Capítulo 4 — A Bailarina e o Morro.

1503 Words
Há dias em que o sol nasce pesado demais. Aqui no morro, ele não vem devagar — ele invade. Entra pelas janelas sem cortinas, esquenta o chão, o ferro, as telhas, o corpo. Eu acordo suada, com o som das vozes misturado a funk, tiros distantes e o cheiro de café forte vindo da casa da vizinha. É assim desde que me entendo por gente. Eu me chamo Lia. Tenho vinte anos e moro no alto do Morro do Alemão, um lugar onde o céu é bonito, mas o chão… o chão carrega mais sangue do que flores. Quando eu era pequena, sonhava em descer o morro e nunca mais voltar. Achava que o mundo lá embaixo era feito só de luz. Hoje eu sei que nem a cidade grande é capaz de apagar a escuridão que carrego por dentro. Meus pais morreram quando eu tinha seis anos. Um acidente de carro. Não lembro direito da cena, só dos vidros brilhando no asfalto e do grito da minha mãe. Depois disso, tudo ficou em silêncio. Fui morar com meus tios — Toninho Braga e minha tia Joana. Ela, doce, protetora, de olhar cansado. Ele… bom, o morro inteiro conhece o nome dele. O homem que ninguém ousa contrariar. O “patrão”. Mas pra mim, Toninho sempre foi apenas o tio que dizia “ninguém encosta na minha menina”. E ninguém nunca encostou. Desde pequena, aprendi a ler o medo nos olhos dos outros. Os meninos desviavam o olhar quando eu passava, os homens baixavam a cabeça. Não por respeito, mas por medo. Eu era intocável — não por vontade própria, mas por causa dele. Eu cresci num mundo onde as armas eram mais comuns que flores, e onde um erro podia custar a vida. Mesmo assim, sonhei. Aos quinze anos, entrei num projeto da ONG que ajudava as crianças do morro. Lá aprendi inglês, primeiros socorros e, mais tarde, conheci o balé. Foi quando tudo mudou. A primeira vez que calcei sapatilhas, senti algo acender dentro de mim. A música, o movimento, o controle — era como se, por alguns minutos, meu corpo esquecesse onde vivia. Naquela sala quente, com o chão de madeira riscado e o ventilador quebrado, eu descobri que podia ser leve. Que podia ser livre. Treinei todos os dias, mesmo com os joelhos doendo e os dedos machucados. Dançava descalça, dançava no cimento, dançava na chuva. O morro inteiro ria de mim — “bailarina de favela”, diziam. Mas eu nunca liguei. Aos dezessete, participei da minha primeira apresentação na escola. Foi simples, mas quando as luzes se acenderam e eu fiquei no centro do palco, o silêncio da plateia me fez chorar. Naquele instante, eu entendi: não precisava fugir do morro pra ser quem eu queria. Eu só precisava dançar. Agora tenho vinte anos e estou prestes a me apresentar no Teatro Municipal. Um sonho que parecia distante demais pra alguém como eu. A professora diz que tenho “graça e força”. Eu rio por dentro. Força não é o que falta a quem aprende a sobreviver. Mas mesmo com todos os ensaios, ainda me sinto frágil. Há noites em que acordo assustada com os tiros, o som das motos e os gritos. Outras em que o silêncio pesa mais que o barulho. Nessas horas, eu danço. Fecho os olhos, deixo a música preencher o vazio e imagino que o mundo é só o som dos meus passos no chão. Meu quarto é pequeno, com paredes descascadas e um espelho trincado. É lá que ensaio todos os dias. A luz do entardecer entra pela janela e colore o chão. Quando o sol toca minha pele, sinto que ele me chama pra continuar, mesmo que o mundo aqui fora tente me apagar. Tia Joana sempre me observa com carinho. Ela diz que quando danço, pareço outra pessoa. Já meu tio… bom, ele finge que não liga, mas sei que sente orgulho. Às vezes o pego me olhando de longe, sério, em silêncio. Ele não fala sobre amor, mas me protege como se o mundo inteiro fosse ameaça. E é. Porque aqui, qualquer um pode morrer por nada. Um olhar errado. Uma palavra atravessada. Um passo fora de hora. Mas eu me acostumei a caminhar devagar, a sorrir mesmo com medo. Hoje, enquanto desço o beco pra ir ao ensaio, vejo o morro vivo — as crianças brincando, as mulheres estendendo roupas coloridas, o cheiro de feijão subindo das cozinhas. Mesmo no caos, há beleza. A