Amanda
Não consigo acreditar que ele foi embora. Cada detalhe daquele adeus ainda pulsa na minha memória como uma dor viva. O pior de tudo não foi a partida, mas o beijo que ele me deu antes de desaparecer. Um beijo inesperado, cheio de intensidade, e que me fez esquecer, por alguns segundos, todas as barreiras que eu tentava manter entre nós. Eu, que me esforcei tanto para manter a distância, me entreguei a um momento que parecia eterno, e agora pago o preço de ter me permitido sentir.
Meus pés me levam quase que sozinhos até a janela do andar de cima. Olho para a rua, para o carro da mãe dele, que se afasta lentamente. Vejo a silhueta de sua cabeça encostada na vidraça, olhando para mim, como se quisesse me levar junto. Uma parte de mim grita, desesperada, pedindo que ele desça, que volte, que me tire daqui, que mude o rumo da história com apenas um gesto. Mas ele não desce. O carro começa a se mover com mais firmeza e, em questão de segundos, se torna apenas um ponto distante. E logo, desaparece completamente da minha vista.
Uma lágrima escapa e desliza pelo meu rosto. Sinto um aperto no peito que parece querer esmagar meu coração. É estranho, mas estar perto de Alex me faz sentir… segura. Completa. Ele tem essa capacidade de tornar tudo mais leve, de preencher os espaços vazios que eu nem sabia que existiam em mim. E agora, sem ele, sinto como se meu próprio coração tivesse perdido o ritmo. Ele se tornou parte de mim, e agora há um vazio que ecoa em cada batida.
— Amanda… — A voz de Emily surge por trás, suave e trêmula, arrancando-me dos meus pensamentos. Ela corre até mim e me envolve em um abraço apertado, suas lágrimas quentes molhando meu ombro. — Meu… meu irmão foi embora para sempre.
Sinto meu próprio corpo tremer com o choro dela, a dor no peito se misturando à minha. Tento manter a calma, mas minhas mãos tremem, meus lábios sentem um gosto estranho de desespero contido.
— Calma, amor, ele não foi embora para sempre. — Tento transmitir segurança, mas minhas próprias palavras soam frágeis, quase vazias. Eu mesma não sei se acredito nelas.
Emily afasta-se um pouco, os olhos grandes e cheios de medo cravados nos meus. — E se eu nunca mais voltar a vê-lo?
— Você vai, princesa. Nós vamos vê-lo de novo, prometo. — Beijo sua testa, tentando transmitir a confiança que não sinto. Mas, no fundo, minha mente se pergunta: será mesmo que vou voltar a ver aqueles olhos que me deixaram sem ar?
O silêncio que se instala é pesado, cheio de lembranças e de sentimentos que se recusam a ser contidos. A noite cai lá fora, e as luzes da rua m*l iluminam o quarto, mas ainda assim, não conseguem apagar a sensação de perda.
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Mais tarde
Quando chego em casa, sou recebida pelo caos animado de Ana, minha colega de quarto e melhor amiga. Ela parece uma explosão de energia, pulando pela sala com um sorriso que ilumina até os cantos mais escuros do ambiente.
— O que foi? — pergunto, jogando minha bolsa no sofá com desânimo. Minha mente ainda está presa na imagem de Alex se afastando, e a energia de Ana me parece distante, quase irritante.
— Amiga, se empolga! Você não vai acreditar! — Ela pula de novo, como se estivesse tentando transmitir toda a excitação do mundo em movimentos curtos e frenéticos.
Dou-lhe um olhar que diz claramente: “fala logo!”.
— Temos um novo vizinho. Um muito gato, por sinal! — Ana abana a mão diante do rosto, como se tentasse espantar a própria ansiedade.
— Legal. — Minha resposta é monótona, enquanto me dirijo à cozinha para pegar um copo d’água. A notícia de um vizinho novo e “gato” não tem efeito algum sobre mim.
Ela vem atrás, percebendo meu estado. — O que foi, Amanda? — Sua voz fica mais suave, mais séria. Ana me conhece bem demais para ignorar meu silêncio pesado.
