ADRIK / PERIGO
Tem gente que acha que ser dono do morro é ter tudo. Dinheiro, respeito, mulher bonita.
E eu não vou mentir: eu tenho quase tudo.
Quase.
O “quase” é o que me corrói desde o dia do acidente.
Foi numa noite de acerto de contas, há uns oito anos. Eu já estava no comando, já era o Perigo que todo mundo falava baixinho pra não chamar atenção. O alvo era um traidor que tinha entregado um carregamento inteiro pro inimigo. Eu mesmo fui na frente, como sempre, porque nunca acreditei em chefe que manda os outros e fica em casa.
A gente estava chegando perto quando começou o tiroteio. No meio do corre-corre, uma rajada passou raspando, e um dos tiros pegou em cheio na parte baixa do meu corpo. Dor seca, quente, queimando. Na hora, eu só queria me manter de pé pra não mostrar fraqueza. Mas quando acordei no hospital, a notícia veio como sentença: o estrago tinha sido grande demais.
Doutor — Você ainda pode ter filhos — disse — mas é quase impossível naturalmente.
Quase impossível… essas duas palavras ficaram na minha cabeça desde então. No mundo onde eu vivo, quase impossível significa arriscar esperar até ser tarde demais. Então, antes mesmo de receber alta, eu mandei congelar o que podia. Meu sangue. Meu futuro.
Porque eu sabia: eu não ia morrer sem deixar um herdeiro.
O tempo passou, e com ele vieram mulheres de todos os tipos. Mas nenhuma… nenhuma era pra ser mãe do meu filho. As que se ofereciam só viam o lado do dinheiro, do status. E eu precisava de mais. Precisava de alguém nova, saudável, que pudesse gerar sem riscos.
Foi quando a velha, mãe da Naiara me procurou.
A mulher chegou com aquela voz mansa, dizendo que tinha “um presente” pra me oferecer. Eu ouvi, calado. Ela falava da filha como se fosse um tesouro. Dezoito anos recém-completados, saudável, “pura”, segundo ela. Uma moça que podia me dar o filho que eu queria.
— Mas.. e ela? — perguntei. — Ela quer? — A velha sorriu.
Carla — Quer, sim. É esperta. Sabe que pode ter uma vida melhor — Eu sabia que nem sempre essas conversas eram a verdade pura, mas confesso: a ideia de resolver meu problema de uma vez me agradou.
Marcamos outro encontro, dessa vez com a própria Naiara. E ali, cara a cara, eu vi que ela não era bem o que a mãe pintou. Bonita, sim. Corpo de chamar atenção. Mas tinha um jeito… sujo. O olhar de quem já rodou mais que roleta de bicho. Uma marmita.
Não me enganei: ela não estava ali pra me conhecer, estava ali pelo dinheiro. E isso, no meu mundo, não é novidade.
— Você gera meu filho, recebe metade agora e metade quando a gravidez tiver segura. — falei, seco. — E quando a criança nascer, ela é minha — Ela arregalou um pouco os olhos, como se não tivesse entendido a última parte. Eu repeti — Minha.
Naiara — Mas.. eu vou poder ver? — ela perguntou, com um sorriso de canto.
— Não é sobre ver. É sobre gerar e entregar — Ela olhou pra mãe, que deu aquele aceno de “fecha o acordo”. E foi isso.
Metade do dinheiro caiu na conta dela no mesmo dia. A outra metade ficaria guardada até o médico confirmar que não havia risco de perder a criança. Eu queria tudo certo, sem chance de erro.
No fundo, eu sabia que Naiara não era a mulher que eu escolheria para criar meu filho. Mas para gerar… servia. Era jovem, saudável e, segundo a mãe, nunca tinha se envolvido com outro homem .
Nunca falei pra ninguém, mas esse filho… é a única coisa que eu quero deixar de verdade nesse mundo. Um pedaço de mim que não se perde quando minha hora chegar.
Os caras do morro acham que herdeiro é só papo de rico. Eu sei que é mais. É deixar a minha marca, meu sangue, meu nome. E não vou deixar isso na mão de qualquer um.
O acordo era simples. Ela gera, eu crio. Sem mais conversa.
E no dia que a médica ligar dizendo que tá feito, que a barriga dela vai começar a crescer… eu vou saber que a minha vitória começou a ser escrita.
Mas até lá… silêncio. No meu mundo, segredo vale mais que ouro.
(…)
O telefone tocou numa terça-feira cedo. Número de clínica. Já sabia o que era antes mesmo de atender.
LIGAÇÃO ON
Doutora — Senhor ADRIK? — a voz feminina era firme, mas com aquele tom controlado de médico que acha que está dando boa notícia. — Estou ligando pra avisar que o procedimento foi realizado com sucesso — Inclinei na cadeira, olhando pela janela o movimento no beco.
— E aí?
Doutora — Agora é só seguir as recomendações. Em um mês, a paciente volta para confirmar se a gravidez foi estabelecida.
Um mês. Esse tempo parecia pequeno, mas pra mim, era uma eternidade. Cada dia desse mês ia ser contado como quem conta bala num pente: com cuidado, com atenção, sem desperdiçar.
— Entendido. — respondi. — Cuida bem dela aí até o retorno.
Doutora — Claro, senhor Adrik.
LIGAÇÃO OFF
Desliguei e fiquei olhando pro celular por um momento. Essa notícia… era mais do que só uma etapa. Era como se eu tivesse colocado meu nome no futuro.
Mas eu não ia deixar nada ao acaso. Naiara ia ter todo cuidado possível. E isso, no meu mundo, significava manter ela perto.
Peguei o rádio.
RADIO ON
— Juninho, tá na escuta?
Juninho — Fala, chefe.
— Vai buscar a Naiara na casa dela. É pra trazer hoje ainda. Vai morar aqui comigo até a médica dizer que tá tudo certo.
Juninho — Fechou. Quer que eu avise antes?
— Não. Chega lá e fala que é ordem minha. E diz que é pra trazer tudo que precisar. Não quero ela inventando desculpa pra ir pra rua depois.
Juntinho — Tranquilo, chefe.
RADIO OFF
Na minha cabeça, isso era mais do que proteção. Era garantia. Se ela estava carregando o meu filho, não ia ficar na quebrada, ouvindo fofoca, passando raiva com gente pequena. Eu sabia o quanto o estresse podia ferrar uma gestação.
E também… queria ver de perto. Queria acompanhar cada mudança, cada sinal. Não confiava cem por cento nela, e por isso mesmo, quanto menos espaço pra erro, melhor.
Passei o resto do dia resolvendo assuntos do morro, mas sempre com um olho no portão. Já era noite quando ouvi o som do carro subindo a ladeira.
Juninho entrou primeiro, carregando duas malas médias. Atrás dele, Naiara. Vestido curto, salto, cabelo solto. E aquele sorriso nos lábios.
Não era sorriso tímido de quem está nervosa. Era sorriso de quem acha que está vencendo na vida.
E talvez… na cabeça dela… estivesse mesmo.
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