beleza de quem insiste em viver. No caminho, cruzo com os rapazes do tráfico. Eles me cumprimentam com respeito. “Bom dia, princesa.” “Vai dançar hoje, Lia?” Sorrio de volta. Eles sabem que não podem passar do limite. Não comigo. Meu nome é o único que ninguém ousa manchar. Chego à sede da ONG e coloco minha roupa de ensaio. O som do piano toca, e eu me perco no movimento. Plié, relevé, pirouette… cada passo é um pedaço de mim tentando escapar. Sinto o coração bater rápido. O corpo suar. E, por alguns minutos, o morro desaparece. Depois do ensaio, volto sozinha. O céu começa a mudar de cor, ficando dourado, depois alaranjado. Adoro essa hora. É quando o sol toca as casas e tudo parece mais calmo, como se até o crime descansasse por um instante. Subo a escadaria, ouvindo o som distante de um rádio tocando alguma música antiga. E é então que o vejo. Um homem parado na viela de baixo. Alto, imenso, de pele clara e olhar frio. O tipo de presença que faz o tempo parar. Ele não se mistura com o morro. É diferente. Os ombros largos, o corpo firme, o olhar que parece medir tudo. Por um segundo, nossos olhos se cruzam. E o meu corpo falha. Sinto o coração disparar, como se tivesse esquecido de respirar. Há algo nele que me dá medo… e curiosidade. Não sei explicar. É como se tivesse visto o perigo e a paz ao mesmo tempo. Mas ele desvia o olhar, coloca as mãos nos bolsos e segue andando. Sem expressão. Como se eu fosse invisível. Fico parada por um instante, tentando entender o que senti. Não foi apenas atração — foi algo mais profundo, quase instintivo. Um pressentimento. Sacudo a cabeça e volto pra casa. Deito na cama e olho o teto. O som do morro continua o mesmo — risadas, tiros, música. Mas algo mudou em mim. Fecho os olhos e vejo de novo aquele olhar — verde, intenso, distante. Não sei quem ele é, mas sei que carrega algo dentro. Um tipo de dor que reconheço. E de alguma forma, sinto que ele vai cruzar meu caminho outra vez. E quando isso acontecer, nada vai ser igual. Talvez ele seja o caos que o meu destino escolheu. Ou talvez… seja a guerra que faltava pra me ensinar o que é o amor. Enquanto isso, obsetvando o morro com olhos de fuzileiro... Desci as escadas com cuidado, cada degrau rangendo sob o peso do meu corpo e dos pensamentos que eu tentava empurrar pra longe. O calor aumentava à medida que o sol subia, e o ar parecia mais denso, mais pesado. Passei por vendedores ambulantes, por olhares curiosos e por uma sensação de que cada esquina guardava uma armadilha. No fundo, eu sabia que estava sendo observado — não era paranoia. Era instinto. E meu instinto nunca falhava. Encontrei um bar pequeno, escondido entre duas casas de tijolo cru. Pedi um café, o mais forte que tivessem, e sentei perto da janela. O dono me olhou rápido, como quem reconhece um problema, mas não quer se envolver. Era sempre assim. O tipo de homem que eu era deixava rastros invisíveis — e mesmo sem farda, as pessoas sentiam o cheiro da guerra. Peguei o celular criptografado e digitei uma mensagem curta para Briggs: “Kane confirmado. Braga é o obstáculo. A infiltração começa hoje.” Enviei e fechei o aparelho. Enquanto esperava o café, ouvi uma risada do lado de fora. Era ela. A dançarina. Agora com um vestido simples, florido, e uma sacola nas mãos. Passou pela rua sem me notar, mas o som da voz dela — leve, real, viva — atravessou o bar como uma lembrança boa em meio ao inferno. Tentei ignorar. Mas algo em mim se moveu. Algo que eu não deixava existir há anos. Aquilo me enfraquecia, e eu sabia. Terminei o café, deixei o dinheiro sobre o balcão e saí. O sol já queimava o chão, e o morro parecia pulsar em ritmo próprio — um coração enorme feito de concreto, gente e perigo. Peguei a rua principal e comecei a planejar a aproximação. Braga tinha homens em cada beco, câmeras escondidas, e ninguém entrava em seu território sem ser notado. Mas eu tinha uma vantagem: já vivi em terrenos piores. E quando o inimigo acredita que domina o território, é justamente ali que ele comete o erro. ​
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