Capítulo 1 — Ethan Cole.
Por Coronel Briggs.
O som distante das explosões fazia o chão tremer como se a terra estivesse viva. O ar era pesado, denso, carregado de poeira e cheiro de pólvora. O sol do deserto queimava como fogo sobre as dunas, e entre gritos, ordens e disparos, Ethan Cole avançava com o rifle em punho, o olhar firme e inabalável.
Os homens do seu pelotão diziam que ele não sentia medo — mas a verdade era outra. Ethan não temia a morte porque já havia morrido muitas vezes por dentro.
No rádio, o som da voz rouca do comandante cortou o chiado:
— Cole, retorne à base! Agora!
Mas ele ignorou a ordem. Dois de seus colegas estavam presos atrás de uma barricada inimiga, e Ethan não aceitava perder mais ninguém. Movendo-se rápido entre os escombros, disparou contra os insurgentes com precisão quase desumana. Um, dois, três alvos — cada tiro certeiro, sem hesitação. O sangue, a fumaça e os gritos se misturavam como uma sinfonia infernal.
Quando finalmente alcançou os companheiros feridos, arrastou-os para fora como se o peso não existisse. O fogo cruzado caía ao redor, mas Ethan não recuava. Ele avançava — sempre.
Naquela noite, de volta ao acampamento, o silêncio parecia mais ensurdecedor do que a própria batalha. Ethan se sentou à beira do campo, o cigarro aceso entre os dedos, observando o horizonte. O vento quente agitava a bandeira americana que tremulava sobre a base.
Alguns soldados o olhavam de longe, cochichando entre si.
— Aquele cara é maluco — disse um deles. — Não tem medo de nada.
— Ou não tem mais nada a perder — respondeu outro.
Tinham razão nas duas coisas.
Ethan era conhecido como o mais temido e respeitado do batalhão. Seu comandante confiava nele mais do que em qualquer outro homem — e por isso o deixava ir além dos limites. Mas todos sabiam que Ethan era perigoso. Não por sua força física ou mira perfeita, e sim pela escuridão que havia em seus olhos.
Ninguém esquecia o dia em que ele, sozinho, enfrentou uma emboscada para resgatar um grupo de soldados civis presos num vilarejo. Voltou coberto de sangue — parte dele nem era seu —, com o olhar distante, quase vazio. E ainda assim, quando o comandante perguntou o que tinha acontecido, ele apenas respondeu:
— A missão foi concluída.
Nos dias seguintes, as vozes dos mortos começaram a acompanhá-lo. Ele via os rostos dos colegas caídos quando fechava os olhos. O som do estilhaçar dos ossos, o grito sufocado do soldado Thompson pedindo ajuda... e o silêncio que vinha depois.
Dormir virou um tormento. Cada sonho o jogava de volta no campo de batalha, onde a areia do deserto se misturava ao sangue e ao cheiro de queimado. Ele acordava suando, o peito arfando, o coração acelerado — e por um breve instante, acreditava ainda estar sob fogo inimigo.
Mas o pior era o vazio.
Ethan olhava ao redor do acampamento e percebia que nada mais o tocava. Nem as vitórias, nem os aplausos, nem a sensação de sobrevivência. Era como se cada morte tivesse arrancado um pedaço dele. E o que restava agora era um corpo funcional, uma mente fria e uma alma em ruínas.
O comandante, o coronel Briggs, o observava com um misto de orgulho e preocupação.
— Cole, você é o melhor soldado que já tive — disse certa vez, chamando-o para uma conversa privada. — Mas se continuar se jogando no fogo desse jeito, não vai durar muito.
Ethan apenas deu de ombros, sem emoção.
— Eu aguento.
Briggs o fitou por um longo momento.
— É esse o problema. Você aguenta demais.
A guerra terminou para muitos, mas não para ele.
Quando o avião o trouxe de volta aos Estados Unidos, Ethan não sentiu alívio. O silêncio da base americana parecia mais ameaçador do que os tiros no Afeganistão. Seus colegas seguiram com suas vidas, alguns com medalhas, outros com feridas que o tempo curaria. Mas ele sabia que suas feridas não cicatrizariam nunca.
Nos dias que se seguiram, Ethan passou a viver em estado de alerta. Qualquer barulho alto o fazia sacar a arma. Sonhos se confundiam com lembranças. E o rosto de cada homem que perdeu o visitava à noite, perguntando em silêncio por que ele ainda estava vivo.
Ele bebia para esquecer. Lutava para silenciar as vozes.
Mas dentro dele, algo gritava — um chamado constante para a guerra, o único lugar onde se sentia vivo.
Foi então que o coronel Briggs o procurou novamente.
— Tenho uma missão pra você, Cole — disse, com aquele tom que misturava respeito e cautela. — É fora do país. Sigilosa. Você é o único que pode executá-la.
Ethan o encarou em silêncio. Missão. Ordem. Guerra.
Palavras familiares, palavras que devolviam algum sentido à sua existência.
— Onde? — perguntou, a voz grave e controlada.
— Brasil — respondeu Briggs. — Um morro no Rio de Janeiro. Há um ex-soldado americano escondido lá, protegido por traficantes. Queremos ele de volta. Vivo.
Ethan assentiu.
— Quando parto?
O coronel suspirou.
— Amanhã ao amanhecer.
Ethan apenas acendeu outro cigarro, os olhos fixos no nada.
O calor do deserto ficava para trás, mas dentro dele, a guerra jamais terminaria.
O Sgt..Cole era o tipo de homem que impunha respeito antes mesmo de abrir a boca.
