THIAGO/ TH NARRANDO
Eu me chamo Thiago, mas no morro todo mundo me conhece como TH. Tenho 39 anos, corpo fechado de tatuagem e cicatriz que não dá pra esconder. Cada marca dessa conta um pedaço do que eu vivi, do que eu perdi e do que eu precisei me tornar. Eu não escolhi esse caminho, fui moldado nele desde cedo. Meu pai já vinha me preparando pra assumir tudo, me ensinando a ser forte, frio… pronto.
Mas o mundo não espera você estar pronto de verdade. No dia da invasão, o morro virou guerra. Bala comendo solta, grito, sangue… e mesmo a gente segurando a base, os inimigos conseguiram tirar o que eu tinha de mais importante: meu pai. Eu não pensei duas vezes. No mesmo dia eu fui atrás do responsável e cobrei. Do jeito que aqui se cobra. Ali eu deixei de ser só o filho do dono… e virei o dono.
Achei que já tinha visto o pior. Me enganei. Meses depois, eles pegaram minha mãe e minha irmã no asfalto. Não só mataram… fizeram questão de torturar e me mandar tudo. Foi ali que algo dentro de mim morreu de vez. Desde então, eu decidi: ninguém mais vai sofrer por minha causa. Eu sou sozinho, e assim vai ser.
De vez em quando eu me perco em companhia vazia com as putas, só pra aliviar a mente e o corpo, nada além disso. Apego não faz parte da minha vida. Já sonhei em ter uma família, filho correndo pela casa… mas isso não combina com o mundo que eu comando. Aqui, minha família é o morro. É o Remela, meu sub, que é mais que parceiro, é irmão. São os vapores que tão comigo no corre, prontos pra guerra quando o bicho pega.
A noite cai no morro e é quando tudo fica mais claro pra mim. Do alto, olhando as luzes piscando lá embaixo, parece até outro mundo, um mundo que eu nunca mais vou fazer parte. Aqui em cima é diferente, é lei própria, é respeito na base do medo e da lealdade. E eu carrego isso nas costas todos os dias.
Remela cola do meu lado, acende um cigarro e fica em silêncio. Ele me conhece, sabe que tem dias que eu não quero ouvir nada, só pensar. Mesmo assim, a presença dele é firme… é uma das poucas coisas que ainda me mantém de pé.
— Tá tudo tranquilo por enquanto — ele solta, olhando o movimento.
Eu só faço que sim com a cabeça, mas no fundo sei que “tranquilo” aqui é só questão de tempo.
O rádio chia na cintura, um dos vapores avisando de movimento estranho na entrada. Meu corpo já responde antes mesmo da mente processar. Aqui não tem espaço pra vacilo. Eu respiro fundo, sentindo aquele peso antigo no peito… não é medo, é memória. É tudo que eu já perdi, me lembrando do porquê eu não posso falhar.
— Fica ligeiro — falo firme, já descendo com o Remela logo atrás.
Enquanto caminho pelo morro, vejo as pessoas nas portas, crianças brincando, gente vivendo do jeito que dá… e é por isso que eu continuo. Não é só poder, nunca foi. É sobre proteger o que é nosso, do jeito torto que a vida me ensinou.
Mas no fundo… bem lá no fundo que eu quase não encosto… ainda existe aquele cara que um dia quis algo diferente. Só que esse cara eu enterrei junto com a minha família. E não tem volta pra quem escolheu viver assim.
Porque no fim das contas, eu não tenho mais nada a perder.
E talvez… seja isso que me torna o mais perigoso de todos.
No fim das contas, eu sou isso aí: um cara que aprendeu a viver cercado de gente, mas carregando tudo sozinho.