— Alex foi embora. — As palavras saem com dificuldade, e sinto a dor no peito se transformar em um nó apertado na garganta. Já falei tantas vezes de Alex para ela, sobre como ele me faz sentir paz e segurança, sobre como a presença dele dissolve o medo que sempre me acompanha perto de homens. Ela é a única pessoa que sabe o quanto aquele garoto mexeu comigo.
— Só porque ele foi embora não quer dizer que você não o verá outra vez. — Ana sorri, tentando acender uma chama de esperança no meu coração abatido.
— Será que vou vê-lo de novo? — Sussurro, apoiando a cabeça na mão, os cotovelos na pia. — Eu acho que sinto algo por ele, mas não sei… — O peso das emoções me pressiona, esmagando cada pensamento racional.
— Isso que você está sentindo é amor. — Ana coloca a mão em meu ombro com ternura. — Não se assuste. É normal gostar e admirar alguém.
— Amor? — A palavra sai quase como um grito contido. — Eu nunca vou amar ninguém! Talvez gostar, mas amar, não. — Retiro a mão dela, e o medo me envolve. Cada lembrança do meu passado doloroso se mistura ao presente, trazendo uma sensação de pânico que eu pensava ter superado.
— Só porque um destruiu a sua vida, não quer dizer que os outros também vão! — A voz de Ana se torna firme, quase um comando. — Alex está te conquistando, você precisa aceitar isso. Aceitar ele!
— Vamos mudar de assunto. — Digo, afastando-me para a sala, tentando esconder a vulnerabilidade que me corrói por dentro.
— Não quero bater papo, mas adoraria bater um papo com o vizinho! — Ana se aproxima, agarrando meu braço e me puxando sem me dar chance de protestar. — Vamos!
Caminhamos pelo corredor, e ela me para abruptamente, os olhos brilhando de expectativa.
— Olha ele ali. — Sussurra, apontando discretamente para o fundo do corredor.
Vejo um garoto de costas, um pouco distante. Carrega uma mala que me parece estranhamente familiar — a mesma mala que Alex usou para guardar suas coisas no carro de sua mãe, a mesma que trouxe para a minha casa hoje mais cedo. E, para aumentar meu choque, ele veste exatamente a mesma roupa.
— Vou chamá-lo. — Antes que eu consiga protestar, Ana grita: — Ei, novo vizinho! Queremos dar as boas-vindas!
O garoto se vira. E meu mundo para.
O tempo desacelera. Cada batida do meu coração ecoa alto em meus ouvidos. Não pode ser ele. Meus olhos encontram os dele, e ele aperta o olhar, como se tentasse memorizar cada detalhe do meu rosto. E então, vejo seus lábios moverem-se, sussurrando meu nome, cheios de surpresa e reconhecimento.
— Amanda…? — A voz dele é uma mistura de espanto e alegria. E antes que eu possa reagir, ele corre em minha direção, e o sorriso em seu rosto ilumina tudo ao meu redor.
— A-alex… — Gaguejo, incapaz de encontrar palavras. Ele parece um fantasma que voltou para assombrar meu presente. Ou talvez seja um anjo que retorna para salvar meu coração em pedaços.
Meu peito se aperta de forma quase insuportável. Cada passo que ele dá em minha direção é uma explosão de emoções que eu não consigo controlar. A saudade, a alegria, o medo e a esperança se misturam em um turbilhão que ameaça me engolir.
Ele finalmente chega até mim, e tudo parece se encaixar por um instante: a distância, a espera, o vazio — tudo desaparece diante do calor da presença dele.
— Amanda… — Ele repete, mais baixo agora, e seu sorriso é a única coisa que consigo enxergar. Meu coração, antes despedaçado, parece renascer em suas mãos, e mesmo o medo que carrego há tanto tempo começa a ceder.
E naquele instante, eu percebo que talvez, só talvez, o retorno dele não seja um fantasma do passado, mas a chance de viver algo que eu jamais imaginei ser possível.