sempre tive tudo sem esforço, agora estou reduzido a alguém que m*l consegue encontrar um teto. Cada “não” que ouço, cada porta que se fecha diante dos meus olhos, aumenta a frustração e a raiva que carrego por dentro. Meu pai, Jonas, me jogou no mundo sem proteção, e eu não estou pronto. O orgulho que senti ontem, de me achar invencível, dissolve-se em frustração e medo. Quando finalmente volto para casa, o peso da derrota me acompanha a cada passo. A casa está silenciosa, quase sufocante. Apenas a luz da cozinha está acesa, e como um ímã, meus pés me conduzem até lá. Preciso de algo para acalmar meu coração, para abafar o sentimento esmagador de fracasso. Vou até a pia e pego um copo d’água, respirando fundo. Mas antes que eu possa beber, Jonas entra na cozinha. Ele me encara com um olhar duro, quase frio, difícil de decifrar. — Consegui um apartamento para você. — diz, direto, puxando uma cadeira e sentando-se como se estivesse em um tribunal. O copo que estava prestes a levar à boca permanece suspenso no ar, quase queimando minhas mãos. A raiva me consome. Como ele se atreve? Ele me expulsou de casa, me colocou na rua para me virar sozinho, me forçou a enfrentar o mundo c***l, e agora, com um gesto de aparente bondade, quer me dar um apartamento? Não é bondade. É apenas outra forma de controle, outro lembrete de que tudo depende dele, que ele pode quebrar e remendar minha vida ao mesmo tempo. — Pena que não pedi sua ajuda. — digo, a voz carregada de sarcasmo e amargura, tentando manter a compostura, mas falhando. — Não me importa se pediu ou não. Eu sou seu pai e fiz o favor de conseguir a porcaria do apartamento. — Ele bate a mão na mesa, e o estrondo reverbera pela cozinha, fazendo meus ouvidos latejarem. O susto me faz recuar. Ele não parece mais meu pai; parece uma força de natureza que decide punir e premiar ao mesmo tempo. — Jonas, até quando vai tratar o garoto assim?! — A voz da minha mãe corta o ar. Ela se aproxima, olhos marejados, expressão de dor e mágoa. — Até ele virar um homem! — Jonas se levanta, a voz carregada de ódio. O ar na cozinha parece se comprimir, tornando cada respiração mais difícil. — Eu já sou um… — tento dizer, mas ele me corta, sem me dar chance de terminar. — Um homem irresponsável, sem juízo e sem consciência! Isso você chama de homem?! — Ele me encara, e cada palavra atinge-me como um golpe físico. Não é apenas uma repreensão; é uma descrição precisa de cada falha que ele acha imperdoável em mim. Meus olhos se enchem de lágrimas. A raiva se transforma em dor, e a dor em vergonha profunda. Encaro Jonas por alguns segundos, mas não consigo manter o olhar. Ele tem razão. Eu não sou um homem. Sou apenas um garoto mimado que nunca soube o peso do mundo, que nunca entendeu que privilégio não substitui responsabilidade. — Ótimo, pelo menos você sabe que está errado. — Ele se vira de costas, encarando minha mãe, que chora silenciosamente, imóvel. — Jonas, não faça… — Ela tenta protestar, mas ele a interrompe e volta a me encarar. — Arrume suas coisas. Você vai se mudar amanhã. — Ele sai da cozinha sem olhar para trás, deixando um silêncio pesado. Minha mãe cobre o rosto com as mãos, incapaz de conter o choro. Sinto uma pontada de culpa e impotência. Me aproximo, envolvendo-a em um abraço firme. Ela é tudo que me resta agora, o único refúgio emocional que ainda posso tocar. — Filho, por favor, não… — Ela tenta falar, mas n**o com a cabeça, consciente de que qualquer palavra é inútil. — Tenho que ir arrumar minhas coisas, mãe. — Digo, beijando sua testa, e sigo para meu quarto. O caminho parece interminável, cada passo carregado de lembranças, cada respiração um adeus à vida que conheci até agora. _________________________________________________________ Dia Seguinte O sol da manhã atravessa a janela, e estou no porta-malas do carro da minha mãe, arrumando minhas malas. Ela irá me levar, já que Jonas pegou meu carro. Olho para o carro vazio, e sinto um nó na garganta. É o fim de uma era, o fim da minha vida antiga. A sensação de perda é quase física, como se cada objeto deixado para trás fosse arrancado de mim. Enquanto coloco a última mala no porta-malas, sinto o peso dela em meus braços como nunca senti antes. É a última mala, a última vez que vou fechar a porta desse quarto, a última vez que vou atravessar aquele corredor que carregava tantos momentos da minha vida. Estou prestes a fechar a porta quando vejo Amanda parada no corredor. Ela me encara, olhos fixos na mala que seguro, expressão de dor pura, como se cada lágrima fosse uma faca atravessando meu peito. — O… que é isso? Para onde está indo? — Sua voz sai trêmula, carregada de medo e desespero. — Eu disse que iria embora. — Respondo, aproximando-me dela, tentando amenizar a dor que carrego em meus ombros. — Eu… não quero que você vá. — Ela me surpreende com um abraço apertado, suas mãos envolvendo-me com firmeza, transmitindo calor e segurança. Coloco a mala no chão e envolvo um braço em seu corpo, enquanto o outro acaricia sua cabeça. O cheiro do cabelo dela é familiar e reconfortante, e o calor do abraço aplaca a turbulência que sinto por dentro. Por alguns segundos, esqueço do mundo: do meu pai, da minha mãe, da faculdade, do carro, das responsabilidades que me aguardam. Só existimos nós dois naquele momento. — Eu também não queria ir, mas preciso. — Digo, encarando seu rosto molhado pelas lágrimas. A tristeza dela reflete a minha própria. — Vou sentir saudade. — Ela murmura timidamente. Dou um leve sorriso, colocando a mão em seu rosto. — Eu também vou… — Não termino a frase, aproximando meus lábios dos seus. — Linda. — Finalmente, o beijo acontece. Não é um selinho, nem um beijo apressado. É um beijo profundo, lento, carregado de emoção, de dor e de promessa. Sinto a maciez de seus lábios, o gosto salgado das lágrimas, a eletricidade que percorre meu corpo. É um beijo de despedida, mas também um beijo de esperança e de amor. Por alguns instantes, o mundo desaparece: nada mais importa além da intensidade do momento. O tempo parece esticar, cada segundo prolongando a intensidade do beijo. É o mais importante da minha vida. Ao nos separarmos, sinto o calor dela ainda em mim, a lembrança do abraço, do toque, do cheiro, e a certeza de que, apesar da dor, ainda existe algo pelo que vale a pena lutar. O futuro é incerto, a vida longe do conforto familiar é dura e implacável, mas por agora, entre lágrimas e suspiros, há apenas nós dois, e o peso silencioso do nosso amor. Cada despedida carrega dentro de si a promessa de recomeço. Cada passo que dou em direção à nova vida é pesado, mas inevitável. Eu posso não estar pronto para o mundo, mas não posso voltar atrás. O que importa agora é aprender, sobreviver e, quem sabe, um dia, encontrar novamente a paz que o amor de Amanda me dá.
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