CAPÍTULO 1
MILENA NARRANDO
Eu me chamo Milena, tenho 18 anos e, olhando assim por fora, até parece que sou só mais uma garota comum. Morena clara, aquele tom que o pessoal chama de “café com leite”, cabelo liso e longo caindo pelas costas. Meu corpo… eu gosto dele. Tenho curvas que me fazem sentir bem — b***a, s***s num tamanho que considero bom, cintura fina. Tenho 1,60 de altura e, por um tempo, achei que isso era tudo o que importava.
Mas a vida… a vida resolveu me mostrar bem cedo que aparência não sustenta ninguém.
Ultimamente, tudo tem sido difícil. Difícil mesmo.
O câncer levou a minha mãe.
A gente tentou de tudo. Quando digo “a gente”, falo de mim e do meu pai. Ele fez o impossível, correu atrás de tudo que podia. O que dava pra fazer pelo SUS, a gente fez. Cada consulta, cada exame, cada esperança… a gente se agarrou a tudo. Mas não foi suficiente.
Nunca é quando falta dinheiro.
Depois que minha mãe morreu, meu pai desmoronou. Eu via nos olhos dele que alguma coisa tinha se quebrado de um jeito que não tinha conserto. Ele parou de trabalhar, não queria sair de casa, m*l falava comigo. A depressão foi engolindo ele aos poucos, como se fosse um buraco sem fundo.
E eu ali, assistindo tudo, sem saber como ajudar.
Até que veio o dia que acabou com o resto de mim.
Eu tinha acabado de voltar da minha formatura. Último ano da escola. Era pra ser um momento feliz, né? Um recomeço. Um “agora a vida vai andar”. Eu até tentei acreditar nisso enquanto caminhava pra casa.
Mas quando cheguei… estava tudo silencioso demais.
Silêncio de um jeito estranho.
Chamei por ele.
Nada.
Fui andando pelos cômodos, o coração batendo cada vez mais forte, uma sensação r**m crescendo dentro de mim. Até que cheguei no quintal.
E vi.
Meu pai… pendurado.
Sem vida.
Naquele momento, o mundo simplesmente parou. Eu queria gritar, chorar, correr… mas não saiu nada. A dor era tão grande que parecia que tinha secado tudo dentro de mim. Eu já tinha chorado tanto pela minha mãe… que não restava mais lágrima nenhuma.
E foi ali que eu entendi.
Eu estava sozinha.
Sozinha de verdade.
Desde então, minha vida virou uma luta diária pra sobreviver. Sem dinheiro, sem família, sem ninguém. O aluguel atrasado há três meses, a comida acabando… e eu saindo todos os dias atrás de emprego.
Mas quem dá oportunidade pra uma garota de 18 anos, sem experiência nenhuma?
Ninguém.
Cada porta fechada era mais um peso nas minhas costas.
Até que, um dia, voltando de mais uma tentativa frustrada, encontrei a dona Sônia me esperando no portão.
Eu já sabia.
Nem precisei perguntar.
Ela falou que eu precisava desocupar a casa. Tinha outra pessoa interessada. Na hora, meu coração afundou. Eu me desesperei, claro… mas, no fundo, eu sabia que aquilo ia acontecer.
Eu não tinha mais como pagar.
Talvez ela tenha visto o meu desespero, porque depois de um tempo em silêncio, ela me falou de uma casa de tábua, do outro lado do morro. Disse que estava vazia.
Era aquilo ou a rua.
Aceitei na hora.
O marido dela me ajudou a levar minhas coisas numa picape. O caminho parecia cada vez mais longe, cada vez mais estranho… até que chegamos.
E quando eu vi o lugar…
Senti um aperto no peito.
Um esgoto corria bem na frente das casas de madeira. O cheiro era forte. O ambiente… pesado. Ali só morava gente que me dava medo, viciados, pessoas perdidas, olhares vazios.
Por um segundo, pensei em desistir.
Mas desistir pra onde?
Eu não tinha escolha.
Respirei fundo, segurei o choro que insistia em voltar… e encarei.
Aquela era a minha nova realidade.
Desci da picape com as pernas meio bambas, como se meu corpo ainda não tivesse aceitado que aquele lugar agora era… minha casa.
Casa.
A palavra soava estranha na minha cabeça.
Fiquei alguns segundos parada, olhando em volta. As tábuas da construção eram velhas, algumas tortas, outras com frestas que deixavam ver o escuro lá dentro. O cheiro do esgoto parecia ainda mais forte ali, misturado com umidade e abandono.
— É simples, mas dá pra morar — disse o marido da dona Sônia, tentando soar gentil.
Eu só balancei a cabeça. Não tinha muito o que dizer.
Com poucas coisas que ainda me restavam, comecei a entrar.
Cada passo que eu dava dentro da casa fazia a madeira ranger. O som ecoava no silêncio, como se aquele lugar também estivesse me observando, tentando entender quem eu era.
Deixei o colchão encostado em uma parede e olhei ao redor.
Não tinha luxo.
Não tinha conforto.
Mas tinha um teto.
E, naquele momento, isso já era mais do que eu podia exigir da vida.
Quando ele foi embora, o silêncio voltou — mais pesado do que antes. Agora não era o silêncio da minha antiga casa… era um silêncio estranho, cortado de vez em quando por vozes distantes, risadas altas e sons que eu não conseguia identificar direito.
Me abracei, sentindo um frio que não tinha nada a ver com o clima.
Sentei no colchão e passei as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Mas era difícil. Tudo tinha acontecido rápido demais.
Minha mãe.
Meu pai.
A casa.
A mudança.
Respirei fundo, olhando pro chão de madeira gasto.
— Eu preciso de um emprego — falei baixinho pra mim mesma, como se dizer em voz alta tornasse aquilo mais real.
Porque era a verdade.
Eu não tinha mais ninguém.
Se eu não corresse atrás, eu não comia.
Simples assim.
Meu estômago até respondeu com um leve aperto, como se quisesse reforçar o aviso.
Levantei devagar e fui até a pequena janela. Dava pra ver o movimento do morro, gente entrando e saindo, olhares desconfiados, vidas difíceis como a minha… ou talvez até piores.
Ali, ninguém estava ali por escolha.
Todo mundo estava sobrevivendo.
E agora… eu também fazia parte daquilo.
Apoiei a testa na madeira da janela e fechei os olhos por um instante.
— Amanhã eu começo de novo — murmurei.
Mesmo sem saber por onde.
Porque, se eu não tentasse…
ninguém faria isso por mim.