**Capítulo 1: O Preço das Aparências**
O reflexo no vidro da fachada imponente da loja "Rizzo" devolvia a imagem de uma mulher que Catarina m*l reconhecia como si mesma. O uniforme — uma saia lápis preta perfeitamente ajustada, blazer acinturado e sapatos de salto alto — dava a ela um ar profissional e moderno. Os óculos de armação fina e atual emolduravam seu rosto limpo, completamente sem maquiagem, já que o tempo e a exaustão há muito haviam engolido qualquer vaidade ou espaço para rituais de beleza. O cabelo ruivo ondulado, que descia em ondas ricas até a cintura, estava rigidamente domado em um coque alto e firme, sem um único fio fora do lugar.
O expediente já havia terminado, mas Catarina continuava presa atrás do balcão de atendimento, com o coração acelerado.
— Isso é um absurdo! Você é uma i****a, não sabe o que está fazendo! — o cliente esbravejou, batendo com força no balcão de vidro onde repousavam fones de ouvido e tablets de última geração. Ele apontava o dedo no rosto de Cat, a voz ecoando pela loja que já deveria estar fechada. — Eu exijo um aparelho novo ou coloco este lugar abaixo!
— Senhor, como tentei explicar, a garantia de fábrica não cobre o mau uso do eletrônico... — Cat manteve a voz controlada, a postura impecável de quem um dia soube dominar um tribunal, embora por dentro tudo estivesse tremendo.
— Não me interessa! Eu vou processar esta loja, vou processar você! — o homem continuou berrando, vermelho de raiva.
A confusão atraiu a figura que Cat mais temia naquele ambiente. Antônio Menezes, o gerente geral da Rizzo, aproximou-se a passos lentos. Aos 52 anos, careca, barrigudo e com o terno sempre ligeiramente apertado na cintura, Antônio era o tipo de chefe exigente e implacável, que adorava exercer poder e ficar em cima das funcionárias sob qualquer pretexto.
— O que está acontecendo aqui, Catarina Vander? — Antônio perguntou, a voz grave e cobradora.
Com uma paciência cirúrgica, Cat explicou a situação técnica e os termos do contrato do aparelho. Ao perceber que não ganharia a discussão e que a loja estava respaldada, o cliente pegou o eletrônico de volta, soltou uma última sequência de xingamentos direcionados a Cat e saiu pisando fundo, ameaçando levar o caso à justiça.
Assim que a porta de vidro se fechou, o silêncio pesado da loja vazia se instalou. Antônio Menezes olhou para os lados, certificando-se de que estavam teoricamente sozinhos, e deu um passo na direção de Catarina. O espaço entre eles encurtou de forma desconfortável.
— Mais um problema, Catarina Vander... — Antônio falou baixo, aproximando-se tanto que ela podia sentir o cheiro do seu perfume barato. Ele fixou os olhos nela com uma intensidade maliciosa. — Você sabe que o dono da Rizzo é extremamente rigoroso com reclamações. Eu poderia usar isso para te demitir agora mesmo. Mas... eu também posso amenizar as coisas para você.
Cat deu um passo para trás, esbarrando na prateleira.
— Senhor Menezes, eu fiz o procedimento correto...
— Esqueça o procedimento — ele a interrompeu, esticando a mão para tocar de leve no ombro do blazer dela, com um sorriso cínico. — Eu sei que a sua situação em casa não é fácil. Eu posso te dar a vida que você quiser, Catarina. Posso pagar todas as suas contas, cuidar de tudo. Só basta você ser... um pouco mais flexível comigo. Fazer o que eu quero.
O estômago de Cat revirou. O pânico subiu pela sua garganta, o coração batendo tão forte que parecia que ia rasgar o peito. Ela abriu a boca para reagir, mas a voz travou.
*Clac.*
O som nítido de uma caixa de ferramentas sendo pousada no chão quebrou o momento. O rapaz loiro de porte atlético e olhos verdes intensos — o mesmo jovem que trabalhava ali etiquetando mercadorias e organizando a limpeza — apareceu subitamente de trás de um dos corredores de eletrodomésticos. Ele segurava uma flanela e encarou o gerente com um olhar firme, frio e cortante, postando-se silenciosamente a uma distância que impedia qualquer avanço de Antônio.
O gerente pigarreou, visivelmente desconfortável com a interrupção abrupta do rapaz. Afastou-se de Cat, ajeitou o paletó e murmurou uma ordem qualquer sobre fechar as portas antes de caminhar em direção aos fundos da loja.
