Capítulo 1 — O Mundo Depois da Morte.
A chuva batia contra as janelas do ônibus com tanta força que m*l era possível enxergar a estrada.
Eu mantinha a testa encostada no vidro, observando as gotas escorrerem pelo lado de fora e se misturarem umas às outras.
Era uma noite comum.
Ou, pelo menos, deveria ser.
O ônibus estava relativamente cheio. Algumas pessoas conversavam em voz baixa, outras mexiam no celular, e havia quem simplesmente dormisse apesar dos solavancos causados pela estrada molhada.
Eu estava voltando para casa depois de um dia cansativo.
Tudo o que eu queria era tomar um banho quente, colocar uma roupa confortável e dormir.
Nunca passou pela minha cabeça que aquela seria a última vez que eu veria o mundo moderno.
— Essa chuva está ficando cada vez pior... — uma senhora sentada algumas fileiras à frente comentou.
Olhei pela janela.
Ela tinha razão.
O céu estava completamente escuro. Relâmpagos iluminavam as nuvens de tempos em tempos, seguidos pelo estrondo distante dos trovões.
O motorista parecia estar com dificuldades para manter o ônibus na estrada.
O veículo balançava demais.
Algumas pessoas começaram a reclamar.
— Moço, não dá para diminuir um pouco?
Não houve resposta.
Franzi a testa.
Foi então que percebi algo estranho.
O motorista estava dirigindo rápido demais.
Muito rápido.
— Meu Deus...
Um carro apareceu de repente na pista contrária.
O motorista tentou desviar.
Tudo aconteceu rápido demais.
O ônibus derrapou.
Ouvi gritos.
Meu corpo foi jogado para frente.
Alguém bateu contra o banco ao meu lado.
Uma criança começou a chorar.
Os pneus perderam completamente o controle.
E então...
CRASH!
O som foi ensurdecedor.
O mundo girou.
Vidros quebraram.
Metal se retorceu.
Pessoas gritavam.
Eu senti uma dor terrível, mas nem consegui identificar de onde ela vinha.
Minha cabeça bateu contra alguma coisa.
A visão começou a ficar turva.
— Socorro!
— Alguém me ajuda!
— Meu Deus!
— Tem alguém vivo?!
As vozes ficaram distantes.
Eu tentei me mexer.
Não consegui.
Minha respiração ficou pesada.
O cheiro de combustível tomou conta do ar.
Então percebi algo ainda pior.
Eu não conseguia sentir minhas pernas.
— Eu... vou morrer?
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Eu não queria morrer.
Ainda tinha tanta coisa que queria fazer.
Tantas coisas que nem sequer tinha começado.
Minha visão ficou cada vez mais escura.
Foi quando ouvi uma voz.
Não vinha de nenhuma das pessoas dentro do ônibus.
Era uma voz calma.
Feminina.
E parecia estar dentro da minha cabeça.
[Conexão estabelecida.]
Meu coração pareceu parar.
— O quê?
[Alvo compatível localizado.]
Eu pisquei lentamente.
Talvez estivesse delirando.
Talvez fosse algum tipo de alucinação causada pelo acidente.
[Análise concluída.]
[Hospedeira selecionada.]
— Quem... quem está falando?
Ninguém respondeu.
Apenas aquela voz.
[Sistema Vinculativo de Conquista iniciando.]
Meu corpo ficou completamente imóvel.
[Transmigração autorizada.]
— Trans... migração?
Não consegui entender.
O som dos gritos ao meu redor estava desaparecendo.
Minha visão ficou preta.
A última coisa que ouvi antes de perder completamente a consciência foi:
[Boa sorte, hospedeira.]
---
—
A primeira coisa que senti foi frio.
Um frio úmido.
Meu rosto estava encostado em alguma coisa macia.
Abri os olhos lentamente.
Folhas.
Folhas verdes.
Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel.
Meu cérebro parecia incapaz de entender o que estava acontecendo.
Eu estava deitada no chão.
No meio de uma floresta.
— ...O quê?
Levantei a cabeça.
Galhos.
Árvores.
Mato.
Uma quantidade absurda de árvores.
Não havia estrada.
Não havia prédios.
Não havia carros.
