O erro

1325 Words
JASMINNE NARRANDO O sol ainda nem tinha esquentado direito e eu já estava na rua, o cheiro de café misturado com poeira grudando no meu nariz. Equilibrava a bandeja com os potes de brigadeiro e beijinho, descendo o beco com cuidado para não escorregar no piso molhado da madrugada. Todo dia era a mesma coisa: vender doce no morro para ajudar em casa. Ajudar… eu sempre me perguntei se a palavra era justa, porque às vezes parecia que o que eu fazia não tinha peso nenhum para a minha mãe. Carla — Não esquece que depois do almoço tu vai lá no Dona Sílvia fazer a faxina — ela tinha gritado da porta, antes de eu sair. — E volta rápido pra se arrumar pra consulta. A consulta. Ela falou daquele jeito meio doce, meio mandão. A consulta que eu nem sabia que precisava, mas que ela insistiu que marcasse “pra aproveitar” o dia. Aproveitar. Essa palavra, na boca da minha mãe, sempre tinha outro sentido. Entreguei um brigadeiro para a dona do mercadinho e, enquanto ela procurava as moedas, minha cabeça voou para casa de novo. Para Nayara. Minha irmã. Minha mãe sempre dizia que ela tinha nascido com estrela. Eu, pelo jeito, nasci com vassoura na mão. Naiara nunca ajudou em nada. Trabalhar, só se fosse para posar com o uniforme bonito da loja no centro e postar foto no i********:. Mas hoje, ela estava em casa, se arrumando para outra “consulta”. Uma consulta que eu sabia exatamente do que se tratava: a tal inseminação para gerar o filho do dono do morro, Adriel , o vulgo Perigo. Naiara — Jasmine, pra você só sobrou o sub — ela tinha falado ontem, com aquele sorriso de quem sabe que tá cutucando a ferida. — O dono é meu. Eu vou ser a patroa. — Eu não quero ser nada disso — respondi, passando pano no chão da cozinha, fingindo que não ligava. — Não quero filho de bandido. Naiara — Tu fala isso porque não sabe o que é viver bem. — Ela riu, tirando selfie no espelho da sala. — Quando eu tiver minha casa, meu carro e meu dinheiro, vou ver se tu vai falar a mesma coisa. Não respondi. Eu sabia que Naiara falava por falar, mas doía. Doía ver como a minha mãe olhava para ela, como se tudo que Naiara fizesse fosse certo, como se qualquer escolha dela fosse brilhante. Quando voltei para casa, ela estava sentada no sofá, a mãe ao lado, ambas rindo de algum vídeo no celular. Me olhei no espelho da sala: suor grudado na testa, cabelo preso às pressas, blusa simples. Naiara estava com vestido justo, salto, maquiagem impecável. Carla — Vai tomar um banho e se arrumar, Jasmine — minha mãe falou, sem nem me perguntar como foi a venda. — A gente vai juntas pra clínica. — Clínica? — perguntei, mesmo já sabendo. Carla — Ué, você tem consulta também, não tem? — Ela sorriu, mas não era sorriso, era aquele jeito dela de dizer que não adiantava questionar. — É só uma revisão, mas vai que a gente consegue algo bom pra você também… Olhei para Nayara, que riu baixo, m*l disfarçando o deboche. Naiara — Pra ela só tem o sub, mãe — falou. — Mas olha… já é alguma coisa. — Cala a boca, Naiara — rebati, e a mãe me lançou um olhar de aviso, daquele que mandava ficar quieta ou ia piorar. O caminho até a clínica foi silencioso, só o som das unhas da Nayara batendo na tela do celular. Quando chegamos, a recepção estava cheia, cheiro de álcool no ar, ar-condicionado gelado demais para o meu gosto. Nos sentamos lado a lado, minha mãe no meio, como se fosse um muro entre nós. Eu olhava as pessoas entrando e saindo das salas, tentando adivinhar suas histórias. Até que uma enfermeira abriu a porta e chamou: Enfermeira — Jasmine Almeida? — Meu