Cat respirou fundo, as mãos ainda trêmulas. O olhar do rapaz loiro cruzou com o dela por um segundo denso, fazendo seu coração dar mais um sobressalto, mas a urgência do relógio a trouxe de volta à realidade. Ela estava terrivelmente atrasada.
— Obrigada — ela sussurrou para o jovem, antes de pegar sua bolsa e sair quase correndo pelas portas de serviço da Rizzo.
O céu de fim de tarde começava a escurecer. Sem dinheiro para o transporte e com o orçamento estourado, Cat começou a andar a pé, apressando o passo pelas calçadas. Ela precisava vencer os quarteirões que separavam a loja da escola da filha o mais rápido possível.
No meio do caminho, o ronco de um motor conhecido emparelhou com ela. Era o carro de Antônio Menezes. O vidro fumê baixou, revelando o rosto do gerente.
— Quer uma carona, Catarina? O caminho é longo para caminhar de salto.
Cat sequer diminuiu o passo. Manteve os olhos fixos na direção da avenida.
— Não, obrigada, Senhor Menezes. Prefiro caminhar. Muito obrigada — respondeu, com uma polidez gélida.
O carro acelerou e sumiu na avenida, deixando-a para trás. Cat apertou o passo, os pés doendo dentro dos sapatos de salto, o suor frio brotando na nuca enquanto corria contra o tempo.
Minutos depois, finalmente avistou a fachada impecável e colorida da Escola Particular Ciranda. Era um lugar caro, uma estrutura que ela insistia em manter a duras penas para garantir que a filha tivesse o melhor.
Assim que cruzou o portão de entrada, seu mundo se iluminou. No pátio, uma menininha de oito anos, a coisa mais linda e fofinha do mundo, com cabelos loirinhos e olhos verdes brilhantes, avistou a mãe.
— Mamãe! — Sofia gritou, o rosto abrindo-se em um sorriso radiante enquanto corria com a mochila nas costas em direção a Cat.
Cat abaixou-se, ignorando a dor nos pés, e acolheu a filha em um abraço apertado, aspirando o cheiro do cabelo da menina. Por um breve segundo, toda a opressão da loja Rizzo desapareceu.
— Dona Catarina? — uma voz firme e formal ecoou atrás delas.
Cat levantou-se, ainda segurando a mão de Sofia. A diretora geral da Escola Ciranda, uma mulher de postura rígida e expressão séria, observava as duas do alto da escada da secretaria.
— Sofia, querida, vá pegar seu desenho na mesa da tia Ana enquanto a mamãe conversa um minutinho com a diretora, sim? — Cat pediu, tentando disfarçar a súbita onda de ansiedade que inundou seu peito.
A menina assentiu e correu para dentro. Cat caminhou até a diretora, sentindo o peso de cada passo.
— Por favor, entre na minha sala, Catarina. Precisamos conversar — disse a mulher, indicando a porta com um gesto contido.
Assim que a porta da sala se fechou, a diretora não usou de rodeios. Sentou-se atrás de sua mesa de mogno e olhou diretamente para Cat.
— Eu serei direta, Catarina. Nós compreendemos que cada família passa por momentos de transição, mas a Escola Ciranda tem normas rígidas. A mensalidade da Sofia está consideravelmente atrasada.
Cat sentiu o sangue sumir do rosto. A humilhação queimava em suas bochechas.
— Diretora, eu peço desculpas. Eu estou arcando com todas as despesas sozinha no momento... Eu garanto que vou resolver, o meu salário na loja Rizzo entra na próxima semana...
— O conselho da escola já foi bem tolerante, Catarina — a diretora a interrompeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — O prazo final esgotou. Estou lhe dando exatamente quinze dias. Duas semanas para quitar todos os valores atrasados em aberto. Caso contrário, infelizmente, serei obrigada a pedir que você retire a Sofia da nossa instituição.
As palavras pareceram ecoar na mente de Cat como uma sentença de tribunal. Duas semanas. Quinze dias para conseguir um dinheiro que ela simplesmente não tinha, enquanto o marido gastava o resto do que não tinham em jogos e o gerente da loja a encurralava contra a parede.
Olhando pela fresta da porta para a filha loirinha que sorria no pátio, Catarina engoliu em seco, sentindo o chão desaparecer sob seus pés modernos e cansados.