Não havia postes.
Não havia absolutamente nada que lembrasse uma cidade.
Sentei-me rapidamente.
Meu coração começou a bater acelerado.
— Onde eu estou?
Olhei ao redor.
Nada.
Apenas floresta.
Uma floresta enorme, silenciosa e assustadora.
Levei as mãos ao corpo.
Eu estava inteira.
Sem ferimentos.
Sem sangue.
Sem dor.
— Isso não é possível...
Me levantei cambaleando.
Olhei para minhas roupas.
Eram as mesmas que estava usando no ônibus.
Meu celular estava no bolso.
Puxei o aparelho imediatamente.
A tela acendeu.
1% de bateria.
— Graças a Deus...
Toquei na tela.
Sem sinal.
— Não...
Tentei novamente.
Nada.
Abri o GPS.
Nada.
Internet.
Nada.
Ligações.
Nada.
— Calma. Calma...
Respirei fundo.
Talvez eu estivesse em alguma área rural.
Talvez o ônibus tivesse sofrido um acidente e alguém tivesse me levado para algum lugar.
Mas então uma lembrança atravessou minha mente.
O ônibus.
Os gritos.
O impacto.
O vidro quebrando.
Meu corpo preso.
Aquela voz.
Minha mão começou a tremer.
— Não...
Olhei para o céu entre as árvores.
— Eu estava morrendo.
O silêncio respondeu.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
— Eu estava morrendo...
Passei a mão pelos cabelos.
Não fazia sentido.
Se eu realmente tivesse sobrevivido ao acidente, alguém deveria ter chamado uma ambulância.
Eu deveria estar em um hospital.
Não no meio de uma floresta.
Foi então que ouvi um som.
Toc.
Congelei.
Toc... toc...
Alguma coisa estava se movendo atrás das árvores.
Meu coração acelerou.
— Tem alguém aí?
Nada.
Segurei a respiração.
Um pequeno animal saiu de trás de um arbusto e atravessou o caminho.
Soltei o ar.
— É só um animal...
Mas aquilo não parecia exatamente com nenhum animal que eu conhecesse.
Era maior do que um cachorro, tinha uma pelagem espessa e uma aparência quase selvagem.
Ele olhou para mim durante alguns segundos.
Então desapareceu entre as árvores.
Eu engoli em seco.
— Preciso encontrar pessoas.
Se existisse uma vila por perto, talvez alguém pudesse me ajudar.
Comecei a andar.
Não sabia para onde estava indo.
Apenas escolhi uma direção e continuei.
A floresta parecia não ter fim.
Depois de algum tempo, minhas pernas começaram a doer.
Eu estava com sede.
Com fome.
E cada som fazia meu coração disparar.
Até que senti um cheiro.
Fumaça.
Parei.
— Fumaça...
Talvez houvesse alguém por perto.
Segui o cheiro com cuidado.
Pouco depois, as árvores começaram a ficar menos densas.
Escondi-me atrás de um tronco.
E vi.
Uma vila.
Pequena.
Muito pequena.
Havia várias cabanas de madeira espalhadas pela região, algumas cercadas por pequenas plantações.
Pessoas caminhavam carregando cestos.
Algumas crianças brincavam perto de uma fogueira.
Havia homens caçando, mulheres preparando alimentos e animais andando livremente entre as cabanas.
Meu primeiro pensamento foi:
Que lugar é esse?
Parecia uma vila retirada de algum livro de história.
Não havia carros.
Não havia energia elétrica.
Não havia fios.
Nada.
— Talvez seja algum tipo de comunidade isolada...
Eu estava prestes a sair do esconderijo quando vi um dos homens.
Parei.
Ele carregava um tronco enorme sobre o ombro.
Enorme.
Aquilo deveria ser pesado demais para uma pessoa comum.
Mas ele caminhava como se não fosse nada.
Então vi suas orelhas.
Arregalei os olhos.
No alto da cabeça dele havia duas pequenas orelhas arredondadas cobertas de pelos.
E atrás de seu corpo...
Uma cauda.
Eu pisquei.
Uma vez.
Duas vezes.
— Não...
Outro homem passou por ele.
Tinha orelhas pontudas.
