Maria Luiza Azevedo
“p**a* m***a*! p**a* m***a*! p**a* m***a*!”
Ela pensava em qual a chance do cara do acidente ser seu chefe? Se ela fizesse essa pergunta, qualquer pessoa diria: nenhuma ou uma em um milhão. É muito azar abrir a porta da sala da presidência e dar de cara com o cara que discutiu na noite passada, e pior, que havia quebrado a lanterna de seu caro caríssimo.
Ela sentiu que a cara foi ao chão ao perceber que estava diante do seu chefe e que aquela foi a primeira impressão que teve dela. A possibilidade de ter sido demitida se não fosse pelos elogios de Luana era palpável e ela sabia que, mesmo com os elogios da amiga, ainda corria o risco se não andasse na linha. Então ela precisou segurar a língua, pedir desculpas e agir como uma boa funcionária. Mas aquele homem parecia testar os seus limites.
Depois de passar toda a manhã trabalhando ao seu lado e sair de sua sala ainda com o cérebro ligado no inglês, quando ela chegou na sala de Luana, que ainda não havia retornado, havia um e-mail novo em sua caixa de entrada. Ela abre a caixa de mensagens e lá estava... a tal conta da lanterna do carro importado. Quando abre a conta o coração de Malu dispara, a mão gela e a boca seca. Teria que ficar sem salário por um ano, ou mais, para pagar aquilo. Ou roubar e m***r. Passou pela sua cabeça fazer essas coisas com o chefe, mas aí ela perderia o emprego e iria parar na cadeia com a chave jogada no esgoto.
Ela imprimiu a conta e voltou para a sala do homem com a folha em mãos. Pegou também seu contra-cheque para provar que, a menos que roubasse um banco, jamais poderia pagá-lo recebendo um salário como aquele.
Entra em sua sala sem bater e há um homem lindo em sua sala: n***o, alto, a barba bem feita... mas sua atenção é toda do chefe sacana.
— Senhorita Azevedo, O que fazer em minha sala? — pergunta com aquele sotaque ridículo.
— Eu trazer isso aqui pra lhe perguntar como vou pagar isso ... — Ela tenta imitar seu sotaque, e coloca a conta sobre a mesa e em seguida o contra-cheque — Recebendo isso? Nem se eu passar fome e morar na rua termino de pagar, pois vou morrer antes.
Lembro-se que ele não fala muito bem sua língua, mas o problema é dele. Que lute pra processar o que aquilo tudo significa.
Ela percebe um lampejo de sorriso nos lábios do amigo dele, e não tem ideia do que pode significar, também não se preocupa em tentar entender.
— Invade a minha sala e fala comigo neste tom, está louca? — fala em sua língua materna.
— Você está louco se acha que tenho como pagar aquilo. Concordei em pagar, me desculpei, dei o meu melhor mais cedo, mas tudo tem limite, senhor Smith.
Ele ergue uma de suas mãos pedindo que ela se acalme.
— Eu preciso ir, depois a gente conversa, Allan — O amigo bonitão dele se despede e acena para a jovem antes de partir, os deixando sozinhos.
— Vou pedir que um funcionário calcule um valor justo e desconte de sua folha de pagamento todos os meses. É o melhor que posso fazer, senhorita Azevedo.
Sua respiração ainda está acelerada, a vontade de Malu é fazer uma bola com a conta e empurrar por sua boca, mas se controla, pois dependendo do valor a ser descontado, pode ser razoável, mesmo que leve um século pagando.
— Tudo bem, mas quero ver esse valor antes de ser realmente descontado de meu pagamento. — Ele ergue uma sobrancelha, parecendo incrédulo — Não aceitarei caso comprometa as minhas obrigações.
— Já disse que será um valor justo.
— Vamos ver, mas por enquanto, obrigada por me ouvir.
Vira-se em meus altos e anda até a porta, batendo-a às suas costas e cortando a visão de seu chefe.
A adrenalina ainda está forte em seu organismo, mas quando chega na sala, suas pernas estão bambas e ela se jogo na poltrona.
— O que houve, Malu, nunca te vi assim.
Escuta a voz da Luana e então percebe que a mulher havia chegado enquanto estava na sala do senhor Smith. Faz um resumo de todos os acontecimentos a ela e só percebe a boca da mulher se abrir em um “O” perfeito.
— Maria Luiza, você é louca. Como enfrenta o chefe assim? Ainda mais depois de cometer uma infração e fugir do local.
— Luana, eu me desculpei, trabalhei direitinho com ele hoje e ainda falando tudo em inglês, aceitei pagar a lanterna do carro, mas olha só isso.
Ela abre a mensagem e a conta anexada para mostrar à mulher de meia idade ao seu lado.
— Me diz como eu poderia pagar isso? — A mulher analisa a conta e a encara.
— Você tem razão em contestar, mas não em invadir a sala do homem. — Ela ajeita os óculos em sua face. — Você tem sorte, ele poderia ter te mandado embora e ainda realizado um boletim de ocorrência contra você.
— E quanto a isso... muito obrigada por ter me elogiado para o chefe, segundo ele, só não me demitiu por causa disso.
— Só disse a verdade, minha querida. Agora, vamos almoçar e tratar dos últimos detalhes para a festa.
A mulher desligou o computador e guardou a sua pasta de documentos.
— Festa, que festa? — perguntou confusa, não sabia de festa alguma.
— Não acredito que não sabe da festa beneficente da empresa?
— Não sabia... ouvi umas conversas no corredor, mas não achei que fosse um evento interno.
— É um evento anual, o senhor Smith sempre vem nessa época do ano. Ele participa de uma ONG que ajuda crianças carentes a ter alimentação e educação. Ele mesmo faz uma doação generosa e cada funcionário pode contribuir também.
Ela poderia confessar que não esperava isso de um engomadinho. Se não houver qualquer falcatrua por trás disso tudo, ela ficaria bem chocada.
— Aí está uma chance de cair nas graças do chefe: faça uma doação. Ele sempre valoriza aquele que ajuda a ONG.
— Vou pensar. Mas não vou fazer parte disso apenas para cair nas graças do chefe.
Ambas saem da sala em direção ao refeitório e Luana continua a falar.
— Se eu fosse você, andaria na linha de agora em diante.
— Eu vou tentar.
E ia de verdade, mas só Deus sabe o que a espera nas mãos daquele gringo irritante.