Com 1,98m de altura, ombros largos e músculos talhados como se o próprio aço o tivesse moldado, ele parecia mais uma escultura viva do que um soldado comum. O sol do deserto havia marcado sua pele com um tom bronzeado, e cada movimento seu exalava controle e força.
Os olhos verdes, frios e penetrantes, carregavam o peso de quem já tinha visto o inferno de perto — e voltado de lá sem se quebrar. Havia algo hipnótico neles, uma mistura perigosa de calma e ameaça, como o silêncio que antecede uma tempestade.
O cabelo loiro, cortado curto em estilo militar, realçava as linhas duras do rosto. Uma cicatriz na sobrancelha esquerda traçava sua história como um lembrete de que sobreviver era seu talento mais letal. E quando a luz batia de certo ângulo, realçava o contorno da mandíbula forte, coberta por uma barba cerrada que lhe dava um ar de homem maduro, selvagem e inatingível.
No campo de batalha, Ethan era uma força imparável. Fora dele, uma presença quase divina — um homem que parecia carregar em cada músculo o peso da guerra e a promessa de algo indomável.
Apesar da aparência impecável e da presença quase sobre-humana, Ethan Cole era um enigma até para os que serviam ao seu lado. Raramente alguém o via sorrir. Era o tipo de homem que falava apenas o necessário, e quando o fazia, cada palavra vinha carregada de firmeza e propósito.
Entre os soldados, circulavam boatos sobre ele. Alguns diziam que Ethan era incapaz de amar. Outros, que o campo de batalha havia matado qualquer traço de humanidade em seu peito. O certo é que ninguém jamais o vira se aproximar de uma mulher de forma genuína. Ele mantinha distância, como se qualquer contato mais íntimo fosse uma ameaça à sua própria estabilidade.
Ainda assim, havia algo em seu olhar que atraía — um magnetismo sombrio, difícil de resistir. E Lucy, amiga de um dos colegas de base, foi a única que ousou se aproximar.
Naquela noite, o encontro entre eles não teve romantismo nem ternura. Ethan não buscava companhia, buscava silêncio. Não procurava afeto, apenas uma maneira de apagar o barulho dentro da cabeça. Lucy percebeu isso tarde demais. O homem à sua frente não era um amante, era um sobrevivente tentando anestesiar a própria dor.
Quando a manhã chegou, ele não disse uma palavra. Vestiu a camisa, acendeu um cigarro e saiu como se nada tivesse acontecido. Lucy nunca mais quis vê-lo. E Ethan jamais mencionou o assunto — nem com ela, nem com ninguém.
Foi assim que ele aprendeu a viver: sem laços, sem explicações, sem olhar para trás.
Para Ethan Cole, emoções eram fraquezas. E fraqueza era o que matava no campo de batalha.
O relógio marcava quase meia-noite quando o Coronel Briggs empurrou a porta de seu escritório e se jogou na poltrona de couro gasta. Sobre a mesa, uma garrafa de bourbon semi-vazia e uma pilha de relatórios de missões encerradas. Mas apenas um nome o preocupava naquela noite: Sargento Ethan Cole.
O homem era uma lenda viva entre os fuzileiros — o tipo que atravessava o inferno e voltava inteiro. Mas Briggs sabia que há feridas que não sangram por fora, e que o silêncio de Ethan era o som mais perigoso de todos.
Logo o Tenente Harris entrou, batendo continência.
— Chamou, senhor?
Briggs soltou um suspiro cansado, fitando o copo à frente.
— Harris, esse garoto vai explodir. Já vi homens quebrados, mas Cole… é diferente. Ele continua inteiro por fora, mas por dentro está em guerra.
Harris se recostou, pensativo.
— Sim, senhor. Ele tem andado cada vez mais instável. Não fala com ninguém, não dorme, não bebe com o grupo… E quando o faz, parece outro homem.
O coronel passou a mão pelo rosto, como quem pesava uma decisão.
— É por isso que vou mandá-lo pra longe daqui. Talvez mudar o cenário ajude.
O tenente franziu o cenho.
— Missão de verdade ou… uma desculpa pra tirar ele de circulação?
Briggs sorriu de canto, aquele sorriso de quem conhecia bem seus soldados.
— Um pouco dos dois. O Pentágono quer alguém experiente pra uma operação de baixa prioridade no Brasil. Algo simples, nada que envolva combate direto. Acho que Cole precisa disso.
Harris arqueou a sobrancelha.
— O senhor acha mesmo que algo “simples” vai mantê-lo sob controle?
Briggs riu baixinho.
— Talvez não. Mas é o que temos. E, convenhamos, ele precisa ver o mar, sentir o calor do sol. Uma cerveja gelada, praia e algumas mulheres talvez façam bem praquele cabeça-dura.
O tenente soltou uma risada nervosa.
— O senhor está falando do mesmo homem que quase estrangulou um insurgente com as próprias mãos porque ele olhou torto pra ele?
— O mesmo — confirmou Briggs, com um olhar sério. — Mas se alguém consegue domar o caos dentro de Cole… é o próprio Cole.
Por alguns segundos, o silêncio dominou a sala. O som distante do vento atravessava as janelas, e ambos sabiam que não era apenas uma decisão tática — era um ato de sobrevivência.
O coronel se levantou e se aproximou da janela, olhando o pátio vazio da base.
— Prepare os documentos. Ele parte ao amanhecer.
Harris hesitou.
— E se algo der errado, senhor?
Briggs virou-se devagar, o olhar pesado.
— Então, que Deus ajude quem estiver no caminho de Ethan Cole.