Allan Smith
“Aquela garota só pode ser maluca.” Pensa ele ao se lembrar que ela acelerou e saiu com o carro, o deixando sozinho no meio do trânsito com a lanterna do carro quebrada. Mas pensou rápido e pegou o celular, digitando rapidamente a placa de seu carro e enviando a anotação para um funcionário do departamento jurídico da empresa. Ele sabia que assim que o funcionário abrir o e-mail pela manhã, verá a mensagem.
“Se ela se acha espertinha, vai quebrar a cara.”
Ele envia uma mensagem de áudio para o amigo, enquanto se acomoda no carro e dá a partida.
“Já estou chegando, uma maluca bateu no meu carro”
Coloca o aparelho no suporte e acelera, ainda seguindo a localização que seu amigo havia enviado.
Ao chegar no local, ele faz um resumo do que ocorreu para o amigo que gargalha e ele não entende qual é a graça. Imaginou que amigo estivesse com algumas doses extras de tequila em seu cérebro.
— Essa vai te dar dor de cabeça — ele dá a sua opinião, o que para o magnata não tem nenhum fundamento.
— Como ela me dará dor de cabeça se quem vai tratar desse assunto serão meus funcionários? — Beberica sua bebida encarando-o e aguardando a sua resposta.
— Acha que ela vai aceitar alegremente a conta que vai enviar para ela? Mesmo que faça um boletim de ocorrência, ela provavelmente não vai ter dinheiro para pagar a sua lanterna caríssima. Haverá um acordo... Meu amigo, isso vai render.
O canalha vira a sua tequila em um gole só e faz cara f**a, devido a bebida ser muito forte.
— Não consigo ver como pode render — Allan respira fundo, lembrando-se das palavras que ela disse, mas que não entendeu uma só virgula — E acho que ela me xingou, mas não entendi nada do que disse.
— Provavelmente te xingou. Mas vamos deixar esse assunto para outra hora, pois tenho certeza que não faltará oportunidade para falarmos sobre isso. Agora, vamos ao que interessa...
O sorriso s****o de seu amigo indicava tudo.
— Cadê as gostosas? — Allan pergunta, sabendo perfeitamente do que ele fala. Roger é tão mulherengo e cafajeste quanto ele.
— Na área vip nos aguardando. — Ele se ergue e o acompanha.
Depois de horas de viagem e de um acidente que lhe acarretou um prejuízo e uma provável dor de cabeça futura, ele precisa urgentemente relaxar e nada melhor do que fazer isso nos braços de umas gostosas brasileiras.
***
A dor de cabeça é uma lembrança amarga da noite passada, mas ele sente que valeu a pena para aplacar o início da noite. Felizmente o que ocorreu já está nas mãos de um dos seus funcionários, para identificar a mulher maluca e mandar a conta do prejuízo que lhe causou.
Não podia se ocupar com algo tão i****a, se ele possui coisas muito mais importantes para fazer. Em sua mesa, um monte de documentos a serem assinados já estavam ali quando ele chegou logo cedo.
Allan pega o telefone e liga para uma das suas advogadas mais experientes. Fala com ela em inglês, pois o seu português ainda precisa ser trabalhado, pois ainda fala devagar e em muitas palavras tem dificuldades de compreensão. E como se trata de documentos importantes, não pode haver erro.
— Preciso de você aqui na minha sala, Luana — Ele exije, mas a resposta não é aquilo que queria ouvir.
— Lamento, senhor Smith, mas estou na rua resolvendo umas questões jurídicas da empresa. Chame a senhorita Azevedo, ela é muito competente.
— Quem é essa? É nova na empresa? Não me lembro de alguém ter falado algo sobre contratar uma nova advogada.
— É uma estagiária, já está no último ano de formação. Ela foi selecionada no último programa de estagiários que a empresa abriu.
“Ok. Sobrou para me ajudar uma estagiária?” Pensou.
— Melhor chamar outro advogado.
— Escute o que digo, senhor, chame a estagiária. Ela está na minha sala digitando uma procuração, mas é algo que pode esperar perfeitamente. Ela é excelente, fala bem inglês e tem um futuro promissor.
Suspiro, decidindo dar uma chance a tal senhorita Azevedo.
— Tudo bem, Luana. Quando chegar, venha na minha sala.
— Sim senhor.
Allan desliga e faz uma ligação para a sala da advogada Luana. Uma voz fria o atende, mas na mesma medida, é uma bela voz.
— Senhorita Azevedo? — fala em português.
— Eu mesma, o que deseja?
— Venha à sala da presidência. Agora!
Ele dá a ordem e desliga o aparelho, se concentrando no documento enquanto a moça não chega. Uma batida soa na porta.
— Entra!
A porta se abre e então ele toma um choque. A saia lápis que moldava seu corpo e a blusa com mangas três-quartos azul petróleo, deixavam-na com um ar mais sério e sofisticado. Os óculos e o r**o de cavalo a deixavam quase irreconhecível, mas aqueles olhos escuros o acompanhariam até o inferno. É ela. A garota que bateu no seu carro na noite passada.
Ele percebeu que ela também me reconheceu. É claro que para ela o reconhecer deve ter sido muito mais fácil, pois não estava tão diferente da noite passada, mas ele já não podia dizer o mesmo dela.
— Você... — Ela começou com a voz trêmula.
A mulher recuou um passo e olhou novamente para o placa na porta. O olhar de incredulidade toma conta de sua face.
— Senhor Smith? O que... — ela balançou a cabeça e retirou os óculos, como se quisesse afastar algo de sua visão ou de seus pensamentos.
— Senhorita Azevedo... Você bater no meu carro e fugir... Luana elogiar você... — balança a cabeça, pois não ter fluência em uma língua e precisar se comunicar com ela é uma m***a.
— Eu falo inglês, Senhor Smith — Pelo menos isso, então. Ela começa a se comunicar em sua língua materna. — Lamento por meu comportamento, senhor — A face dela se contorceu, parecia estar se obrigando a dizer aquelas palavras.
— Vai lamentar a conta que será enviada para algum contato seu que meus advogados, seus colegas, estão em busca.
— Não há a necessidade, senhor. Envie o orçamento para o meu e-mail e entraremos em um acordo.
— Agora você quer que eu envie um e-mail pra você. — Não era uma pergunta — Ontem você me xingou e fugiu.
— Lamento, senhor — A voz era baixa e ele sabia que ela estava se controlando por ele ser o seu chefe.
— O que eu estava tentando dizer antes é que, só não lhe mando embora porque Luana teceu elogios generosos sobre você. — Recosto-me e cruzo os braços — E eu confio nela. É a mais antiga advogada desta empresa e a melhor que conheço. Se ela diz que você é boa, então você deve ser muito boa.
— Obrigada — agradeceu em voz baixa.
— Agradeça a Luana e não a mim. Agora, vamos trabalhar. E hoje mesmo receberá a conta da lanterna quebrada em seu e-mail.
— Sim senhor — fala em um fiapo de voz e se aproxima. Nem parece a desaforada da noite passada.