corpo gelou. Olhei para minha mãe, confusa. Carla — Vai, menina, levanta — ela disse, apressando. — É tua vez. — Mas… não era a consulta da Naiara primeiro? — perguntei. Carla — Não interessa, vai logo, a gente resolve lá dentro — Levantei, ainda meio zonza, e segui a enfermeira pelo corredor branco. O cheiro de desinfetante ficou mais forte. Entrei na sala, a médica sorriu rápido, como quem já tinha tudo pronto. Doutora — Pode se sentar, Jasmine. Já deixei tudo pronto — Não questionei. Achei que ela fosse me examinar, medir pressão, ver meu peso. A consulta que minha mãe disse que era “de rotina”. Ela me fez deitar numa maca gelada, me cobriu com um lençol e pediu que eu relaxasse — Vai ser rápido, tá? — disse, enquanto preparava uma bandeja com luvas, seringa e um tubinho metálico que eu não reconheci. Senti meu coração acelerar. — Mas… a senhora não vai primeiro me explicar o que é? — Ela continuou sorrindo, como se fosse óbvio. Doutora — Você já sabe. É só o procedimento que conversamos na última consulta via w******p — Engoli seco. Eu nunca tinha tido nenhuma última consulta. Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela já estava ali, mexendo, ajustando o equipamento, falando com a enfermeira sobre “o material do Perigo”. Perigo. Meu estômago deu um nó. Todo mundo no morro sabia quem era o Perigo. Doutora — Relaxa, Jasmine, não vai doer — Senti um frio estranho no corpo, como se minha alma estivesse tentando sair antes do resto. Foi rápido, tão rápido que, quando percebi, a médica já estava anotando alguma coisa numa prancheta e dizendo para eu me levantar devagar. Saí da sala tonta, o corredor parecia mais longo do que antes. Minha mãe me olhava de longe, sem expressão nenhuma. Naiara mexia no celular, impaciente. Carla — Já? — ela perguntou, franzindo a testa. — Já — murmurei, sem saber o que responder — Me sentei ao lado da minha mãe e fiquei em silêncio. Alguns minutos depois, a enfermeira abriu a porta de novo. Enfermeira — Naiara Almeida? — Ela se levantou na hora, como se estivesse indo para uma passarela. Minha mãe seguiu atrás dela. Eu fiquei ali, olhando para as mãos, tentando entender por que eu me sentia tão estranha. O tempo passou devagar. Quando as duas voltaram, a médica veio junto. Ela tinha um sorriso satisfeito no rosto, mas o olhar estava… direto em mim. Doutora — Bom, Jasmine, agora é só seguir as recomendações e esperar o resultado positivo. Levantei a cabeça, confusa. Naiara deu uma risada curta. Naiara — Espera aí. Ela tá falando com você? Doutora — Sim — respondeu, simples. — A inseminação foi nela. Naiara — Como assim?! — abriu os braços. — Eu que sou a candidata pra gerar o filho do Perigo. Ela veio pra uma consulta de rotina! A médica franziu o cenho, visivelmente surpresa. Doutora — Mas… eu chamei pelo nome dela. Jasmine Almeida. Naiara — Sim, mas eu sou a Naiara Almeida, a que combinou com o senhor Adrio. Ela não tem nada a ver com isso! — Naiara disse, já alterada. A médica olhou para nós duas, depois para minha mãe, como se tentasse juntar as peças. Doutora — Então… quer dizer que…? Naiara — Quer dizer que você colocou o embrião dele dentro da pessoa errada — respondeu, apontando para mim com o dedo. — Foi nela que você fez a inseminação. O mundo girou. Senti como se meu corpo não fosse meu, como se eu estivesse assistindo tudo de fora. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer grito. OBS: AMORES ESSA OBRA ESTÁ SENDO ESCRITA AOS POUCOS , VOU CONCLUIR DOIS LIVROS E COMEÇA A ATUALIZAÇÃO DIÁRIAS..
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