Capítulo 3

1008 Words
AMANDA Quando acordei naquela manhã, estava atrasada de novo, mas, por sorte, não tanto quanto eu imaginava. Pulei da cama, corri para o banheiro e tomei um banho vergonhoso de tão rápido me arrumei de uma forma bem meia boca e prendi os cabelos num r**o de cavalo, se eu não me apressasse, ia perder a condução. Naquela noite, todos ficaram sabendo da punição que um grupo de meninos levou por assaltar na região. No geral, os moradores se sentiam seguros ali, não haviam roubos porque todos sabiam o que aconteciam com os ladrões que acabavam chamando a atenção da polícia. Eras meninos jovens, mas o tribunal do crime não tem misericórdia, e eu sabia que Carlos estava envolvido com isso. Pensar nele no meio de todo aquele perigo e sendo um dos nomes do crime mais importantes daquele morro me deixava triste, saber que ele seguiu um caminhos tão diferente do meu era doloroso, afinal, aquilo era o que nos separava. Saí em silêncio tentando não acordar meu pai e, no exato momento em que comecei a descer a ladeira, praticamente correndo a picape escura começou a me acompanhar. Por um momento eu o ignorei, sabia que Carlos estava ali, no banco do motorista esperando somente um olhar para me oferecer uma carona que eu não queria. Passar o tempo com ele era um caminho perigoso, principalmente quando sabíamos o que éramos um para o outro. Eu não sou mais uma menininha, sou uma mulher adulta é preciso ter consciência de que querendo ou não, Carlos não é um homem para mim. Por mais que eu quisesse que ele fosse. Segui meu caminho como se não tivesse visto a picape e, quando chegamos ao final da ladeira, ele decidiu abrir o vidro, buzinando duas vezes, chamando minha atenção. ― Vai ficar me ignorando o tempo inteiro? ― ele perguntou com um sorriso divertido no rosto. ― Achei que já tínhamos passado dessa fase. ― E já passamos só não quero te ocupar ― respondi, dando a desculpa mais esfarrapada na qual consegui pensar. ― Já disse que você não atrapalha... É só uma carona ― ele insistiu, abrindo a porta do carro e esperando que eu entrasse. Olhei para Carlos com uma cara irritada, mas não tinha como negar, não naquele momento, eu sempre soube como ele era cabeça dura e não estava nem um pouco afim de discussão. Entrei no carro emburrada e revirei os olhos, sentando no banco do carona e colocando meu cinto. Carlos deu um sorriso vitorioso e deu a partida novamente, guiando o carro para fora do morro e pegando a rodovia, seguindo em direção a minha faculdade. ― Tem que parar de ser tão cabeça dura ― ele reclamou, apoiando uma das mãos em meus cabelos e os bagunçando levemente. ― Não precisa me tratar como um estranho. Fiquei em silêncio, não queria ter uma conversa como aquela, não naquele dia ou ali, ia estragar o meu humor pelo resto do dia. Carlos também não continuou o assunto, ficou em silêncio pelo resto do caminho e dirigiu sem desviar os olhos da estrada. Passamos longos minutos daquele jeito, num silêncio constrangedor e pesado. THOMAZ Pela primeira vez havia chegado à universidade dentro do horário. Passei pelos grandes portões e, no interior, encontrei diversos alunos correndo apressados para cumprir seus próprios horários, mas nenhum conhecido. Esse era o problema de chegar cedo demais, eu acabava ficando sozinho e eu odiava ficar entediado. Segui em direção ao gramado e me sentei ali mesmo, aproveitando um dos poucos momentos frescos do dia, afinal, logo o sol iria esquentar. Peguei meu celular, mas, antes que eu me distraísse o bastante, vi uma picape preta parar na frente do portão e, de dentro dela, saiu a menina em quem eu havia esbarrado ontem. Me lembrava vagamente do rosto dela e não tinha certeza se era realmente aquela garota, mas, de todo jeito, eu devia desculpas a ela. Me levantei e caminhei em sua direção vendo que ela conversava com um outro cara, parecia se despedir. Continuei andando e, quando estava perto o bastante, os dois notaram minha presença. O homem me olhou curioso enquanto a morena fechou a cara, mau humorada. ― Acho que lembra de mim ― falei, passando os dedos na nuca um pouco sem graça. ― Te devo desculpas pelo encontrão de ontem. ― Foi ele? ― o homem perguntou, num tom levemente ameaçador que me fez dar um passinho para trás. Mesmo com a clara irritação do homem, a morena não disse nada por alguns instantes, até que deu de ombros e suspirou, olhando para mim enquanto apoiava uma das mãos na cintura. ― Tudo bem, no final, não teve nada sério ― ela respondeu, com um sorriso que, diga-se de passagem, era muito lindo. ― Mas pode me retribuir me passando algumas apostilas que tiver, soube que você é do terceiro semestre, me chamo Amanda. ― Fechado, sou Thomaz ― falei, sorrindo de volta e olhando para a muralha atrás dela, que parecia de péssimo humor. ― Bem, acho que você e seu namorado precisam conversar e... ― Ah, ele não é meu namorado ― ela falou, rápido demais. ― Somos só amigos e, inclusive, eu já tenho que entrar, até depois, Carlos. Sem esperar uma resposta do cara, Amanda simplesmente começou a caminhar para dentro da universidade e eu a segui, decidido a acompanhá-la até sua sala. No caminho, conversamos pouco, mas o suficiente para que eu notasse como ela era inteligente, dedicada e até irritantemente certinha. Amanda parecia ser o tipo de garota que gosta de seguir as mínimas regras e, definitivamente, aquele não era o meu tipo. Por mais que ela fosse muito bonita. ― Enfim, a gente se vê por aí ― ela falou, assim que parou na porta da sala. ― É, eu passo aqui para te dar as apostilas ― respondi, seguindo para minha própria sala. É, não foi tão r**m conversar com a novata, quem sabe eu possa me encontrar com ela mais vezes.
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