E uma cauda comprida coberta de pelos.
— Não, não, não...
Meu coração começou a bater descontroladamente.
Eu estava sonhando.
Só podia estar.
— Isso não existe.
Mas então vi outro.
E outro.
Homens com características animais.
Alguns tinham caudas.
Outros tinham orelhas diferentes.
Alguns tinham dentes mais afiados.
Eram humanos...
Mas não completamente.
Uma das mulheres passou carregando uma cesta.
Ela parecia completamente humana.
Sem orelhas de animal.
Sem cauda.
Sem nenhuma característica diferente.
Fiquei ainda mais confusa.
— O que está acontecendo aqui?
Então um dos homens levantou a cabeça.
Seu olhar encontrou o meu.
Meu sangue gelou.
Ele tinha olhos dourados.
E aqueles olhos estavam fixos em mim.
O homem começou a caminhar na minha direção.
— Droga.
Dei um passo para trás.
Ele parou.
Farejou o ar.
Seu rosto mudou.
Os outros homens começaram a olhar naquela direção.
Um deles disse alguma coisa que eu não consegui entender.
Outro respondeu.
E, de repente, vários deles começaram a se aproximar.
— Não...
Dei outro passo para trás.
Um homem tinha presas.
Outro possuía garras.
Outro tinha orelhas de lobo.
Eu não sabia o que eles eram.
Não sabia onde estava.
E definitivamente não queria descobrir.
Meu corpo agiu antes da minha mente.
Virei-me e corri.
— AAAAH!
Corri o mais rápido que consegui.
Galhos batiam contra meus braços.
As folhas arranhavam minhas pernas.
Eu nem sabia para onde estava indo.
Só queria distância.
Distância daqueles homens.
Distância daquela vila.
Distância daquele mundo impossível.
Atrás de mim, ouvi vozes.
Passos.
Meu coração parecia querer sair pela boca.
— Eles estão vindo atrás de mim!
Corri ainda mais.
Até tropeçar em uma raiz.
— Ai!
Caí de joelhos.
A dor fez meus olhos lacrimejarem.
Tentei me levantar.
Foi quando aquela mesma voz surgiu dentro da minha cabeça.
Calma.
Fria.
Impossível de ignorar.
[Sistema Vinculativo de Conquista ativado com sucesso.]
Fiquei imóvel.
— Você...
[Bom dia, hospedeira.]
Olhei para os lados.
— Quem é você?
[Sou o Sistema Vinculativo de Conquista.]
Meu coração disparou.
— Então aquilo não foi um sonho...
[Correção: a hospedeira faleceu no mundo original.]
Silêncio.
Senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés.
— O quê?
[Causa da morte: acidente de trânsito.]
Minha respiração falhou.
— Eu... morri?
[Sim.]
Levei a mão à boca.
As lágrimas começaram a cair.
[A hospedeira foi selecionada para a transmigração.]
— Para onde?
A resposta veio imediatamente.
[Mundo Feral.]
Olhei para a floresta.
Para a vila distante.
Para aqueles homens.
Para aquele mundo que não fazia sentido.
E, pela primeira vez, percebi uma coisa.
Eu não estava perdida.
Eu estava em outro mundo.
E não existia caminho de volta.
[Missão inicial desbloqueada.]
Meu coração afundou.
— Missão?
[Objetivo: sobreviver.]
Parei de respirar por um instante.
Então apareceu uma segunda mensagem.
[Objetivo secundário: estabelecer seu primeiro vínculo.]
— Primeiro vínculo...?
[Recompensa disponível após conclusão.]
Fiquei olhando para o vazio.
Eu tinha acabado de morrer.
Tinha acordado em uma floresta desconhecida.
Descoberto uma vila cheia de homens com características animais.
E agora uma voz dentro da minha cabeça estava dizendo que eu precisava sobreviver naquele lugar.
Fechei os olhos.
— Isso só pode ser uma piada...
Um rugido distante ecoou pela floresta.
Abri os olhos imediatamente.
Talvez a morte tivesse sido apenas o começo.
E, naquele mundo...
Eu ainda não fazia ideia de que ser uma mulher humana comum seria justamente a coisa mais incomum que poderia acontecer ali.